Inevitável não lembrar do abraço cerimonioso que eu te dava nos segundos domingos de maio. Te abraçar e te beijar era ato diário. A qualquer momento, em qualquer lugar, quando você estava brava, cansada, preocupada ou sorrindo. Mas o abraço do dia das mães era diferente. Bem no fundo, tinha um eco da consciência; um medo mesmo, fruto da dura verdade de que um dia, (um dia!) meus braços ficariam vazios. E você sentia isso também. Não era à toa aquele seu ar entre sério e sereno a dizer coisas ternas enquanto eu te abraçava. Sim, era você quem me dizia coisas ternas. Eu ficava sempre tão paralisada pela solenidade do momento que não sabia nada fazer além de abraçar e sentir. E muitas dessas vezes junto com você, chorar.
"Que no próximo ano eu esteja aqui para que vocês possam fazer o mesmo", era uma das coisas que você pronunciava quando te abraçávamos, eu e os meninos. No ano de 2010, quando passamos pela maior das provas, com sua saúde ameaçada, essa frase portava doses redobradas de fé e esperança. Torcemos, oramos, choramos, clamamos que aquela nuvem carregada passasse e a calmaria voltasse. Os anos que sucederam 2010 foram anos de vitória. Seus cabelos, cujos fios haviam caído por completo, voltaram a crescer. E numa beleza e vigor que traduziam a sua força e vontade de continuar vivendo, apesar de todos os apesares. É, a vida sempre te foi hostil, mas você sempre levantava e sorria. Uma guerreira, com todas as letras.
A minha prece a Deus de todos os dias era que você tivesse paz. Que a sua saúde estivesse bem, que todo o mal se afastasse da sua vida. Que as causas de preocupação cessassem, que eu tivesse você sorrindo ao meu lado por anos a fio. Forte, bonita e elegante, como eu te dizia, e você ria achando que eu estava sendo bondosa. Não, eu estava sendo sincera. Eras a mais linda das filhas de minha avó. (Que me perdoem minhas tias, todas muito amadas). Eram sinceras as minhas reclamações por não ter herdado o seu cabelo longo, cheio e macio, as suas unhas fortes e bem torneadas, sua sobrancelha feita por natureza. Eu, como única filha, deveria tê-los recebido por direito!
Pois bem, os muitos e muitos anos que eu pedi a Deus que tivesse ao seu lado... não vieram. Não sei por que. Não que eu me considere digna de todas as graças, merecedora de que meus pedidos sejam sempre atendidos. Quem sou eu!... Mas a gente é assim mesmo... não sabe de nada. E nesse primeiro dia das mães em que eu vou sair do meu quarto e você não vai estar lá dentro para eu abraçar, estou aqui escutando a chuva cair forte no telhado e escrevendo estas linhas. A chuva, sempre a chuva...
Agora que eu não posso mais comprar um presente pra te dar, me resta pedir a Deus que te deixe feliz aí. Aprendi com você a acreditar em Deus, a ser cristã. E é nisso que os cristãos acreditam: que a vida não acaba. Então... que a sua vida aí esteja boa, mainha. Que o seu lugar esteja confortável, limpo, arejado, iluminado e em paz. Que estejas bem acompanhada, com os seus que te precederam, principalmente minha vó. Me angustia não saber ao certo como é aí, mas imagino que tenha todos os anjos e santos, Nossa Senhora e Jesus Cristo. Só me resta pedir daqui, do cume de minha ignorância e pequenez, do profundo de minha dor e saudade, que todas as luzes celestiais estejam te iluminando. Que estejas vivendo a plenitude da graça e a felicidade que tantas vezes te foi negada do lado de cá.
Sempre te amei, vou te amar até sempre.
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