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terça-feira, dezembro 1
Dezembro...
Envelheci uns DEZ anos nos últimos meses.
Lembranças de quando te recebias EM festa...
Sim, acredito que, das cinzas, o entusiasmo BROtará.
segunda-feira, novembro 23
Dos pássaros que faltam
Saíra cedo da cama para caçar passarinhos. Era essa sua atividade mais habitual. Tinha certa habilidade, de modo que contava já um número considerável de bonitos sabiás no seu pequenino pomar particular. Os sabiás eram seus pássaros prediletos. Por muito tempo dedicou-se somente à caça dessa espécie. Andava agora desejoso de um pássaro de penas azuis. Não era uma espécie rara, pois muitos o tinham pela redondeza, mas ele nunca conseguira aprisionar um pássaro azul. Animou-se todo, naquela manhã de sol, quando um deles pousou no seu alçapão. Reuniu os amigos todos para mostrar-lhes a novidade. O coração do menino pulou de alegria com a possibilidade daquela caça inédita. Enquanto o pássaro estava ali, pousado, fazia ele mil conjecturas de como narraria a façanha para os seus afetos. Pensou em como seria completo, agora, com um pássaro azul junto aos seus sabiás. Os amigos todos juntaram-se na torcida por aquele feito inédito do dedicado cuidador de passarinhos. A perspectiva animou a todos, que, interiormente, já comemoravam a grande façanha do dia. O passarinho pulou daqui, pulou dali, perscrutou o espaço, deixou-se ficar um pouco mais em cima do alçapão. Coisas de passarinhos. Toda caçada começa assim. No entanto, aquela era especial. Sentaram-se todos, guardando certa distância, silenciosos e atentos, observando os movimentos do visitante inesperado. De repente, num bater de asas decidido, o pássaro azul voltou para o galho da árvore. Para dali ganhar o infinito novamente. Os amigos do pequeno caçador sentiram neles próprios a frustração daquele desfecho infeliz. Uns baixaram a cabeça, sem palavras de encorajamento para o companheiro, outros tentaram distraí-lo com uma piada sem graça, outro ainda, bateu no seu ombro afirmando que aquele havia sido um prelúdio. E logo um pássaro azul pousaria no seu alçapão. Ele veria. Mas o menino, em tom de sabedoria e descrença, enquanto recolhia a armadilha, balbuciou:
- Não nasci para ter pássaros azuis. Amanhã volto para tentar mais um sabiá.
E, com passos rápidos e coração cansado, entrou no caminho de mato fechado de volta pra casa.
domingo, outubro 4
Ônus
Ninguém sabia que o menino acordara de sonhos intranquilos e saíra a ermo desejando que o vento da manhã de sol levasse consigo os resquícios de inquietude da noite mal vivida;
Ninguém soube que o menino derramara lágrimas quando o calendário o fez recordar de momentos dolorosos;
Ninguém desconfia que o menino até hoje se culpa por atitudes não tomadas quando a vida lhe doeu mais intensamente;
Ninguém sentiu as dores do menino.
Todos o apontaram quando ele não soube ser sorridente e amável como sempre fora.
Ninguém soube que o menino derramara lágrimas quando o calendário o fez recordar de momentos dolorosos;
Ninguém desconfia que o menino até hoje se culpa por atitudes não tomadas quando a vida lhe doeu mais intensamente;
Ninguém sentiu as dores do menino.
Todos o apontaram quando ele não soube ser sorridente e amável como sempre fora.
sábado, outubro 3
Mas livrai-me do mal... Amém!
Quero saber a arte do sorriso. De olhar o mal com olhos de quem crê que o bem maior me rege.
Quero saber a arte do silêncio. Pra não gastar em palavras a energia das ações.
Quero saber a arte da sabedoria. Para entender que os dias maus hão de deixar o legado da experiência.
Quero ter a sabedoria da arte: e não morrer por excesso de palavras não-ditas.
Quero saber a arte do silêncio. Pra não gastar em palavras a energia das ações.
