É, meus amigos, se nada de melhor a experiência de ser gestora puder me proporcionar, já terá valido a pena pela quantidade de histórias que terei a contar. Das mais deprimentes às mais inacreditáveis, passando pelas hilárias e pelas inconfessáveis. Nestes 107 dias de aventura já pude me deparar com personagens suficientes para a composição de contos a la Alan Poe ou de crônicas ao gosto de Veríssimo.
Na última semana, na tentativa de mediar um conflito entre alunos, convidei as mães dos envolvidos para uma conversa, com o intuito de informá-las sobre o andar dos acontecimentos e as possibilidades de desdobramentos desagradáveis. Pois, meus caros, confesso-lhes que a emenda saiu pior do que o soneto. As referidas mães, encolerizadas tanto mais que os próprios filhos, muito mais que escutar o que havia a ser dito, prepararam-se para um confronto de MMA. Como lhes faltara a adversária desejada (a mãe da aluna que primeiro comparecera para comunicar os fatos), tomadas de níveis ainda mais elevados de adrenalina, as ferozes mãezinhas, em coro com a cria, motivadora do engodo, que também se fazia presente, identificaram na minha pessoa o inimigo que tanto ansiavam para saciar a sede de usar as unhas, os dentes e o amplo vocabulário bélico-obsceno que costuma laurear tais animosidades.
A certa altura, uma delas se volta para mim com o dedo em riste, desenhando talvez facas no ar, e expõe em tom ameaçador, em suas palavras, como é grande a minha incapacidade de resolver problemas ao optar por deixar de fora daquela hora decisiva a parte opositora da contenda. Certamente quereria a delicada mãezinha, ver-me tremer e lacrimejar diante de tal ênfase dos seus gestos e de sua voz. Não encontrando nada além de um levantar de sobrancelhas e um riso abafado, ela não hesita em classificar-me como "cínica!", na frente de todos os presentes. Do outro lado da sala, outras mães, compartilhando de igual enfurecimento, frustração e desgosto, falam e gesticulam umas para as outras. Neste mesmo instante, a porta-voz levante-se, pois não é concebível que gaste mais minutos de seu dia numa reunião tão inútil, em que os gestores tratam com ineficiência e flagrante parcialidade a questão. Ao seu sinal, uma a uma vai deixando o ambiente pronunciando asneiras já inaudíveis a quem permaneceu no espaço interno. A última que me foi possível escutar qualificava como "palhaçada" a convocação feita.
Pois bem, quero concentrar-me agora no meu suposto cinismo.
Os entendidos em Filosofia saberiam explicar que o cinismo foi uma corrente filosófica surgida na Grécia Antiga que sustentava um modo de vida peculiar, desgarrado da materialidade e seus prazeres. Nessa acepção, o cinismo é quase uma virtude, excetuando-se os exageros de seus cultores que, parece-me, chegaram a equiparar a dignidade humana à de um canino.
Mas bem sabe o leitor que não é desse cinismo que fui acusada. Minha senhora, alto lá! Estás a dizer que eu sou o quê? Então é lícito que as senhoras adentrem uma unidade escolar a afrontar os que lá estão com seus gestos, tom de voz e roupas inadequados e não és capaz de suportar um levantar de sobrancelhas? A senhora acha mesmo que é possível tolerar tamanha dose de descompostura numa só tarde sem bom humor?
Senhora, admita, o que te ofendeu foi ver o seu plano frustrado. Esperavas me ver encurralada, entristecida por me ter sido jogado na cara que sou uma incapaz; titubeante e amedrontada por estar como numa jaula de leoas famintas, ávidas pelo sangue da presa. Querias ver esta "zinha", daqui mesmo, da Malhada, que fica varrendo a porta de casa de cabelo assanhado e roupa velha, preta, pobre e aparentemente jovem, querias vê-la cabisbaixa e vencida pelo seu grito. Mas, não, senhora, eu não tenho medo do seu tom elevado, nem do seu dedo em riste. A minha resposta imediata, por sua vez, não poderia ter sido mais eloquente. E se a senhora imaginou o triunfo de todo o seu desrespeito perante, (inclusive) os alunos, eu só posso rir pra você.
Ainda nos veremos, senhora.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Diga alguma coisa sobre esta postagem!