Para uma quarta-feira de cinzas, um ressurgir. Reencontrei-me agora há pouco com essa crônica da minha doce Cecília... Que boa surpresa poder relê-lo, redescobrí-lo! Vou abster-me de quaisquer comentários. Tenho certeza que ele os dispensa...
Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim – plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito eis-me no patamar. E a meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. É um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gastas, as mechas brancas do pêlo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas.
Com um grande esforço, acaba de levantar.-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonha-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer, enquanto dormem… Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves, acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir.
Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento… Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica. Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens. Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.
Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era o seu.
Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.
Cecilia Meireles
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quarta-feira, março 9
domingo, março 6
Colecionador
Vou pedir licença ao autor pra postar aqui um texto (lindo) que li ontem. Belas imagens de nossa insensata mania de ser "viajante imóvel"...
Guardo recordações de viagens
que nunca fiz. Garrafas cheias
de lembranças vazias e nomes
conhecidos, mas distantes.
Diferentes barcos a vela
que, como eu, não velejam,
mas velam por minha imaginação.
Localidades das quais não
tenho qualquer recordação,
a não ser a breve sensação
de que as toco, aqui, de longe,
quando encosto, ainda em transe,
nas bugigangas daqueles lugares.
Marcos R. B. Lima
Guardo recordações de viagens
que nunca fiz. Garrafas cheias
de lembranças vazias e nomes
conhecidos, mas distantes.
Diferentes barcos a vela
que, como eu, não velejam,
mas velam por minha imaginação.
Localidades das quais não
tenho qualquer recordação,
a não ser a breve sensação
de que as toco, aqui, de longe,
quando encosto, ainda em transe,
nas bugigangas daqueles lugares.
Marcos R. B. Lima
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