Quero saber a arte da sabedoria. Para entender que os dias maus hão de deixar o legado da experiência.
Quero ter a sabedoria da arte: e não morrer por excesso de palavras não-ditas.
sábado, setembro 26
Um ano de saudade
Setembro era meu segundo mês preferido. Acho que pelo fato de ser a chegada da primavera, estação que traz ares renovados e serenos, depois do sombrio inverno. Mas, em 2014, eu tive uma primavera às avessas. Foi justamente no mês das flores que a flor-rainha do meu jardim me deixou.
Como foi difícil esse ano sem a presença física de minha mãe. Uma saudade imensa! É desolador olhar para os lados e não mais ver, não escutar mais a voz, os passos na casa, não poder mais beijar e apertar como era rotineiro. Já falei exaustivamente da minha dor, da minha revolta, dos questionamentos que ficaram, já briguei com a vida, chamei-a injusta, cruel, feia... Andei em conflito até com Deus. Mas com Ele não dá pra ficar de mal por muito tempo. Pra onde ir, o que fazer, como viver sem Ele? Desisti de tentar entender. É mistério demais para minha lógica humana.
É certo que as coisas não estavam fáceis pra ela por aqui. Enfrentou tantas chuvas, ventanias... Fazia inverno. A vida poderia, portanto, ter sido bem mais legal com minha mãe, permitindo que ela ficasse um pouco mais conosco para ter motivos de sorrir e ser feliz, depois de tantas tempestades. Mas não foi como eu quis. Ela partiu tão breve quanto cruelmente.
Agora ela está em outro plano, e sei que carregarei essa saudade até quando eu parar de respirar. Desejo profundamente que o lado de lá esteja infinitamente melhor que aqui. No plano superior (de onde deve dar pra ver a lua nova bem de perto), certamente não há dores, nem preocupações, nem remédios e horários. Que estejas vivendo agora uma primavera sem fim.
Esteja feliz, mainha!
365 dias
Como foi difícil esse ano sem a presença física de minha mãe. Uma saudade imensa! É desolador olhar para os lados e não mais ver, não escutar mais a voz, os passos na casa, não poder mais beijar e apertar como era rotineiro. Já falei exaustivamente da minha dor, da minha revolta, dos questionamentos que ficaram, já briguei com a vida, chamei-a injusta, cruel, feia... Andei em conflito até com Deus. Mas com Ele não dá pra ficar de mal por muito tempo. Pra onde ir, o que fazer, como viver sem Ele? Desisti de tentar entender. É mistério demais para minha lógica humana.
É certo que as coisas não estavam fáceis pra ela por aqui. Enfrentou tantas chuvas, ventanias... Fazia inverno. A vida poderia, portanto, ter sido bem mais legal com minha mãe, permitindo que ela ficasse um pouco mais conosco para ter motivos de sorrir e ser feliz, depois de tantas tempestades. Mas não foi como eu quis. Ela partiu tão breve quanto cruelmente.
Agora ela está em outro plano, e sei que carregarei essa saudade até quando eu parar de respirar. Desejo profundamente que o lado de lá esteja infinitamente melhor que aqui. No plano superior (de onde deve dar pra ver a lua nova bem de perto), certamente não há dores, nem preocupações, nem remédios e horários. Que estejas vivendo agora uma primavera sem fim.
Esteja feliz, mainha!
365 dias
sábado, setembro 12
quarta-feira, agosto 26
Elegia 8
A lembrança da sua voz cantarolando na cozinha enquanto cuidava dos afazeres veio me despertar na manhã de ontem.
Devo confessar que, não sei por que caprichos da intuição, dei para prestar mais atenção nos seus gestos nos últimos momentos em que estavas aqui. Lembro-me de acordar ouvindo sua voz e instantaneamente sorrir e agradecer a Deus pela sua vida, pelo seu canto. Acho que alguma coisa estava a me comunicar que tão logo passarias a cantar no coro dos anjos celestiais...
