Páginas

Visualizações de páginas da semana passada

sábado, junho 27

Ame a tristeza (Mary Oliver)

Ame a tristeza
Ela é sua agora.
E você tem que tomar conta do que lhe foi dado
Escove o cabelo dela,
Ajude-a a vestir o casaquinho,
Pegue-a pela mão, especialmente ao atravessar a rua.
Pois pense só: e se você a perdesse?
Aí você mesma seria a tristeza
A cara fechada, a insônia dela seriam suas.
Cuide bem dela, toque-lhe a testa
Pra ela sentir que não está completamente sozinha.
E sorria, para ela não esquecer totalmente que há um mundo lá fora.
Tenha paciência de sobra
E nunca minta ou a deixe por um momento sequer sozinha,
Ou seja, de novo abandonada.
Ela é estranha, muda, difícil!
As vezes intratável.
Mas lembre-se, é uma criança!
Coisas incríveis podem acontecer, você vai ver,
Quando vocês duas forem andar juntas à luz da manhã como pouco a pouco ela relaxa,
Ela olha em volta, ela começa a crescer.

Tradução de Jorge Pontual.

sexta-feira, junho 26

Elegia 6

O tempo de uma gestação, a extensão dos dias que venho (sobre)vivendo com o peso da ausência.

Uma das coisas que mais ouvi das pessoas que vinham oferecer-me palavras de conforto era: "o tempo vai te ajudar a sofrer menos". Chamei a todas de mentirosas, no meu íntimo, pois percebia que, ao invés de amenizar, a dor crescia com o passar do tempo. E cada dia era mais difícil acordar, transitar na casa, olhar as coisas naquela ordem que ela deixara... A dor aumentava em todos os seus ângulos. Até que, num determinado dia, em um profundo acesso de desesperança, tive a sensação de que eu iria ser consumida. E, naquele instante, percebi que estava diante de um abismo, pois a dor continuaria crescendo. Era urgente, então, que eu crescesse, para poder acomodá-la, uma vez que ela começava a fazer-se maior que eu. Empenhei-me então a Crescer. Expandir-me espiritualmente era questão de sobrevivência.
É um projeto de longo prazo, crescer para que a dor caiba em mim. Como um dever de casa. Às vezes esqueço de cumpri-lo e o desconforto causado pela falta de espaço logo começa a me ferir de modo mais grave.

Ela está aqui, passem as luas que passarem. Tenho a tarefa de fazer-me a cada dia um pouco maior que ela, para poder abarcá-la.

(270 dias).

domingo, junho 21

São João

As bandeirolas na rua, o recesso do trabalho, as pessoas vestidas com roupas características, as fotos de comidas típicas nas redes sociais recordam-me que estamos às vésperas do São João. Essa festividade já foi uma das mais aguardadas por mim. Os fogos, que me encantavam (e esses eram os que não produziam estrondo, obviamente), os bolos tanto mais variados quanto mais saborosos que eu, saltitante, ajudava mainha a preparar, o amendoim cozido - a delícia em casquinhas, o milho e seus derivados, o cheiro da laranja, que parece ganhar um tom característico nesta época, a animação do povo nas ruas, realçada pelo efeito dos licores coloridos, o som de zabumba e sanfona sobressaindo-se aos demais instrumentos musicais...
São joão era época festiva, e embora eu não tivesse como hábito ir a lugares para comemorar em festas e grupos de amigos, a alegria contagiava também a mim, e eu era feliz.

sábado, junho 13

Da eternidade do amor - Inês Pedrosa

E nestes dias em que se celebra o amor,corações, beijos e abraços esparramados por todos os lados, vou deixar um trechinho da escritora portuguesa Inês Pedrosa, do romance que analisei na minha dissertação de Mestrado. No trecho, a personagem Ana Lúcia escreve a Afonso, que acabara de perder a filha pequena. Meditando sobre a relação vida x morte, ela reflete sobre a natureza do amor. Inevitável esse entrecruzamento...
É, na minha opinião, a página mais bonita do livro.


"(...). O amor é eterno como as estrelas. Não sabemos nada das estrelas, como não sabemos nada do amor. Muitas vezes encontramos no brilho distante de uma estrela a coragem necessária para atravessar noites de excessiva treva. Sussurramos desejos às estrelas cadentes e confiamos as lágrimas à beleza de um céu estrelado. Precisamos da tristeza para aprender a olhar para o céu. Não falo do céu metafísico, do céu povoado de deuses vingadores, desse céu demasiado terreno que, ao longo dos séculos, tem construído uma história de horror e guerra. Não falo do céu dos fiéis e infiéis, do céu que ergue fogueiras e cadafalsos, que inventa infernos e torturas, que se despenha em aviões sobre a humanidade. Falo do céu que existe sobre as nossas cabeças demasiado ocupadas a engravatar a terra. Das estrelas que vivem e morrem sem que o saibamos, e que nos iluminam, se soubermos olhar para elas como se fossem sempre a mesma, a estrela inicial. É assim a eternidade do amor - indiferente à vida e à morte, capaz de sobreviver à pequena cronologia da vida. Capaz, acima de tudo, de fazer da semivida presunçosa em que tantas vezes nos enredamos, uma vida verdadeira, voltada à única coisa que interessa - o amor.
Temos o privilégio de nos sabermos mortais. O que fazemos desse privilégio? Em geral, fugimos dele, apavorados. Refugiamo-nos nas aparências do tempo, fazemos contas à vida. A morte de um jovem é uma afronta a essa nossa contabilidade estéril. As nossas vidas seriam muito diferentes, se acordássemos para cada dia como se fosse o único. Quantas vezes repetimos: 'Temos tempo'? Quantas horas ocupamos a complicar as vidas dos outros, em vez de simplificarmos a nossa?
Temos medo. O medo é o maior assassino; conduz-nos a subterfúgios infra-humanos. O medo criou os deuses do extermínio e da vingança, porque a sua natureza cobarde leva-o a viver de desculpas e a sacudir a responsabilidade. Quantas pessoas não se dizem 'demasiado sensíveis' para ir a um hospital e acarinhar um doente terminal, ou para ir a um velório abraçar os que acabaram de perder uma parte de si? A doença e a morte confrontam-nos com a mortal mesquinhez desta 'sensibilidade' - e convocam-nos para uma outra forma de vida, eterna como a valentia e a bondade humanas, que são uma e a mesma coisa.
Repetimos que a fé é, face à morte, o maior lenitivo. Mas que é a fé verdadeira senão o absoluto do Amor? O Amor é o verdadeiro rosto de Deus." (...)

In: Os íntimos, 2010, p. 67, 68.

domingo, junho 7

Dois pontos

Que seja flor o botão
que seja cor o clarão
que seja pra durar

não seja dor, furacão
não leve a paz - extinção
não deixe-se quebrar

não sendo flor, vá ao chão
amanhecer, escuridão
se for doer... faça-se calar:

de finitudes vou plena
de interditos, exausta
entendo bem de partidas,
Chegadas... falta aprender.