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sexta-feira, dezembro 26

Meu coração chove


Como há três meses, é sexta-feira. Chove. Chove igual meu coração, que há noventa dias sofreu a maior das dores.
Meu coração chove por ter que passar esses últimos dias do ano sentindo o vazio profundo, deixado por uma perda irreparável. Meu coração chove porque no dia 21 de dezembro eu não tive aquele abraço primeiro, emocionado, sagrado, a mais perfeita encarnação do divino em minha vida. Meu coração chove porque é natal mas minhas luzes estão apagadas, meu sino está recolhido, minha família está incompleta. Meu coração chove porque o ano vai virar e naquela hora mágica em que todos nutrem sonhos e esperança na renovação, eu, que sempre sonhei com e por ela, sonharei sozinha... Meu coração chove porque dói ter visto o apagar de uma vida cheia de ideais; é desolador viver sem a inspiração, a razão, o farol dos meus dias. Meu coração chove porque é triste não te ter aqui...minha mãe.

quinta-feira, dezembro 18

Condição

Um dilema no sonho
outro no desprezo.

Eu, aí, me estranho
pois não sou eu mesmo.

Ou sou, desdizendo-me,
única forma de ser

até perder o prêmio
de existir e saber...

Roberval Pereyr

quarta-feira, dezembro 17

Minha mãe não morreu. Ela foi assassinada!

1
O assassinato de minha mãe começou no dia dez de setembro de 2014, quando a sua perna quebrou dentro daquela clínica e médico e enfermeira, ouvindo os gritos cortantes e profundos, simplesmente olharam e permaneceram alheios em suas atividades! Foi necessário que eu gritasse, dessa vez com revolta, para que alguém viesse tomar alguma providência. Foram os gritos de dor mais terríveis que eu ouvi em toda a minha vida, passada e futura.

2
O assassinato de minha mãe continuou quando ela foi levada para aquele hospital, considerado referência no Estado. Logo na sua chegada, o médico que avaliou a fratura detectou que ela não seria operada naquela unidade. Fugia à especialidade do hospital. Mas mesmo assim ela foi internada lá, onde viria a passar dez infelizes dias.

3
Foram os dez dias mais martirizantes daquela já tão sofrida existência. Eu daria tudo pra apagar aquele capítulo ignominioso da história de vida do ser que me deu muito mais que a vida. Me deu o amor, que é maior que tudo. Todos aqueles dias aguardando uma coisa inútil, porca, assassina, chamada Regulação. Àquela época aquela palavra era portadora de esperanças. Quando saísse a regulação ela seria transferida para o hospital em que seria operada. Era uma luz. Ela só precisava ser operada para voltar pra casa. E acabar todo aquele sofrimento. Enquanto isso, remédios eram administrados regularmente para evitar e aliviar as dores. Agulhas, comprimidos, veias, acesso, dor. A transferência aconteceu no décimo dia de internação naquele hospital referência no estado.

4
Estou suprimindo os detalhes dos horrores vistos e vividos no período mencionado. Chegou o dia 20 de setembro e eu fui chamada para ser informada do surgimento da vaga no outro hospital referencia do estado. Não é o senso comum que afirma isso, médicos me disseram que aquele era o melhor lugar para eu deixar minha mãe. Médicos de outros hospitais, não foram os de lá não. Eu ficasse tranquila que ela estava em boas mãos.

5
Na chegada ao outro hospital, o certo, o primeiro sinal de ser ele referência no estado: quatro horas de espera na maca até ser conduzida ao leito. Mal acomodada, perna imobilizada, sem poder se mexer para nenhum lado. Era um sábado, o rapaz da limpeza queixava-se conosco da ausência do colega ao trabalho naquele dia, motivo pelo qual ele havia ficado até aquela hora a trabalhar. Minha mãe disse qualquer coisa de reconfortante para ele. Era uma de suas marcas, dar uma palavra de conforto, de ânimo, de encorajamento à pessoa abatida. Passadas as quatro horas de espera, o elevador, o longo corredor, o quarto, a cama. O quarto, a cama. Ela tinha a perna direita totalmente imobilizada. A perna direita estava fraturada, há dez dias. Doía em minha alma todas as vezes que era necessário movê-la da maca para a cama, da cama para a maca, da maca para outra maca. E isso foi feito muitas vezes!... E eu sei que nela doía bem mais...