Sua voz era tão linda!... Cante em paz, minha mãe!
330 dias.
Devo confessar que, não sei por que caprichos da intuição, dei para prestar mais atenção nos seus gestos nos últimos momentos em que estavas aqui. Lembro-me de acordar ouvindo sua voz e instantaneamente sorrir e agradecer a Deus pela sua vida, pelo seu canto. Acho que alguma coisa estava a me comunicar que tão logo passarias a cantar no coro dos anjos celestiais...
Sua voz era tão linda!... Cante em paz, minha mãe!
330 dias.
domingo, agosto 2
2 de agosto
Hoje quem faz aniversário é meu pai. Essa proximidade de datas era uma beleza. Aprendi a fazer uma comemoração só para os dois. Bonito, além de prático.
Uma vez, quando eu era pequena, ouvi meu pai dizer no meio de um diálogo rápido com uma pessoa na rua que ele faria tudo por mim. Fui crescendo e comprovando que ele não mentiu. É do jeito dele, mas ele move todas as montanhas possíveis pra me ver bem. É assim com meus irmãos também, mas eu sinto que tenho um tiquinho mais de atenção por ser mulher.
Tomara, meu pai, que eu esteja sendo uma filha à sua altura. A você, que pede tão pouco da vida, pois julga sempre ter o suficiente, desejo a graça de caminhar na sabedoria e na luz. Que seu coração esteja repleto de paz e que o passar dos anos não faça envelhecer as virtudes que carregas na alma.
Te amo, pai!
Uma vez, quando eu era pequena, ouvi meu pai dizer no meio de um diálogo rápido com uma pessoa na rua que ele faria tudo por mim. Fui crescendo e comprovando que ele não mentiu. É do jeito dele, mas ele move todas as montanhas possíveis pra me ver bem. É assim com meus irmãos também, mas eu sinto que tenho um tiquinho mais de atenção por ser mulher.
Tomara, meu pai, que eu esteja sendo uma filha à sua altura. A você, que pede tão pouco da vida, pois julga sempre ter o suficiente, desejo a graça de caminhar na sabedoria e na luz. Que seu coração esteja repleto de paz e que o passar dos anos não faça envelhecer as virtudes que carregas na alma.
Te amo, pai!
sexta-feira, julho 31
31 de julho
Vi essa imagem ontem circulando pelas redes sociais e fiquei imaginando como é grandiosa a mente lúdico-criativa das crianças. Todo mundo que tem o peito apertado de saudade queria, ao menos mais uma vez, estar daquele jeito que ela desenhou, com o ser que partiu. E quando se trata daquela que nos gerou e mais do que todos amou, o desejo de retorno é profundamente maior. A força do cordão umbilical reivindica eternamente essa união.
31 de julho. Seu aniversário, mãe. Agora eu nem posso mais preparar festinha, nem almoço, nem café da manhã surpresa. Não tem mais a aniversariante... Queria tanto que seus aniversários se multiplicassem... Que você apagasse muitas velinhas, partisse muitos bolos e ficasse por muito mais tempo sendo o nosso presente. Não foi como eu quis. Eu clamei tanto que você ficasse, mas.. sei, tava difícil suportar né? Eu queria mesmo era que tudo ficasse bem. Que as angústias e aflições acabassem e seu coração tivesse paz. O meu amor e o meu egoísmo te queriam aqui, perto de mim. Vivendo as suas e as nossas realizações. Queria ver seus cabelos brancos e que conhecêsseis seus netos. A vida poderia ter sido bem mais legal com você, mãe. Poderia não lhe ter doído tanto.
Pensando bem, pessoas bonitas assim não merecem a imundície desse mundo. Me consola saber que a sua morada agora é plena de luz e paz. (Por que a eternidade é tão distante daqui?)... Daí deve dá pra ver de bem perto a lua nova, não é? Eu acho que sim...
