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domingo, abril 26
Elegia 4
Quando sua mão se soltou das minhas, as minhas ficaram vazias.
Desajeitadas, tateiam o vácuo,
tentando acertar maneiras de tecer os dias.
Reconstruir na memória teu jeito, sempre tão certo, de compor a matéria da vida é minha missão diária.
Lição dorida...
(210 dias).
quarta-feira, abril 22
De um acaso
O caso é que o acaso às vezes não dá conta do recado
e fica a deixa de pensar que foi simples, mero acaso.
Tudo que eu queria era o acorde perfeito, maior,
mas como custa acreditar que possa haver harmonia em tanto descompasso.
e fica a deixa de pensar que foi simples, mero acaso.
Tudo que eu queria era o acorde perfeito, maior,
mas como custa acreditar que possa haver harmonia em tanto descompasso.
quinta-feira, abril 16
Elegia 3
"É preciso ser valente para entender um Deus
que nos leva de repente a mesma vida que deu
que plantou essa semente e com a própria mão colheu
É preciso ser valente pra aceitar sua vontade
mesmo quando dói na gente, rouba a nossa mocidade
ontem estava aqui presente, hoje já virou saudade"
...
(200 dias).
que nos leva de repente a mesma vida que deu
que plantou essa semente e com a própria mão colheu
É preciso ser valente pra aceitar sua vontade
mesmo quando dói na gente, rouba a nossa mocidade
ontem estava aqui presente, hoje já virou saudade"
...
(200 dias).
domingo, abril 12
Texto de Nara Rúbia Ribeiro
Eu andava querendo dizer justamente essas coisas, mas uma certa Nara Rúbia Ribeiro, com cuja escrita tenho entrado em contato nos últimos dias (e que, assinale-se, tem dito coisas muito acertadas e de maneira muito feliz), escreveu antes de mim. Segue, na íntegra, o belíssimo pensamento da autora. Me representa.
A arte do desapego
Muitos vivenciam o amor como um rasgo a que a alma se submete intencionalmente para exigir que a mão do amado a costure. O problema é que a mão do outro nem sempre está disponível para esse trabalho: a alma sangra, dói, e os rasgos se expandem… A dor, quando bem resolvida, pode ser um prenúncio de beleza. Mas, para que o belo de fato advenha, é preciso viver a dor, senti-la, tocá-la, integrar-se a ela, e transmutá-la, sabedores de que o vivenciar a dor também é parte do exercício de amor.
Já tive muitos castelos desmoronados na poeira dos dias. Quem não os teve? E a dor, nesse caso, é inevitável. Em nossa alma aprendiz, amar é desejar estar ao lado do outro, dentro do outro. É querer ser o outro sem sair de si mesmo. É construir uma redoma de sonho e ali inserir o amado, sob a eterna e vigilante proteção dos nossos olhos. E queremos que o outro caiba exatamente no nosso sonho e viva o nosso projeto de existência. Que ele esteja no cenário que construímos e encene o papel que lhe escrevemos.
E, num repente, algum novo vento nos sopra e mostra que o outro não é exatamente o aquele a quem julgamos amar. Percebemos que ele tem segredos e mistérios maiores que pensávamos e ficamos perplexos ao perceber que ele tem caminhos traçados e que quer percorrê-los, muitas vezes, sem nós. Perdemos a voz ao saber que a alma do outro é hóspede e hospedeira de outras almas. E as nossas pernas tremem ao constatar que a redoma era ilusão. Que todo o castelo de amor era ilusório. E a dor chega e castiga e fustiga a alma com cem mil acusações.
O que nos sangra, num momento como esse, é a obrigação de desamar. Mas será que isso existe? Os poetas, há muito, já apregoaram que o amor é sempre “para sempre”. Questionaremos as verdades poéticas? Banalizaremos o amor? Faremos dele um bibelô barato e quebrável destinado a adornar, por breves dias, as estantes da nossa alma?
Ocorre que somos ainda aprendizes da arte do eterno. O amor não reside senão no desejo da plenitude do outro. Ele não se esmera a não ser no respeito ao outro. Ele não pulsa a não ser para o querer o bem e sonha que o outro, pássaro livre em perfeição de voo, possa vislumbrar, dos cumes de si mesmo, os mais belos sentimentos e paisagens da terra.
