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quinta-feira, setembro 26

Vinte e seis de setembro

Oh, dia das minhas dores!...
Vi um sol envergonhado, escondido entre nuvens encabuladas, depois de uma noite de traidor descanso.
Vi por derradeira vez minha mãe, depositada em fria lâmina de recinto escuro.
Sozinha.
Abandonada por mim na sua hora mais agoniosa.
- Perdão que nunca me darei.

Oh, dia de minhas lágrimas!...
Inundação dos meus jardins.
Correntezas que levaram o brilho, a cor, o sentido.

Cinco primaveras sem flor.

quarta-feira, novembro 21

Jozefina

Jozefina era fraca das pernas. vivia caindo e se machucando. Num dia tropeçava nos próprios pés, noutro, adquiria um galo na cabeça.
Certa vez chegara com os joelhos ensanguentados: "que menina desajeitada! como pode ser tão molenga? Toma jeito, menina fraca!"
Brincando no parque numa noite com as amigas, não foi ela dessa vez a machucada. A amiguinha torcera o pé ao pular do escorregador: "coitada da princesa! não chore, vai passar! gelo é bom pra diminuir o inchaço".

Jozefina também ajudou-a nos cuidados do machucado.
Embora seus joelhos calejados volta e meia tornem a sangrar. E só ela vê.

domingo, julho 29

ca os

palavras desordem
interior igual sentir
explosão querer estilhaços desintegrar
voar, chão pousar
descansar



sexta-feira, julho 6

Sobre "perder"

Se existe um verbo que concentra tudo o que de mais nefasto pode existir nesta vida e em todas as vidas possíveis, é o verbo perder.

A experiência de perder faz-nos conhecer os becos mais escuros, os mais inóspitos lugares da alma humana. Existem perdas de variadas dimensões: perde-se o ônibus, perde-se o anel, perde-se a fome, perde-se o voo, perde-se o grande amor, perde-se o emprego, perde-se a saúde, perde-se o bebê, perde-se a calma, perde-se a avó, perde-se o chinelo, perde-se a alegria, perde-se o campeonato, perde-se o sono, perde-se a motivação, perde-se a prova, perde-se o celular, perde-se a esperança. A dor de uma perda pode durar alguns instantes, como quando se perde o chinelo, pode durar uma noite, como quando se perde o sono, pode durar duas semanas, como quando se perde o emprego, ou pode durar a vida inteira, se se perde o sentido.

Há muitas filosofias sobre as perdas, algumas deveras plausíveis. Diz-se que elas favorecem o amadurecimento, criam as condições para futuros ganhos e afinam o indivíduo para os altos e baixos do correr da vida. Não parecem assertivas falsas. No entanto, tão acertada quanto, é a constatação de que, quem menos perde, mais se alegra. Talvez não se trate de uma conta de somar, e sim de uma equação mais complexa, mas ninguém há de negar que dores sobre dores têm o poder de apagar aos pouquinhos as velinhas que formam o candeeiro da alma.
Em outras palavras, arrisco afirmar que uma existência pode ser medida pela frequência e pela intensidade das perdas que experimenta.
E eu nem estou falando da copa.

domingo, junho 24

De estrangeiros e bagagens

Mire-o.
Ei-lo a espreitar a rua, estrangeiro e só. Vigilante dos próprios passos, caminha vacilante: pés cansados, olhos brilhantes, ouvidos atentos. Pergunta informação a nativo transeunte de destino seguro para repousar a bagagem, mas não se fez comunicação - a língua estranha.
Como chegara a terra distante não responde o "sem lugar". Memória tinha, e vestes limpas. Adentra um bar, pessoas risonhas a comer e beber seriam boas informantes, cogitou, Mas, distraídas, sequer notaram a presença do semelhante. "Há, neste solo, sorrisos e amigos", pensou, animando-se, contagiado pelo vivo cenário de celebração da vida. Observa-os por mais alguns instantes e sai, novamente a perambular. Ao longe, um senhor uniformizado espreita, por ofício, o cotidiano da população. Caminha em direção deste, esperançoso. Lê no olhar do senhor de uniforme confusão e desconfiança diante do estranho. Com gestos e mímicas comunica, enfim, ao guarda o seu desejo: lugar seguro para repousar a bagagem. Não respondendo de imediato, quis o guarda saber informação detalhada de procedência sua para lugar distante. Poucos minutos de contato gestual e despediram-se a sorrir com cumprimentos de amistosa familiaridade. Segue o estrangeiro o caminho indicado pelo de uniforme.
Levou algum tempo para entender que fora conduzido a penitenciária com ordem de prisão e tortura. Não mais teria notícias do paradeiro de sua bagagem.