Tomara que a eternidade seja mesmo como pintam e cantam. Aliás, que seja ainda melhor! Como é imenso o meu desejo de ir pra lá também. Preciso daquele abraço que me dava força, proteção, razão pra viver. Esteja muito feliz, minha mãe. E não se preocupe comigo. Fomos feitas da mesma fibra.
terça-feira, julho 28
domingo, julho 26
Elegia 7
Dez meses. O julho deste ano me dói na mesma proporção com que, em todos os anos passados, me dava alegria. O silêncio me consome! Seu aniversário é no último dia, mas o estado de graça pelo presente de sua vida era sentido mais intensamente em todos os dias do mês.
Vão-se somando os acontecimentos temporais em que não te tenho ao lado. O tempo corre veloz.
Ontem ainda e via o seu sorriso, ouvia a sua voz, sentia o seu abraço. Hoje és só lembrança.
Não adianta, sou humana demais para compreender. (Por isso me repito).
300 dias.
Vão-se somando os acontecimentos temporais em que não te tenho ao lado. O tempo corre veloz.
Ontem ainda e via o seu sorriso, ouvia a sua voz, sentia o seu abraço. Hoje és só lembrança.
Não adianta, sou humana demais para compreender. (Por isso me repito).
300 dias.
sábado, julho 11
sábado, junho 27
Ame a tristeza (Mary Oliver)
Ame a tristeza
Ela é sua agora.
E você tem que tomar conta do que lhe foi dado
Escove o cabelo dela,
Ajude-a a vestir o casaquinho,
Pegue-a pela mão, especialmente ao atravessar a rua.
Pois pense só: e se você a perdesse?
Aí você mesma seria a tristeza
A cara fechada, a insônia dela seriam suas.
Cuide bem dela, toque-lhe a testa
Pra ela sentir que não está completamente sozinha.
E sorria, para ela não esquecer totalmente que há um mundo lá fora.
Tenha paciência de sobra
E nunca minta ou a deixe por um momento sequer sozinha,
Ou seja, de novo abandonada.
Ela é estranha, muda, difícil!
As vezes intratável.
Mas lembre-se, é uma criança!
Coisas incríveis podem acontecer, você vai ver,
Quando vocês duas forem andar juntas à luz da manhã como pouco a pouco ela relaxa,
Ela olha em volta, ela começa a crescer.
Tradução de Jorge Pontual.
Ela é sua agora.
E você tem que tomar conta do que lhe foi dado
Escove o cabelo dela,
Ajude-a a vestir o casaquinho,
Pegue-a pela mão, especialmente ao atravessar a rua.
Pois pense só: e se você a perdesse?
Aí você mesma seria a tristeza
A cara fechada, a insônia dela seriam suas.
Cuide bem dela, toque-lhe a testa
Pra ela sentir que não está completamente sozinha.
E sorria, para ela não esquecer totalmente que há um mundo lá fora.
Tenha paciência de sobra
E nunca minta ou a deixe por um momento sequer sozinha,
Ou seja, de novo abandonada.
Ela é estranha, muda, difícil!
As vezes intratável.
Mas lembre-se, é uma criança!
Coisas incríveis podem acontecer, você vai ver,
Quando vocês duas forem andar juntas à luz da manhã como pouco a pouco ela relaxa,
Ela olha em volta, ela começa a crescer.
Tradução de Jorge Pontual.
sexta-feira, junho 26
Elegia 6
O tempo de uma gestação, a extensão dos dias que venho (sobre)vivendo com o peso da ausência.
Uma das coisas que mais ouvi das pessoas que vinham oferecer-me palavras de conforto era: "o tempo vai te ajudar a sofrer menos". Chamei a todas de mentirosas, no meu íntimo, pois percebia que, ao invés de amenizar, a dor crescia com o passar do tempo. E cada dia era mais difícil acordar, transitar na casa, olhar as coisas naquela ordem que ela deixara... A dor aumentava em todos os seus ângulos. Até que, num determinado dia, em um profundo acesso de desesperança, tive a sensação de que eu iria ser consumida. E, naquele instante, percebi que estava diante de um abismo, pois a dor continuaria crescendo. Era urgente, então, que eu crescesse, para poder acomodá-la, uma vez que ela começava a fazer-se maior que eu. Empenhei-me então a Crescer. Expandir-me espiritualmente era questão de sobrevivência.
