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segunda-feira, novembro 23
Dos pássaros que faltam
Saíra cedo da cama para caçar passarinhos. Era essa sua atividade mais habitual. Tinha certa habilidade, de modo que contava já um número considerável de bonitos sabiás no seu pequenino pomar particular. Os sabiás eram seus pássaros prediletos. Por muito tempo dedicou-se somente à caça dessa espécie. Andava agora desejoso de um pássaro de penas azuis. Não era uma espécie rara, pois muitos o tinham pela redondeza, mas ele nunca conseguira aprisionar um pássaro azul. Animou-se todo, naquela manhã de sol, quando um deles pousou no seu alçapão. Reuniu os amigos todos para mostrar-lhes a novidade. O coração do menino pulou de alegria com a possibilidade daquela caça inédita. Enquanto o pássaro estava ali, pousado, fazia ele mil conjecturas de como narraria a façanha para os seus afetos. Pensou em como seria completo, agora, com um pássaro azul junto aos seus sabiás. Os amigos todos juntaram-se na torcida por aquele feito inédito do dedicado cuidador de passarinhos. A perspectiva animou a todos, que, interiormente, já comemoravam a grande façanha do dia. O passarinho pulou daqui, pulou dali, perscrutou o espaço, deixou-se ficar um pouco mais em cima do alçapão. Coisas de passarinhos. Toda caçada começa assim. No entanto, aquela era especial. Sentaram-se todos, guardando certa distância, silenciosos e atentos, observando os movimentos do visitante inesperado. De repente, num bater de asas decidido, o pássaro azul voltou para o galho da árvore. Para dali ganhar o infinito novamente. Os amigos do pequeno caçador sentiram neles próprios a frustração daquele desfecho infeliz. Uns baixaram a cabeça, sem palavras de encorajamento para o companheiro, outros tentaram distraí-lo com uma piada sem graça, outro ainda, bateu no seu ombro afirmando que aquele havia sido um prelúdio. E logo um pássaro azul pousaria no seu alçapão. Ele veria. Mas o menino, em tom de sabedoria e descrença, enquanto recolhia a armadilha, balbuciou:
- Não nasci para ter pássaros azuis. Amanhã volto para tentar mais um sabiá.
E, com passos rápidos e coração cansado, entrou no caminho de mato fechado de volta pra casa.
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