domingo, maio 13

In memoriam



In memoriam o abraço dos segundos domingos de maio. (E dos primeiros, terceiros e todos; sábados e -feiras; outono, julho e verão).
In memoriam o cheiro, a graça, a alegria.
In memoriam a voz, o afeto.
In memoriam o rosto, os cabelos, a cor.
O tato in memoriam
In praesentia, a memória.

terça-feira, janeiro 30

Do cansaço

A página igual
iguais as roupas, os pés, os silêncios
desejo rouco,
oco,
pouco?

na mesa, iguais as taças, as cartas, as traças
os sonos e os sonhos - iguais

desigual a medida da
fe -licidade
a trilha da sorte, igual-desigual
o caminho
a hora
a conta
(desiguais)
o suor, as pegadas, a vigília (desiguais)

a conta (desigual)

A conta...
Por favor!

domingo, maio 14

Feliz filho com mãe!

Segundo domingo de maio e os meus olhos estão cheios de nuvens.

Na minha casa não tem mãe. Não tenho, nem sou. Logo, um domingo quase comum. Estou aqui observando ao redor as homenagens em carros de som, as mensagens nas redes sociais em forma de textos e imagens de mães e filhos como flores para elas, que tanto são essenciais. Observo também mães sendo visitadas por filhos que cumprem nesse dia o ritual de fazer-se presentes para alguns minutos de conversa. Quiçá um abraço ou um presente.

Enquanto observo, a memória traz-me lembranças do cotidiano ao lado da minha inseparável mãe. O mês de maio, sem dúvidas, faz os órfãos de mãe sentirem-se mais órfãos que de costume, porque os corações vermelhos que decoram todos os cantos nos recordam que em nosso ser pulsa doído esse amor essencial que se apartou; esse cordão umbilical doloridamente cortado.

As nuvens dos meus olhos deságuam ao ver o filho abraçar sua mãe. Como que contemplando a mais perfeita das experiências de amor humano; ao alcance da visão, o encontro fundamental, visceral, imortal, com a moldura de um abraço que se chama Felicidade.

sexta-feira, janeiro 6

Coisa vinda, seja bem linda.

Neste ano, quero 2017 bons motivos para escrever.
2017 inspirações.
Pelo menos umas 2017 vezes dedicar uns minutos para fazer nada.
E escrever sobre as coisas que o "nada" me trouxer.

Quero páginas limpas e histórias novas.

Seja linda, coisa vinda!

sábado, dezembro 31

Do ano que acaba

Vai-se velho mais um ano.

Semeaduras marcaram a trajetória dos meses idos. Também intensos aprendizados. Foi um tempo de deixar-se cortar, com a esperança de voltar inteira. No cenário nacional, caos. Política e economicamente, as estruturas do Estado Nacional de direito foram abaladas.

O dia de amanhã estará recebendo toda a sorte de boas vibrações, emanadas de diversas partes do globo. Guardador das mais sinceras esperanças, os dias Primeiro de todos os janeiros deveriam emprestar aos outros 364 um pouquinho da alegria que invade os corações, da esperança que faz crer que dias bons podem vir e do abraço que une as pessoas, ainda que de modo casual.

Para 2017 desejo que estejamos com Deus em todos os seus dias. Que queiramos estar na presença Dele, que nos agrade seguir a Sua voz, o Seu ensinamento. Isso sim é garantia de um ano bom.

Que seja em Deus!

sexta-feira, outubro 14

Do amor que partiu



"Aquele jeito que você me olhou
Varreu meu pensamento
Todas as coisas saíram do chão
Eu me esqueci de tudo
Antes que eu me desse conta
Já era seu meu querer

Foi como o sol que desponta
Numa montanha dourada
Na terra do faz de conta
Pra me banhar de prazer"

Meu amor canino partiu.
E deixa partidos os corações dos que conviveram com ele os últimos sete anos. Não sabia que doía tanto...
Agora, reaprender a viver sem seus passinhos, sua teimosia, seu rabinho abanando, sua linguinha pra fora, suas patinhas na mesa, seus ciúmes, suas orelhinhas macias, seu medo de fogos e trovões, seu calcanhar intocável,sua sabedoria, sua doçura, seu dengo, seu olhar, suas cores.
Obrigada, filhotinho, pelo prazer da sua presença. Nós te amávamos muito...

quarta-feira, outubro 12

Do amor que ameaça partir

Meu amor canino está parando de viver...

Como é angustiante ver meu cachorrinho recusando todo e qualquer tipo de alimento. Coisas pelas quais ele fazia grande festa só por sentir o cheiro...agora o são indiferentes. Olha, cheira e dá as costas. Por que meu bichinho está desistindo de viver?