É um projeto de longo prazo, crescer para que a dor caiba em mim. Como um dever de casa. Às vezes esqueço de cumpri-lo e o desconforto causado pela falta de espaço logo começa a me ferir de modo mais grave.
Ela está aqui, passem as luas que passarem. Tenho a tarefa de fazer-me a cada dia um pouco maior que ela, para poder abarcá-la.
(270 dias).
Uma das coisas que mais ouvi das pessoas que vinham oferecer-me palavras de conforto era: "o tempo vai te ajudar a sofrer menos". Chamei a todas de mentirosas, no meu íntimo, pois percebia que, ao invés de amenizar, a dor crescia com o passar do tempo. E cada dia era mais difícil acordar, transitar na casa, olhar as coisas naquela ordem que ela deixara... A dor aumentava em todos os seus ângulos. Até que, num determinado dia, em um profundo acesso de desesperança, tive a sensação de que eu iria ser consumida. E, naquele instante, percebi que estava diante de um abismo, pois a dor continuaria crescendo. Era urgente, então, que eu crescesse, para poder acomodá-la, uma vez que ela começava a fazer-se maior que eu. Empenhei-me então a Crescer. Expandir-me espiritualmente era questão de sobrevivência.
É um projeto de longo prazo, crescer para que a dor caiba em mim. Como um dever de casa. Às vezes esqueço de cumpri-lo e o desconforto causado pela falta de espaço logo começa a me ferir de modo mais grave.
Ela está aqui, passem as luas que passarem. Tenho a tarefa de fazer-me a cada dia um pouco maior que ela, para poder abarcá-la.
(270 dias).
domingo, junho 21
São João
As bandeirolas na rua, o recesso do trabalho, as pessoas vestidas com roupas características, as fotos de comidas típicas nas redes sociais recordam-me que estamos às vésperas do São João. Essa festividade já foi uma das mais aguardadas por mim. Os fogos, que me encantavam (e esses eram os que não produziam estrondo, obviamente), os bolos tanto mais variados quanto mais saborosos que eu, saltitante, ajudava mainha a preparar, o amendoim cozido - a delícia em casquinhas, o milho e seus derivados, o cheiro da laranja, que parece ganhar um tom característico nesta época, a animação do povo nas ruas, realçada pelo efeito dos licores coloridos, o som de zabumba e sanfona sobressaindo-se aos demais instrumentos musicais...
São joão era época festiva, e embora eu não tivesse como hábito ir a lugares para comemorar em festas e grupos de amigos, a alegria contagiava também a mim, e eu era feliz.
São joão era época festiva, e embora eu não tivesse como hábito ir a lugares para comemorar em festas e grupos de amigos, a alegria contagiava também a mim, e eu era feliz.
sábado, junho 13
Da eternidade do amor - Inês Pedrosa
E nestes dias em que se celebra o amor,corações, beijos e abraços esparramados por todos os lados, vou deixar um trechinho da escritora portuguesa Inês Pedrosa, do romance que analisei na minha dissertação de Mestrado. No trecho, a personagem Ana Lúcia escreve a Afonso, que acabara de perder a filha pequena. Meditando sobre a relação vida x morte, ela reflete sobre a natureza do amor. Inevitável esse entrecruzamento...
É, na minha opinião, a página mais bonita do livro.
