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sexta-feira, março 13

Vó: 10 anos




Meu primeiro contato direto com a morte foi há exatos dez anos, quando partiu a única avó que conheci.
Minha relação com vó era terna, como são os amores dos netos para com seus avós. Lembro-me que, bem pequena, todas as vezes que ia visitá-la com minha mãe eu levava um bombom. Eu, louca por doces desde que me sei, achava que aquela era a forma mais simples de deixar alguém feliz. A casa de minha avó tinha um quintal grande, com várias árvores. Quando a primarada estava reunida, nos divertíamos muito brincando no quintal. Mas eu sempre fui meio grande. Às vezes não participava das brincadeiras com as outras crianças para ajudar minha vó em alguma tarefa. Eu varria, lavava a louça, limpava o fogão, ajudava a fazer geladinho, arrumava o forro do sofá, pegava roupas do varal, dobrava-as... Acho que eu era a única das netas pequenas que se prestava a essas tarefas. Devo ter aprendido com mainha. Quando mainha chegava lá ia logo ajudar minha avó, principalmente nas tarefas mais pesadas. Só depois sentava para conversarem. Eu também gostava de pentear o cabelo de vó e de passar perfume no seu pescoço, quando ela tomava banho e sentava na sua cadeira em frente à televisão. Ela ria com meus gestos e agradecia. Eu não chamava vó de vó. Não sei por que motivo, eu e alguns outros primos nos habituamos a chamá-la somente pelo seu apelido: Lalu. Vó criava galinhas. Ela certamente gostava delas, mas não era essa a sensação que eu tinha. Vó vivia reclamando da ousadia das galinhas em querer invadir a casa, além de outras chateações que os bichos domésticos causam. Às vezes me incomodava o fato de aquelas galinhas serem tão chateadeiras e fazerem minha avó resmungar tanto, e eu aconselhava que ela não as quisesse mais. Mas ela sempre sorria e dizia que não. Eu entendi então que havia algum tipo de necessidade naquela relação conturbada.
Quando minha avó ficou doente, surgiu um impasse: alguns dos filhos achavam que ela deveria ser levada para Salvador, para ser internada e receber os devidos cuidados num hospital. Eu sabia que vó não queria ir. Eu ouvia, quando ela conversava com mainha, qual era opinião dela sobre hospitais. Mas ela sentia dores, e os remédios que estavam sendo administrados só funcionavam um pouquinho. Depois a dor voltava. Prepararam então tudo para levá-la. Eu nunca vou esquecer o olhar de minha avó, sentada em sua cadeira no quintal, no dia em que a levaram para o hospital. Naquele dia a casa ficou cheia de filhos e netos. Minha mãe auxiliou-a no banho, como estava sendo desde que vó começou a ficar frágil. Eu estava triste, porque sabia que ela não queria ir. Antes de sair, minha avó me chamou duas vezes. A casa estava cheia, mas ela pediu a mim dois favores: que a ajudasse a enxugar os pés, antes de calçar a sandália que usaria na viagem, e que pegasse no seu guarda-roupa um lencinho. Explicou-me minuciosamente onde estava guardado o lencinho, como um segredo.
O olhar que ela lançou à casa, já de dentro do carro, na hora de sair, foi igual ao olhar que eu havia notado horas antes, quando ela estava no quintal. Nós nos despedimos acenando e sorrindo, para que ela ficasse alegre. Observei que minha mãe ficou triste. Ela saiu do meio do grupo logo que o carro deu a partida. Estava arrepiada, e me parece que escondeu uma lágrima.
Não durou nem uma semana, recebemos a notícia de que vó havia partido. A cena do momento em que eu e minha mãe fomos avisadas da morte de vó ficou gravada em minha memória de tal forma, que eu não consigo lembrar sem que as lágrimas me voltem à face. Mainha sofreu muito a morte de vó. E eu sofri de dois jeitos: perder aquele elo único com a ascendência de meus pais; e testemunhar a dor de minha mãe por ver partir o seu porto seguro. Sim, mainha tinha esposo, filhos, irmãos, irmãs, amigas, tios e tias. Mas quando ela estava muito triste ou muito chateada ou muito preocupada, ela gostava de conversar era com vó. E depois que vó morreu, quando ela ficava muito triste, muito chateada ou muito preocupada, ela chorava, porque não tinha mais vó para conversar. Muitas vezes eu chorei escondido ao escutá-la dizer que estava sentindo "falta de mamãe". Eu imaginava que devia ser muito doloroso aquele sentimento...
Eu quero crer veementemente que mãe agora está perto de vó. Como eu queria que as duas estivessem perto de mim... A lacuna na minha vida é impreenchível! Mas, se mãe tiver perto de vó, eu vou me alegrar de um jeito: mãe tá feliz. E vó também. E o meu grande sonho, hoje, é um dia poder voltar a estar junto das duas.
Mulheres da minha vida, desejo que estejam bem! Digam a Deus do meu sonho de ir para perto de vocês... E me esperem.

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