Essa criaturinha colorida veio pra minha vida sem que eu planejasse. Sequer desejei um dia ter cachorro. Mas quando pus os olhos nele pela primeira vez, não foram suas orelhas longas e caídas, nem seu rabo comprido, branco e erguido que me chamaram atenção. Fiquei encantada com a estampa da sua pelagem: preto, branco e dourado. Nunca havia visto um beagle. Analisado-o melhor, percebi que seu olhar era doce e inocente. Não parecia uma fera, e sim um ser frágil, como uma criança. E ele veio morar comigo.

Não dava nenhum trabalho. Não fazia barulho, não comia calçados, fazia as necessidades fisiológicas apenas nos locais apropriados, não espantava visitas, não subia nos móveis...Coloquei os verbos no passado porque esse comportamento irrepreensível não permaneceu por muito tempo. Depois veio a fase de fazer barulhos, de querer ir ao quintal várias vezes na madrugada, de subir nas camas, de morder os donos... Creia, Aquiles nunca mordeu nenhum estranho, mas aos donos, sim. Ocorre que ele, apesar de doce, tem personalidade forte. Tem as coisas de que ele gosta e as coisas de que ele não gosta; as coisas que ele deixa (que façamos nele), e as coisas que... melhor deixar ele em paz.
A minha primeira mordida eu ganhei quando, não resistindo a tamanha delícia, tasquei-lhe um beijo na bochecha. Entendi o recado. Ele não gostava de excessos de carinhos. A segunda e última mordida foi quando tentei fazer uma foto daquela carinha linda bem de pertinho. (Só depois aprendi que existe um recurso no celular chamado "zoom"!) Ele estava de olhos fechados, mas quando sentiu que tinha algo bem perto do seu rosto... atacou. Foi mais barulho do que mordida, na verdade, mas o susto valeu por ambos. Tudo bem. Saquei que meu amorzinho era chato. Que eu não poderia manifestar calorosamente minha paixão. Bem dizem que nada é perfeito.
Os anos passando e essa vidinha cada dia mais incrustando na minha. As patinhas na mesa pedindo comida, o rabinho balançando, o latido rouco quando algum outro cão se aproxima da casa, a cabecinha inclinada pro lado quando está observando os movimentos de alguém... Nenhum cachorro no mundo inclina a cabeça pro lado tão lindamente como ele. É lindo, meu cachorro. Um príncipe. Um gato.

Pois, meu cachorro-gato está-me dando a sensação de que vou perdê-lo a qualquer momento. Sim, eu sabia que acontecerá algum dia. Mas... que coração está preparado para perder um amor?

Vejo-o hoje magro, cabisbaixo, vítima de uma cruel bactéria que amarelou suas mucosas, tirou completamente sua fome, tornou lento seus passos... Está tomando injeções para matar o mal. Mas sinto que meu bebê morre um pouquinho a cada aplicação. Chora, grita, sofre... Uma existência tão inofensiva... não devia ter que sofrer...

Eu quero muito que meu filhote fique bom. Que volte a ter fome, ganhe o peso que perdeu, fique de novo disposto, forte, esbelto, que morra esse mal que o acometeu. Eu quero muito continuar tendo suas cores nos meus dias, já tão cinzentos.
Fique bonzinho, Coração!... Mamãe ama você!

segunda-feira, setembro 26

Dois anos de saudades

Uma das perspectivas de ver a morte é entendê-la como o início de uma vida nova.
Assim como se vive primeiramente a vida uterina, que é uma preparação para a vida do lado de fora, os anos que passamos por aqui são uma preparação para uma outra realidade. Logo, a morte seria um re-nascimento. Um nascer para uma dimensão nova.
Hoje, completando dois anos da passagem de mainha, renovo o meu desejo de que sua nova morada seja imensamente melhor. Que tenha luz, paz e a esplendorosa presença de Deus. Que tenham ficado neste plano todas as dores e prantos. E que continue, de lá, a olhar e cuidar dos seus.
Enquanto eu respirar estarei sentindo saudades.

segunda-feira, agosto 15

Segundo domingo de agosto

Segundo domingo de agosto, dia daqueles dos quais procedemos.

Quando eu era pequena ficava curiosa pra saber em que lugar eu ficaria caso não tivesse virado pessoa. Dentre muitas maneiras que os adultos usavam para dar a mesma explicação, uma delas me fez passar um bom tempo pensando que as pessoas só são pessoas por causa do pai; porque "somos o resultado de uma semente que o papai coloca na mamãe". A ideia do Pai se agigantou de tal forma na minha imaginação infantil... ganhando uma dimensão quase sobrehumana!
E, a pensar direitinho, não é diferente. Não pela mera circunstância de possibilitar a concepção (a parte mais fugaz), mas pela sua responsabilidade de fazer crescer essa semente que dele brotou. Crescer no aspecto físico, orgânico, se pensarmos na figura do pai como o provedor da família (embora essas delimitações de papéis no interior da família estejam cada vez mais híbridas), mas também crescer no aspecto humano, moral, pessoal. A criança há de aprender do modelo do pai; do modo como ele trata a mãe e as pessoas do mesmo círculo, das coisas que ele cultiva, que ama, que valoriza; do jeito de pensar e conduzir a sua vida própria e a vida da família. Nasce um pai quando se concebe um embrião, mas a tarefa de pai se consolida dia após dia, nas circunstâncias cotidianas dos anos de convivência que tiverem juntos.
O filho procede do pai não somente porque carrega deste uma carga genética; ele procede do seu pai porque aprende dele, de suas palavras e exemplos (bons e maus) a ser um no mundo.
A estes, que têm a missão de ser precedentes de pessoas, luz e sabedoria.

Ao meu pai amado, único motivo, hoje, que me faz querer ficar viva, abundância de saúde, física, psíquica e espiritual, bênçãos e graças celestiais e alegrias ao lado dos seus. Imenso amor por esse homem de quem derivo.

sábado, julho 30

Da presença dela em mim

Amanhã, dia 31, seria o 67º aniversário de minha mãe. E no último dia 26 foi o 21º mês de sua partida.

A assimilação da ausência é um processo interminável. Acontece a cada manhã, após acordar de um sonho em que ela estava presente; ao olhar para o calendário e perceber que se aproximam datas queridas; ao precisar de um coração para escutar meus "ais" e meus cânticos.

A assimilação da ausência se dá aos pedaços. Um pouquinho a cada amanhecer. Com gotas de realce a cada anoitecer.
Mas como é presente essa ausência... Em muitos momentos parece que o ser dela se fundiu ao meu, e agora vivemos uma alma unida, una.

Como recordo do seu modo de ver, de julgar, de sentir e de pensar. Como me vejo retratando, refazendo, revivendo seus traços...
Como está viva... de dia e de noite, no sono e na vigília.

Tão dentro de mim... tão longe daqui...

terça-feira, junho 21

Part(idas)

E assim se vai partido o meu ano ao meio, a estação das sombras está a chegar.
Tal qual partidas vão esperanças...
taciturnos olhares lançados ao sempre desconhecido porvir.

terça-feira, maio 31

Que seja maio

Já se despede o mês da delicadeza.

Foram dias de semeadura intensa no meu pomar. Dias e noites com as sementes nas mãos, nos olhos, no querer.

Que faça a chuva necessária para fazer brotar os frutos que tenho almejado. E que sejam doces como um despertar de orvalho e sol, como os de maio.

segunda-feira, março 28

Confissão à primeira Lua Cheia do outono

É noite, e estás plena.
Senhora e majestade do céu pontilhado de luz.
Daqui te vejo, só e despida. Serva, súdita, sem lume, vazia.
Nas mãos, feridas; nos pés, poeira; no peito, desejo; nos olhos, clamor:
- Que eu um dia plena te veja, Lua primeira. Que veja em tua luz a minha a cintilar. Na tua majestade a do meu peito trono. Na tua beleza a dos meus passos. Não mais seja contraste a nossa condição. Vede, Lua primeira, quanta graça, quanto encanto trazes. E como nos parece prazenteira. Vede pois que não sois só, ó Lua inteira, mas sois de todo do rei astro hospedeira, receptora de real grandeza. Quero ser como tu, ó Lua,
inteira.

quarta-feira, março 23

Azul

Quero a palavra única, a síntese, a conclusão.
Quero a explicação justa, o golpe certo, o alvo.
Quero a resolução exata das crises, a cura dos crimes (não) cometidos por meus pés.
Quero, somente e todo, o azul,
para acalentar as sucessivas estações inóspitas.

sexta-feira, fevereiro 12

12 de fevereiro



Se minha avó estivesse aqui, faria hoje 90 anos.
Motivo de uma festa e tanta!Certamente os filhos e netos estariam preparando um encontro com muitos abraços, afagos e risos. Mas minha avó não está entre nós há quase 11 anos. Partiu cedo, rápido...
Não faço ideia de como seja a vida além daqui, mas desde que minha avó se foi, fico tentando imaginar a outra dimensão de muitos modos. Será que lá as pessoas continuam comemorando aniversários? Acho que não... Acho que lá é tão plenamente bom que não existem dias mais felizes que outros. Agora, a sua filha primeira também já está nesse outro plano. E como eu desejo que estejam juntas, tranquilas...
Deus, que as mulheres da minha vida estejam em paz, iluminadas pela perpétua luz.