"(...). O amor é eterno como as estrelas. Não sabemos nada das estrelas, como não sabemos nada do amor. Muitas vezes encontramos no brilho distante de uma estrela a coragem necessária para atravessar noites de excessiva treva. Sussurramos desejos às estrelas cadentes e confiamos as lágrimas à beleza de um céu estrelado. Precisamos da tristeza para aprender a olhar para o céu. Não falo do céu metafísico, do céu povoado de deuses vingadores, desse céu demasiado terreno que, ao longo dos séculos, tem construído uma história de horror e guerra. Não falo do céu dos fiéis e infiéis, do céu que ergue fogueiras e cadafalsos, que inventa infernos e torturas, que se despenha em aviões sobre a humanidade. Falo do céu que existe sobre as nossas cabeças demasiado ocupadas a engravatar a terra. Das estrelas que vivem e morrem sem que o saibamos, e que nos iluminam, se soubermos olhar para elas como se fossem sempre a mesma, a estrela inicial. É assim a eternidade do amor - indiferente à vida e à morte, capaz de sobreviver à pequena cronologia da vida. Capaz, acima de tudo, de fazer da semivida presunçosa em que tantas vezes nos enredamos, uma vida verdadeira, voltada à única coisa que interessa - o amor.
Temos o privilégio de nos sabermos mortais. O que fazemos desse privilégio? Em geral, fugimos dele, apavorados. Refugiamo-nos nas aparências do tempo, fazemos contas à vida. A morte de um jovem é uma afronta a essa nossa contabilidade estéril. As nossas vidas seriam muito diferentes, se acordássemos para cada dia como se fosse o único. Quantas vezes repetimos: 'Temos tempo'? Quantas horas ocupamos a complicar as vidas dos outros, em vez de simplificarmos a nossa?
Temos medo. O medo é o maior assassino; conduz-nos a subterfúgios infra-humanos. O medo criou os deuses do extermínio e da vingança, porque a sua natureza cobarde leva-o a viver de desculpas e a sacudir a responsabilidade. Quantas pessoas não se dizem 'demasiado sensíveis' para ir a um hospital e acarinhar um doente terminal, ou para ir a um velório abraçar os que acabaram de perder uma parte de si? A doença e a morte confrontam-nos com a mortal mesquinhez desta 'sensibilidade' - e convocam-nos para uma outra forma de vida, eterna como a valentia e a bondade humanas, que são uma e a mesma coisa.
Repetimos que a fé é, face à morte, o maior lenitivo. Mas que é a fé verdadeira senão o absoluto do Amor? O Amor é o verdadeiro rosto de Deus." (...)
In: Os íntimos, 2010, p. 67, 68.
É, na minha opinião, a página mais bonita do livro.
"(...). O amor é eterno como as estrelas. Não sabemos nada das estrelas, como não sabemos nada do amor. Muitas vezes encontramos no brilho distante de uma estrela a coragem necessária para atravessar noites de excessiva treva. Sussurramos desejos às estrelas cadentes e confiamos as lágrimas à beleza de um céu estrelado. Precisamos da tristeza para aprender a olhar para o céu. Não falo do céu metafísico, do céu povoado de deuses vingadores, desse céu demasiado terreno que, ao longo dos séculos, tem construído uma história de horror e guerra. Não falo do céu dos fiéis e infiéis, do céu que ergue fogueiras e cadafalsos, que inventa infernos e torturas, que se despenha em aviões sobre a humanidade. Falo do céu que existe sobre as nossas cabeças demasiado ocupadas a engravatar a terra. Das estrelas que vivem e morrem sem que o saibamos, e que nos iluminam, se soubermos olhar para elas como se fossem sempre a mesma, a estrela inicial. É assim a eternidade do amor - indiferente à vida e à morte, capaz de sobreviver à pequena cronologia da vida. Capaz, acima de tudo, de fazer da semivida presunçosa em que tantas vezes nos enredamos, uma vida verdadeira, voltada à única coisa que interessa - o amor.
Temos o privilégio de nos sabermos mortais. O que fazemos desse privilégio? Em geral, fugimos dele, apavorados. Refugiamo-nos nas aparências do tempo, fazemos contas à vida. A morte de um jovem é uma afronta a essa nossa contabilidade estéril. As nossas vidas seriam muito diferentes, se acordássemos para cada dia como se fosse o único. Quantas vezes repetimos: 'Temos tempo'? Quantas horas ocupamos a complicar as vidas dos outros, em vez de simplificarmos a nossa?