E assim, quando o outro não mais deseja estar ao nosso lado, isso nos fere e sangra, mas o que nos massacra não é o outro. É desejo egoístico de aprisionar um espírito que também, assim como nós, tem sede de infinitos.
Tenho comigo que o que mais dói é a obrigatoriedade que nos impomos, quando o castelo desmorona, de desamar o outro. E embora talvez não o tenhamos amado de fato, fizemos um esboço de amor e é desorientador apagá-lo. Desamar é doloroso demais, porque o desfazimento do amor é contrário à nossa natureza etérea, espiritual, eterna.
Devemos, sim, exercitar o desapego; não o desamor. Desejar a liberdade, a integralidade, a plenitude do outro. Compreender que o que dói não é o amor não correspondido, mas a quebra das correntes (talvez até de ouro) com que tentávamos prender alguém. Apenas quando soubermos apreciar com encantamento a liberdade, seja ela nossa ou de um ser amado, teremos conhecido a face invisível e invencível de um amor verdadeiro.
E a alma, outrora rasgada, fará das cicatrizes uma arte emoldurada e rebordada de vida, na certeza de que toda a dor, bem lá no fundo, labora a nosso favor.
Goiânia, 01 de fevereiro e 2015.
A arte do desapego
Muitos vivenciam o amor como um rasgo a que a alma se submete intencionalmente para exigir que a mão do amado a costure. O problema é que a mão do outro nem sempre está disponível para esse trabalho: a alma sangra, dói, e os rasgos se expandem… A dor, quando bem resolvida, pode ser um prenúncio de beleza. Mas, para que o belo de fato advenha, é preciso viver a dor, senti-la, tocá-la, integrar-se a ela, e transmutá-la, sabedores de que o vivenciar a dor também é parte do exercício de amor.
Já tive muitos castelos desmoronados na poeira dos dias. Quem não os teve? E a dor, nesse caso, é inevitável. Em nossa alma aprendiz, amar é desejar estar ao lado do outro, dentro do outro. É querer ser o outro sem sair de si mesmo. É construir uma redoma de sonho e ali inserir o amado, sob a eterna e vigilante proteção dos nossos olhos. E queremos que o outro caiba exatamente no nosso sonho e viva o nosso projeto de existência. Que ele esteja no cenário que construímos e encene o papel que lhe escrevemos.
E, num repente, algum novo vento nos sopra e mostra que o outro não é exatamente o aquele a quem julgamos amar. Percebemos que ele tem segredos e mistérios maiores que pensávamos e ficamos perplexos ao perceber que ele tem caminhos traçados e que quer percorrê-los, muitas vezes, sem nós. Perdemos a voz ao saber que a alma do outro é hóspede e hospedeira de outras almas. E as nossas pernas tremem ao constatar que a redoma era ilusão. Que todo o castelo de amor era ilusório. E a dor chega e castiga e fustiga a alma com cem mil acusações.
O que nos sangra, num momento como esse, é a obrigação de desamar. Mas será que isso existe? Os poetas, há muito, já apregoaram que o amor é sempre “para sempre”. Questionaremos as verdades poéticas? Banalizaremos o amor? Faremos dele um bibelô barato e quebrável destinado a adornar, por breves dias, as estantes da nossa alma?
Ocorre que somos ainda aprendizes da arte do eterno. O amor não reside senão no desejo da plenitude do outro. Ele não se esmera a não ser no respeito ao outro. Ele não pulsa a não ser para o querer o bem e sonha que o outro, pássaro livre em perfeição de voo, possa vislumbrar, dos cumes de si mesmo, os mais belos sentimentos e paisagens da terra.
E assim, quando o outro não mais deseja estar ao nosso lado, isso nos fere e sangra, mas o que nos massacra não é o outro. É desejo egoístico de aprisionar um espírito que também, assim como nós, tem sede de infinitos.
Tenho comigo que o que mais dói é a obrigatoriedade que nos impomos, quando o castelo desmorona, de desamar o outro. E embora talvez não o tenhamos amado de fato, fizemos um esboço de amor e é desorientador apagá-lo. Desamar é doloroso demais, porque o desfazimento do amor é contrário à nossa natureza etérea, espiritual, eterna.
Devemos, sim, exercitar o desapego; não o desamor. Desejar a liberdade, a integralidade, a plenitude do outro. Compreender que o que dói não é o amor não correspondido, mas a quebra das correntes (talvez até de ouro) com que tentávamos prender alguém. Apenas quando soubermos apreciar com encantamento a liberdade, seja ela nossa ou de um ser amado, teremos conhecido a face invisível e invencível de um amor verdadeiro.