6
Me sentia inútil. Completamente impotente. Doía a perna fraturada, doíam as tentativas de achar a veia para injetar medicamentos, doía estar deitada numa cama sentindo dor, doía não poder ser operada imediatamente, doía não saber o que aconteceria depois da cirurgia, doía saber que seria mais uma cirurgia, com todos os seus riscos... Doía (nela) lembrar que eu deveria estar trabalhando e não estava. Doía me ver dormindo na cadeira - ou passar as noites acordada na cadeira - embora eu nunca tivesse reclamado disso. Reclamar, eu? Eram tantas as coisas terríveis aos meus olhos. Minha própria mãe estava ali, prostrada, doendo... Doía. Ela sentiu muita dor. Ela não merecia que a vida lhe doesse tanto.

7
Como foi num fim de semana a chegada no outro hospital, as expectativas para que algo novo acontecesse estavam todas na segunda-feira. “Eu sou mastologista, não posso fazer nada no seu caso. Só o ortopedista. Eu já fiz a solicitação e ele virá aqui para avaliar a senhora.” Essa frase foi ouvida no domingo, na segunda, na terça, na quarta, na quinta. Na quinta eu me vi na obrigação de sair, de protestar. “Mas cadê o ortopedista? Todos os dias dizem a mesma coisa!” “Nós já fizemos a solicitação e ele está vindo. Depois da solicitação ele tem quarenta e oito horas para comparecer.” Enfermaria, assistência social, ouvidoria... Clamei a quem pude. Naquele mesmo dia, à tarde, o ortopedista apareceu.

8
Mas antes que isso acontecesse, os remédios. Na noite da nossa chegada, administraram um remédio forte demais. Minha mãe não passou bem. Contou-me depois que sentiu como se fosse morrer. “Foi o remédio, mainha. Vou pedir pra trocar, não se preocupe.” Que tola eu fui... Não administraram mais aquele remédio forte, eu pedi. “Por que não manter os mesmos que ela tomava no outro hospital?” Ela não sentia mal estar e aliviava as dores. Ela escreveu na ficha. Estava feita a troca. Sim, eu fui burra. Eu também ajudei a assassinar minha mãe. Crime culposo.

9
Ela ficou tomando aqueles remédios e, de fato, a perna fraturada só doía quando precisava manipular. Ordinariamente, nos horários determinados, lá vinha alguém de branco com aquela cesta. O recipiente de soro vinha com o nome do paciente, cada um recebia os seus. Eu ficava olhando aquele líquido descendo, penetrando as veias de minha mãe e perguntando vez por outra: “Tá doendo agora, mãe?” Eu achava que estava protegendo estando ao lado, perguntando, conversando... Doce ilusão!...

10
Na noite de quarta-feira ela passou bem mal. Levei um susto quando subi depois de ter atendido uma visita e minha mãe estava inquieta. “Já ia mandar lhe chamar, minha filha.” Estava pálida, sentia um calor estranho, logo começou a suar. Suou muito! Não tinha sossego. Chamei as técnicas de enfermagem para medir a pressão, glicose, essas coisas básicas. Pressão baixa. “O que fazer?” “Só o soro resolve. Daqui a pouco ela melhora”. Não melhorou. Passou toda a noite suando, sem dormir, impaciente, feição abatida, sentindo algo que ela chamava de “agonia”. Só depois que o sol saiu ela parou de suar. Talvez tivesse cochilado um pouco, mas não se sentia melhor.

11
“Não estou bem. Eu não vou resistir.” Ouvi isso algumas vezes naquela noite e durante o dia que seguiu. “Efeito dos remédios”, disseram alguns, inclusive uma técnica de enfermagem que chegou à tardinha. “Ave Maria! Ela está assim por estar tomando tanta dipirona! Duas ampolas a cada seis horas??” [A técnica em enfermagem só mencionou a dipirona, mas mainha estava usando também um outro medicamento que, eu viria a descobrir dias depois, é altamente danoso. Chama-se Tramal, a droga). Eu fui muito insensível. Saber que o mal-estar era decorrente dos medicamentos não me deixou desesperada. Pelo contrário. Eu só evitei que dessem os medicamentos durante o dia, conversei com a moça que dormiria naquela noite que fizesse o mesmo. A moça era uma amiga de minha mãe, conheciam-se há muitos anos. Trabalhou em hospital, cuidando de idosos. Ela se ofertara há muitos dias para dormir com ela... Creiam! eu saí de perto de minha mãe justo naquele dia.

12
Eu havia conversado com o médico naquela tarde. A cirurgia estava sendo programada para a semana seguinte. Não era um caso de morte imediata. Só após a cirurgia saber-se-ia se o tumor que provocou a fratura era maligno. E eu tinha certeza, dessas certezas que a fé coloca no coração da gente, dessas certezas que vão sendo construídas com pedaços de vivências; eu tinha certeza que o tumor não era maligno.

13
Na noite de quinta-feira eu não dormi no hospital. Lembro que dei um beijo nela antes de sair, falei que tinha que descer logo porque a moça tinha um horário limite pra subir. Já havia relutado bastante até aquele momento se deveria ou não sair. Ela queria que eu saísse. Ela dizia que eu estava cansada, que eu fosse dormir. Sim, eu estava cansada, mas não foi isso que me fez sair. Eu precisava estar inteira pra cuidar dela, para estar atenta a tudo que fizessem. Eram já cinco dias e noites seguidos no hospital. Eu saí. Voltaria bem cedo, a casa era perto, ia e voltava a pé. E antes de deixar o quarto, voltei novamente o olhar para ela. “Fique direitinha viu, mãe?”

14
Eu nunca vou saber o que aconteceu naquela madrugada. Nunca vou saber por que aconteceu justo na minha ausência. Não vou saber o que ela disse, se ela disse algo, não vou saber se desejou me ver... Sim, certamente! Deve ter me querido perto! Eu era sua segurança, o seu porto seguro... eu não estava quando ela mais precisou de mim...
Inútil!

15
Dezesseis dias com uma perna fraturada. Dezesseis dias deitada, movendo-se com muita dificuldade. Dezesseis dias de uma espera interminável, martirizante, vergonhosa. Dezesseis dias tomando remédios sem parar. E morrendo a cada gota de soro. Morrendo a cada comprimido. Morrendo para não sentir a dor da fratura. Morrendo enquanto esperava a solução para poder voltar a andar. E morrendo aos meus olhos! Eu que achava que proteger era estar perto.

16
Perdão, minha mãe! Perdoe a minha ignorância, meu equívoco, minha estupidez. Eu queria te ver bem. Perdoe-me por ter feito errado. Perdoe-me por ter presenciado o seu assassinato sem gritar por socorro. Por não ter entendido os seus sinais. Eu sei que você era forte. Como sei!... A culpa não foi sua por ter partido. Você lutou, você queria ficar, eu sei. Mas te mataram. Te mataram às gotas. Te mataram em horários marcados. Te mataram covardemente. A Regulação, o SUS, os hospitais referências do estado. E eu... vi... tudo.

16 de dezembro de 2014
80 dias

domingo, dezembro 7

A minha alma partiu-se

Tem dias que nenhuma máscara faz a personagem. Nenhum artifício funciona, nenhuma saída resulta em fuga.
Tem dias que a dor se impõe impetuosa! Que a saudade corta a alma mais que navalha na carne. Hoje...

"A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali."

Álvaro de Campos, in "Poemas"