Temos medo. O medo é o maior assassino; conduz-nos a subterfúgios infra-humanos. O medo criou os deuses do extermínio e da vingança, porque a sua natureza cobarde leva-o a viver de desculpas e a sacudir a responsabilidade. Quantas pessoas não se dizem 'demasiado sensíveis' para ir a um hospital e acarinhar um doente terminal, ou para ir a um velório abraçar os que acabaram de perder uma parte de si? A doença e a morte confrontam-nos com a mortal mesquinhez desta 'sensibilidade' - e convocam-nos para uma outra forma de vida, eterna como a valentia e a bondade humanas, que são uma e a mesma coisa.
Repetimos que a fé é, face à morte, o maior lenitivo. Mas que é a fé verdadeira senão o absoluto do Amor? O Amor é o verdadeiro rosto de Deus." (...)
In: Os íntimos, 2010, p. 67, 68.
domingo, junho 7
Dois pontos
Que seja flor o botão
que seja cor o clarão
que seja pra durar
não seja dor, furacão
não leve a paz - extinção
não deixe-se quebrar
não sendo flor, vá ao chão
amanhecer, escuridão
se for doer... faça-se calar:
de finitudes vou plena
de interditos, exausta
entendo bem de partidas,
Chegadas... falta aprender.
que seja cor o clarão
que seja pra durar
não seja dor, furacão
não leve a paz - extinção
não deixe-se quebrar
não sendo flor, vá ao chão
amanhecer, escuridão
se for doer... faça-se calar:
de finitudes vou plena
de interditos, exausta
entendo bem de partidas,
Chegadas... falta aprender.
terça-feira, maio 26
Elegia 5 (Memórias dos meus maios)
Nas memórias dos meus maios, vejo nós duas caminhando para o Mês de Maria. Braços dados, agasalhos, levadas pelo amor à Mãe Maior. Lembro a sua preparação desde o cair da tarde, a sua atenção em sair cedo para nunca chegar atrasada. Maio era um dos nossos preferidos meses.
Eis um maio mudado, mudo.
Aprendi contigo a cultivar esse carinho pela Mãe do céu. Desde pequena fui ensinada a falar pra ela das minhas inquietações. Mãe sempre entende o filho e o acolhe. Assim como tu me acolhias enquanto estavas aqui.
Meus maios agora têm duas medidas:
Maio menor... sem teus braços enlaçados aos meus.
Maio maior... com duas mães me olhando do céu.
(240 dias).
Eis um maio mudado, mudo.
Aprendi contigo a cultivar esse carinho pela Mãe do céu. Desde pequena fui ensinada a falar pra ela das minhas inquietações. Mãe sempre entende o filho e o acolhe. Assim como tu me acolhias enquanto estavas aqui.
Meus maios agora têm duas medidas:
Maio menor... sem teus braços enlaçados aos meus.
Maio maior... com duas mães me olhando do céu.
(240 dias).
domingo, maio 17
Prece
Meu Deus,
Sei que este mundo é apenas uma travessia, e tenho aprendido que dele não devemos esperar justiça nem benevolência. Ajude-me a cumprir minha trajetória com sabedoria.
Que eu não dê passos incertos, nem mire alvos caiados.
Que eu saiba reconhecer as folhas secas que devem voar, bem como os brotos de vida que precisam de ar e espaço para florescer.
Não me sejam pesadas as consequências das escolhas que fiz, mas caso assim se tornem, que eu não me acomode ao cansaço que atribula os dias.
Que eu tenha medo do novo, mas que ele não me impeça de desbravar caminhos.
Que eu não viva à espera de coisas extemporâneas para ficar feliz, mas que elas venham mesmo sem terem sido esperadas, e me façam bem.
Que eu não cale a minha voz diante das opressões; que eu não feche meus olhos frente às injustiças.
A mentira não me arraste em suas teias; que eu olhe nos olhos e consiga enxergar o coração.
