Lygia Fagundes Telles
O menino de cara inchada entra na sala de espera e corre choramingando até a enfermeira, não está aguentando de dor, quer que o dentista arranque imediatamente esse miserável. A enfermeira faz uma expressão compungida e pergunta se não me importo de ceder minha hora para o menino. Com todo o prazer - respondo e saio para a rua. Estou leve, inspirada. Nenhum sentimento de culpa. Vou andando e pensando debaixo do sol. Dentes demais. Nervos demais. Num sistema dental assim complexo tem que haver mesmo os inconformados, os dissidentes. Mas a maioria ficou firme, fiel ao regime, até me comovo com tamanha disciplina. E este sol e este ar fino! Escrevo um poema no cartão da hora cancelada: Estou viva./Lúcida./E tirante os dissidentes/os dentes são meus.
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