E a alma, outrora rasgada, fará das cicatrizes uma arte emoldurada e rebordada de vida, na certeza de que toda a dor, bem lá no fundo, labora a nosso favor.
Goiânia, 01 de fevereiro e 2015.
quarta-feira, abril 1
Do amor e outras farsas
Hoje é primeiro de abril, mas não é (simplesmente) por isso que vou escrever este texto. Na verdade essa ideia já anda me cutucando há alguns dias...
Observando alguns fatos e algumas histórias ao meu redor, estive refletindo com meus botões... acho que nunca se amou tanto como se ama hoje. Acho também que o amor nunca foi semente tão fácil de brotar nos corações das pessoas de todas as idades e cabeças. E se ama tanto e tão intensamente, que, de repente, todos adquirem aura de poeta. E a vida se cobre de um imenso esplendor, pois o encontro com aquele ser, agora amado, foi a coisa mais iluminada que poderia ter acontecido na vida do amante. Não importa que ambos estejam no começo da vida, no despontar da juventude, é certo que o amor vai durar para sempre. Como nos velhos e bons contos de fadas. (Só que não).
Se tem um elemento que contribuiu enormemente para o crescimento dessa "cultura do amor", é a popularização das redes sociais. Se antes se amava assim, amava-se em particular, hoje ama-se para o grande público. E, desconfio eu, ama-se em função do público. Por isso é tão comum desfilarem escarlates e mui graciosas as declarações do mais puro e sincero amor, juras de afeição eterna, fotos de felicidades com legendas de citações filosóficas e trechos de Buarque, Jobim ou quem mais que cante o amor e suas belezuras. Há os que, por algum motivo, preferem a discrição, optam por esconder-se por detrás destes últimos, não revelando, a priori, rostos nem nomes. Mas eu cá fico me perguntando... as sementes do amor baratearam mesmo ou estão comprando gato por lebre? O amor virou fenômeno endêmico ou passaram a chamar pelo nome dele a outras sensações e sintomas?
Não vou negar que vejo certa graça nesse movimento febril de ver todas as pessoas amando e sendo amadas. Mas uma pulga por detrás de minha orelha direita faz-me pensar que muito do que se vê não passa de mera... invenção. Isso mesmo! É compreensível, diante de tamanhas revoluções acontecendo em ritmo frenético que os indivíduos desejem preencher as lacunas dos seus dias com emoções. Tudo anda tão modernizado, digitalizado, facilitado, robotizado, que as pessoas sentem falta de sentir. E aí, sem saber, começam a brincar de sentir.
Que crianças hoje em dia brincam na rua de baleado, sete pedrinhas, pular corda, elástico, fita, melancia, chicotinho queimado ou organizam aniversário de boneca? (No meu caso eu poderia citar também aniversário de coelhos. Tive uma coelha cinza de nome extravagante, Hanna Shara, cujo aniversário de um ano foi festejado com bolo, bolas e um discreto painel onde continha seu nome com letras cortadas em papel camurça. Na comemoração, além das pessoas da casa, as crianças vizinhas). As adolescentes ainda reúnem-se para fazer cozinhados, fazerem rifa para comprarem o mais novo CD do artista preferido, depois para ouvir e cantar em alto e bom som as músicas novas do artista preferido? Já não se experimentam mais essas sensações. A infância já não tem gosto da poeira da rua nem o ar fresco dos banhos de chuva, muito menos o doce sabor da fruta tirada astuciosamente do pé. E a adolescência deixou de ser a transição entre a infância e a idade adulta: foi suprimida. Aos doze anos vive-se e ama-se como se já tivesse dezesseis. E aos dezessete então... imagina-se já se ter atingido o ápice da experiência e da sabedoria da vida!
Quanta ilusão!
Pois bem, tanto tornou-se fácil o amar, como rápido o desamar. E aí, como explicar o paradoxo? Fico só observando como as pessoas têm facilidade de encontrar o grande amor de suas vidas, e estupefata da capacidade de o encontrarem várias vezes na vida! Chego a sentir-me injustiçada, pequena, desmoralizada, inferior mesmo! Eu que já conto uma boa quantia de verões e duvido ter dado de cara com ele uma vez sequer!... Mas se era amor, devia acabar? Tá, tudo bem, acaba, o que é que não acaba nessa vida besta!? Mas... se era amor, devia acabar tão rápido? Acabar por qualquer motivo? Pior, devia acabar tantas vezes? Bem, diante disso, deixo de me sentir inferior... ora!
