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sábado, junho 27

Ame a tristeza (Mary Oliver)

Ame a tristeza
Ela é sua agora.
E você tem que tomar conta do que lhe foi dado
Escove o cabelo dela,
Ajude-a a vestir o casaquinho,
Pegue-a pela mão, especialmente ao atravessar a rua.
Pois pense só: e se você a perdesse?
Aí você mesma seria a tristeza
A cara fechada, a insônia dela seriam suas.
Cuide bem dela, toque-lhe a testa
Pra ela sentir que não está completamente sozinha.
E sorria, para ela não esquecer totalmente que há um mundo lá fora.
Tenha paciência de sobra
E nunca minta ou a deixe por um momento sequer sozinha,
Ou seja, de novo abandonada.
Ela é estranha, muda, difícil!
As vezes intratável.
Mas lembre-se, é uma criança!
Coisas incríveis podem acontecer, você vai ver,
Quando vocês duas forem andar juntas à luz da manhã como pouco a pouco ela relaxa,
Ela olha em volta, ela começa a crescer.

Tradução de Jorge Pontual.

quinta-feira, abril 16

Elegia 3

"É preciso ser valente para entender um Deus
que nos leva de repente a mesma vida que deu
que plantou essa semente e com a própria mão colheu

É preciso ser valente pra aceitar sua vontade
mesmo quando dói na gente, rouba a nossa mocidade
ontem estava aqui presente, hoje já virou saudade"
...

(200 dias).

domingo, abril 12

Arre!...

"...estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?"

quinta-feira, fevereiro 5

Prazo de Vida


Cecília Meireles


No meio do mundo faz frio,
faz frio no meio do mundo,
muito frio.

Mandei armar o meu navio.
Volveremos ao mar profundo,
meu navio!

No meio das águas faz frio.
Faz frio no meio das águas,
muito frio.

Marinheiro serei sombrio,
por minha provisão de mágoas.
Tão sombrio!

No meio da vida faz frio,
faz frio no meio da vida.
Muito frio.

O universo ficou vazio,
porque a mão do amor foi partida
no vazio.

segunda-feira, fevereiro 2

Para Jell Cerqueira

É o que todos dizem, baby... é o que dizem...

Lei
Cecília Meireles


O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga
que leva os mortos.

O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.

O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa,
e os lábios de ouro puro.

O que é preciso é que a alma vá e venha;
e ouça a notícia do tempo,
e. entre os assombros da vida e da morte,
estenda suas diáfanas asas,
isenta por igual.
de desejo e de desespero.

domingo, fevereiro 1

De vez em quando...

Paixão
Adélia Prado

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos, não é a bola
bonita caminhando
solta no espaço.


domingo, janeiro 11

Versos íntimos

Bem, atender o pedido de Mel postando algo romântico foi até fácil. Agora, a ressalva de Jéssica de que deveria ser uma composição minha... aí já é meio impossível! Serve Augusto dos Anjos?
Rs.

Versos íntimos
Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

quarta-feira, janeiro 7

A rua dos cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Mário Quintana

quinta-feira, janeiro 1

2015... que meus pés suportem pisar

Navegante


De mim
exijam pouco...

Pois o tempo
que me resta
é louca busca
de como atravessar
O Sol...

Damário da Cruz

quinta-feira, dezembro 18

Condição

Um dilema no sonho
outro no desprezo.

Eu, aí, me estranho
pois não sou eu mesmo.

Ou sou, desdizendo-me,
única forma de ser

até perder o prêmio
de existir e saber...

Roberval Pereyr

domingo, dezembro 7

A minha alma partiu-se

Tem dias que nenhuma máscara faz a personagem. Nenhum artifício funciona, nenhuma saída resulta em fuga.
Tem dias que a dor se impõe impetuosa! Que a saudade corta a alma mais que navalha na carne. Hoje...

"A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali."

Álvaro de Campos, in "Poemas"

domingo, abril 10

Congresso Internacional do Medo

Tomo as palavras de Drummond para expressar o sentimento que paira em todo o país após o lamentável ocorrido do Rio de Janeiro na semana que passou. Cantemos, provisoriamente, o medo; porque, em muitos corações, o amor está refugiado muito abaixo dos subterrâneos.

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, março 6

Colecionador

Vou pedir licença ao autor pra postar aqui um texto (lindo) que li ontem. Belas imagens de nossa insensata mania de ser "viajante imóvel"...

Guardo recordações de viagens
que nunca fiz. Garrafas cheias
de lembranças vazias e nomes
conhecidos, mas distantes.
Diferentes barcos a vela
que, como eu, não velejam,
mas velam por minha imaginação.
Localidades das quais não
tenho qualquer recordação,
a não ser a breve sensação
de que as toco, aqui, de longe,
quando encosto, ainda em transe,
nas bugigangas daqueles lugares.

Marcos R. B. Lima

domingo, janeiro 23

Das coisas que me dizem

Essa postagem é especial. Na semana passada tive o privilégio de ter sido presenteada com a dedicatória de um poema. Fiquei deslumbrada. Quem ainda não ouviu vai ouvir muito ainda falar de Elis Angela, poeta e contista feirense. Amiga da graduação. Enveredou pela literatura. Caminho bonito... Não me faltando vida e oportunidade estarei eu algum dia, quem sabe, arriscando-me a trilhar essas rotas também. Pois dedicou-me ela esses versos, sob o título deste humilde blog. Muito grata!!!

Para Helitânia


O infinito do mar, do céu, dos campos verdejantes.
O infinito do homem, prisioneiro em suas ideias (in) finitas.
A sonata.
A história mal contada em livro para ser esquecido.
O filósofo que, sem saber o que é filosofar,
ensina-nos como gozar a vida.
E a formiga silente que mordeu o meu dedão.
(viver é doer constantemente)

Elis Ângela F. Ferreira Santos

quinta-feira, dezembro 2

Ainda que o amor seja mudo...

A CRIANÇA que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo -

Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer cousa de amor,
Ainda que o amor seja mudo

Fernando Pessoa

terça-feira, novembro 2

Ontem

Este é mais um dos meus preferidos do poeta maior. Mais nada a comentar...

Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim
que por minha vez
escrevo, dissipo.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, outubro 21

Além da Terra, além do Céu

Esse poeminha do meu poeta maior me encheu os olhos de lágrimas na primeira vez que o li. Não sei, deve ter sido um dia de sentimentalidade em alta, de alguma sintonia oculta com o que há de mistério e revelação por entre os versos. Coisas que eu não sei entender, que fogem a explicações... que são, talvez, além da terra... além do céu...

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, agosto 8

Duas palavrinhas de Cecília pra dar um tom de encanto a este blog.


"Há pessoas que nos falam e nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre."

Cecília Meireles

Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar


Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.


O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.


Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

Memória

Esse poeminha de Drummond pra recordar coisas passadas... Muito bom!!!

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade