E nestes dias em que se celebra o amor,corações, beijos e abraços esparramados por todos os lados, vou deixar um trechinho da escritora portuguesa Inês Pedrosa, do romance que analisei na minha dissertação de Mestrado. No trecho, a personagem Ana Lúcia escreve a Afonso, que acabara de perder a filha pequena. Meditando sobre a relação vida x morte, ela reflete sobre a natureza do amor. Inevitável esse entrecruzamento...
É, na minha opinião, a página mais bonita do livro.
"(...). O amor é eterno como as estrelas. Não sabemos nada das estrelas, como não sabemos nada do amor. Muitas vezes encontramos no brilho distante de uma estrela a coragem necessária para atravessar noites de excessiva treva. Sussurramos desejos às estrelas cadentes e confiamos as lágrimas à beleza de um céu estrelado. Precisamos da tristeza para aprender a olhar para o céu. Não falo do céu metafísico, do céu povoado de deuses vingadores, desse céu demasiado terreno que, ao longo dos séculos, tem construído uma história de horror e guerra. Não falo do céu dos fiéis e infiéis, do céu que ergue fogueiras e cadafalsos, que inventa infernos e torturas, que se despenha em aviões sobre a humanidade. Falo do céu que existe sobre as nossas cabeças demasiado ocupadas a engravatar a terra. Das estrelas que vivem e morrem sem que o saibamos, e que nos iluminam, se soubermos olhar para elas como se fossem sempre a mesma, a estrela inicial. É assim a eternidade do amor - indiferente à vida e à morte, capaz de sobreviver à pequena cronologia da vida. Capaz, acima de tudo, de fazer da semivida presunçosa em que tantas vezes nos enredamos, uma vida verdadeira, voltada à única coisa que interessa - o amor.
Temos o privilégio de nos sabermos mortais. O que fazemos desse privilégio? Em geral, fugimos dele, apavorados. Refugiamo-nos nas aparências do tempo, fazemos contas à vida. A morte de um jovem é uma afronta a essa nossa contabilidade estéril. As nossas vidas seriam muito diferentes, se acordássemos para cada dia como se fosse o único. Quantas vezes repetimos: 'Temos tempo'? Quantas horas ocupamos a complicar as vidas dos outros, em vez de simplificarmos a nossa?
Temos medo. O medo é o maior assassino; conduz-nos a subterfúgios infra-humanos. O medo criou os deuses do extermínio e da vingança, porque a sua natureza cobarde leva-o a viver de desculpas e a sacudir a responsabilidade. Quantas pessoas não se dizem 'demasiado sensíveis' para ir a um hospital e acarinhar um doente terminal, ou para ir a um velório abraçar os que acabaram de perder uma parte de si? A doença e a morte confrontam-nos com a mortal mesquinhez desta 'sensibilidade' - e convocam-nos para uma outra forma de vida, eterna como a valentia e a bondade humanas, que são uma e a mesma coisa.
Repetimos que a fé é, face à morte, o maior lenitivo. Mas que é a fé verdadeira senão o absoluto do Amor? O Amor é o verdadeiro rosto de Deus." (...)
In: Os íntimos, 2010, p. 67, 68.
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