O amor, minha gente, o Amor... o amor não é uma cara bonita, ou uma boca que beija direito, ou um corpo bronzeado ou uma companhia permanente. O amor não é também simplesmente oferecer um ombro para que o outro chore. Ou ir juntos a festas, bares, cafés, praias, cinema, enterro e trabalho. Amor não é falar horas e horas ao telefone (muito menos em tempos em que as telefonias oferecem todas as facilidades para tal), ou trocar mensagens vinte e quatro horas ao dia de todos os dias da semana. Amor não é a necessidade de estar ligado ao outro depois de um certo tempo de relacionamento. (A maconha e a cachaça causam esse mesmo efeito). Também não é dar presentes em aniversários, natais e páscoas. E quem disse que a atração pelo diferente é amor? E que altíssima sabedoria afirmou que a relação amorosa há de ser necessariamente de complementariedade? Então aquela história bonita de Aristófanes era verdadeira? Somos todos metades errantes à procura da nossa outra metade perdida? E se a minha outra metade, na hora da dispersão, tiver ficado lá na Europa?
Não, minha gente, Amor não é nada disso isoladamente! Mas, taí a chave do segredo: se você acredita que essas coisas aí citadas são Amor, elas serão. Se você pensa, acredita e até jura que ama porque apresenta algum desses sintomas, feliz amor pra você! Sim, eu entendo, existe uma necessidade de sentir emoções fortes. É possível que a sua vida esteja muito corrida, muito repetitiva, muito previsível, que mal há em inventar uma paixão? Por qual outro motivo suas pernas vão tremer, sua voz vai embargar, você vai suar frio se não por estar na presença do amor de sua vida? (Assalto não vale, o assaltante não vai te beijar e acariciar depois e ainda vai te deixar puto da vida sem celular).
Teria outra razão pra explicar os surtos de amor espalhados por aí? Alguma outra hipótese justifica tantos corações espalhados nos ares, nas paredes, nas telas de pcs e celulares? Se houver, gostaria de conhecer. Por enquanto vou ficando com essa minha convicção. Engane-se quem quiser! Cá comigo vou continuar achando que Amor... é algo um pouco mais embaixo.
Observando alguns fatos e algumas histórias ao meu redor, estive refletindo com meus botões... acho que nunca se amou tanto como se ama hoje. Acho também que o amor nunca foi semente tão fácil de brotar nos corações das pessoas de todas as idades e cabeças. E se ama tanto e tão intensamente, que, de repente, todos adquirem aura de poeta. E a vida se cobre de um imenso esplendor, pois o encontro com aquele ser, agora amado, foi a coisa mais iluminada que poderia ter acontecido na vida do amante. Não importa que ambos estejam no começo da vida, no despontar da juventude, é certo que o amor vai durar para sempre. Como nos velhos e bons contos de fadas. (Só que não).
Se tem um elemento que contribuiu enormemente para o crescimento dessa "cultura do amor", é a popularização das redes sociais. Se antes se amava assim, amava-se em particular, hoje ama-se para o grande público. E, desconfio eu, ama-se em função do público. Por isso é tão comum desfilarem escarlates e mui graciosas as declarações do mais puro e sincero amor, juras de afeição eterna, fotos de felicidades com legendas de citações filosóficas e trechos de Buarque, Jobim ou quem mais que cante o amor e suas belezuras. Há os que, por algum motivo, preferem a discrição, optam por esconder-se por detrás destes últimos, não revelando, a priori, rostos nem nomes. Mas eu cá fico me perguntando... as sementes do amor baratearam mesmo ou estão comprando gato por lebre? O amor virou fenômeno endêmico ou passaram a chamar pelo nome dele a outras sensações e sintomas?
Não vou negar que vejo certa graça nesse movimento febril de ver todas as pessoas amando e sendo amadas. Mas uma pulga por detrás de minha orelha direita faz-me pensar que muito do que se vê não passa de mera... invenção. Isso mesmo! É compreensível, diante de tamanhas revoluções acontecendo em ritmo frenético que os indivíduos desejem preencher as lacunas dos seus dias com emoções. Tudo anda tão modernizado, digitalizado, facilitado, robotizado, que as pessoas sentem falta de sentir. E aí, sem saber, começam a brincar de sentir.
