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sexta-feira, julho 6

Sobre "perder"

Se existe um verbo que concentra tudo o que de mais nefasto pode existir nesta vida e em todas as vidas possíveis, é o verbo perder.

A experiência de perder faz-nos conhecer os becos mais escuros, os mais inóspitos lugares da alma humana. Existem perdas de variadas dimensões: perde-se o ônibus, perde-se o anel, perde-se a fome, perde-se o voo, perde-se o grande amor, perde-se o emprego, perde-se a saúde, perde-se o bebê, perde-se a calma, perde-se a avó, perde-se o chinelo, perde-se a alegria, perde-se o campeonato, perde-se o sono, perde-se a motivação, perde-se a prova, perde-se o celular, perde-se a esperança. A dor de uma perda pode durar alguns instantes, como quando se perde o chinelo, pode durar uma noite, como quando se perde o sono, pode durar duas semanas, como quando se perde o emprego, ou pode durar a vida inteira, se se perde o sentido.

Há muitas filosofias sobre as perdas, algumas deveras plausíveis. Diz-se que elas favorecem o amadurecimento, criam as condições para futuros ganhos e afinam o indivíduo para os altos e baixos do correr da vida. Não parecem assertivas falsas. No entanto, tão acertada quanto, é a constatação de que, quem menos perde, mais se alegra. Talvez não se trate de uma conta de somar, e sim de uma equação mais complexa, mas ninguém há de negar que dores sobre dores têm o poder de apagar aos pouquinhos as velinhas que formam o candeeiro da alma.
Em outras palavras, arrisco afirmar que uma existência pode ser medida pela frequência e pela intensidade das perdas que experimenta.
E eu nem estou falando da copa.

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