Que crianças hoje em dia brincam na rua de baleado, sete pedrinhas, pular corda, elástico, fita, melancia, chicotinho queimado ou organizam aniversário de boneca? (No meu caso eu poderia citar também aniversário de coelhos. Tive uma coelha cinza de nome extravagante, Hanna Shara, cujo aniversário de um ano foi festejado com bolo, bolas e um discreto painel onde continha seu nome com letras cortadas em papel camurça. Na comemoração, além das pessoas da casa, as crianças vizinhas). As adolescentes ainda reúnem-se para fazer cozinhados, fazerem rifa para comprarem o mais novo CD do artista preferido, depois para ouvir e cantar em alto e bom som as músicas novas do artista preferido? Já não se experimentam mais essas sensações. A infância já não tem gosto da poeira da rua nem o ar fresco dos banhos de chuva, muito menos o doce sabor da fruta tirada astuciosamente do pé. E a adolescência deixou de ser a transição entre a infância e a idade adulta: foi suprimida. Aos doze anos vive-se e ama-se como se já tivesse dezesseis. E aos dezessete então... imagina-se já se ter atingido o ápice da experiência e da sabedoria da vida!
Quanta ilusão!
Pois bem, tanto tornou-se fácil o amar, como rápido o desamar. E aí, como explicar o paradoxo? Fico só observando como as pessoas têm facilidade de encontrar o grande amor de suas vidas, e estupefata da capacidade de o encontrarem várias vezes na vida! Chego a sentir-me injustiçada, pequena, desmoralizada, inferior mesmo! Eu que já conto uma boa quantia de verões e duvido ter dado de cara com ele uma vez sequer!... Mas se era amor, devia acabar? Tá, tudo bem, acaba, o que é que não acaba nessa vida besta!? Mas... se era amor, devia acabar tão rápido? Acabar por qualquer motivo? Pior, devia acabar tantas vezes? Bem, diante disso, deixo de me sentir inferior... ora!
O amor, minha gente, o Amor... o amor não é uma cara bonita, ou uma boca que beija direito, ou um corpo bronzeado ou uma companhia permanente. O amor não é também simplesmente oferecer um ombro para que o outro chore. Ou ir juntos a festas, bares, cafés, praias, cinema, enterro e trabalho. Amor não é falar horas e horas ao telefone (muito menos em tempos em que as telefonias oferecem todas as facilidades para tal), ou trocar mensagens vinte e quatro horas ao dia de todos os dias da semana. Amor não é a necessidade de estar ligado ao outro depois de um certo tempo de relacionamento. (A maconha e a cachaça causam esse mesmo efeito). Também não é dar presentes em aniversários, natais e páscoas. E quem disse que a atração pelo diferente é amor? E que altíssima sabedoria afirmou que a relação amorosa há de ser necessariamente de complementariedade? Então aquela história bonita de Aristófanes era verdadeira? Somos todos metades errantes à procura da nossa outra metade perdida? E se a minha outra metade, na hora da dispersão, tiver ficado lá na Europa?
Não, minha gente, Amor não é nada disso isoladamente! Mas, taí a chave do segredo: se você acredita que essas coisas aí citadas são Amor, elas serão. Se você pensa, acredita e até jura que ama porque apresenta algum desses sintomas, feliz amor pra você! Sim, eu entendo, existe uma necessidade de sentir emoções fortes. É possível que a sua vida esteja muito corrida, muito repetitiva, muito previsível, que mal há em inventar uma paixão? Por qual outro motivo suas pernas vão tremer, sua voz vai embargar, você vai suar frio se não por estar na presença do amor de sua vida? (Assalto não vale, o assaltante não vai te beijar e acariciar depois e ainda vai te deixar puto da vida sem celular).
Teria outra razão pra explicar os surtos de amor espalhados por aí? Alguma outra hipótese justifica tantos corações espalhados nos ares, nas paredes, nas telas de pcs e celulares? Se houver, gostaria de conhecer. Por enquanto vou ficando com essa minha convicção. Engane-se quem quiser! Cá comigo vou continuar achando que Amor... é algo um pouco mais embaixo.
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