Livra-me da sedução de tudo que não nasce de Ti.
Sejam meus olhos espelhos da alma, e que esta esteja constantemente buscando o Teu colo.
Que ser só não signifique ser triste; minha companhia me seja bastante. Mas que eu tenha, perto ou longe, quem bem me queira.
As crianças sejam sempre meu alumbramento, as estrelas minha inspiração e a lua o meu encanto.
Que eu não me faça indiferente à Sua criação.
"Que as pedras do meu caminho meus pés suportem pisar". Nenhuma dor outra vez me suplante a fé. Nenhuma ferida permaneça sem fechar.
Minha luz seja do Teu Espírito e minha proteção, a dos Teus anjos.
Que meu elo contigo nunca se desfaça.
Que olhem pra mim minha Mãe do céu, Senhora do mundo,
e a mãe que tive na terra, meu pedaço já na eternidade.
Amém.
Sei que este mundo é apenas uma travessia, e tenho aprendido que dele não devemos esperar justiça nem benevolência. Ajude-me a cumprir minha trajetória com sabedoria.
Que eu não dê passos incertos, nem mire alvos caiados.
Que eu saiba reconhecer as folhas secas que devem voar, bem como os brotos de vida que precisam de ar e espaço para florescer.
Não me sejam pesadas as consequências das escolhas que fiz, mas caso assim se tornem, que eu não me acomode ao cansaço que atribula os dias.
Que eu tenha medo do novo, mas que ele não me impeça de desbravar caminhos.
Que eu não viva à espera de coisas extemporâneas para ficar feliz, mas que elas venham mesmo sem terem sido esperadas, e me façam bem.
Que eu não cale a minha voz diante das opressões; que eu não feche meus olhos frente às injustiças.
A mentira não me arraste em suas teias; que eu olhe nos olhos e consiga enxergar o coração.
Livra-me da sedução de tudo que não nasce de Ti.
Sejam meus olhos espelhos da alma, e que esta esteja constantemente buscando o Teu colo.
Que ser só não signifique ser triste; minha companhia me seja bastante. Mas que eu tenha, perto ou longe, quem bem me queira.
As crianças sejam sempre meu alumbramento, as estrelas minha inspiração e a lua o meu encanto.
Que eu não me faça indiferente à Sua criação.
"Que as pedras do meu caminho meus pés suportem pisar". Nenhuma dor outra vez me suplante a fé. Nenhuma ferida permaneça sem fechar.
Minha luz seja do Teu Espírito e minha proteção, a dos Teus anjos.
Que meu elo contigo nunca se desfaça.
Que olhem pra mim minha Mãe do céu, Senhora do mundo,
e a mãe que tive na terra, meu pedaço já na eternidade.
Amém.
domingo, maio 10
"Amor imorredouro"
Inevitável não lembrar do abraço cerimonioso que eu te dava nos segundos domingos de maio. Te abraçar e te beijar era ato diário. A qualquer momento, em qualquer lugar, quando você estava brava, cansada, preocupada ou sorrindo. Mas o abraço do dia das mães era diferente. Bem no fundo, tinha um eco da consciência; um medo mesmo, fruto da dura verdade de que um dia, (um dia!) meus braços ficariam vazios. E você sentia isso também. Não era à toa aquele seu ar entre sério e sereno a dizer coisas ternas enquanto eu te abraçava. Sim, era você quem me dizia coisas ternas. Eu ficava sempre tão paralisada pela solenidade do momento que não sabia nada fazer além de abraçar e sentir. E muitas dessas vezes junto com você, chorar.
"Que no próximo ano eu esteja aqui para que vocês possam fazer o mesmo", era uma das coisas que você pronunciava quando te abraçávamos, eu e os meninos. No ano de 2010, quando passamos pela maior das provas, com sua saúde ameaçada, essa frase portava doses redobradas de fé e esperança. Torcemos, oramos, choramos, clamamos que aquela nuvem carregada passasse e a calmaria voltasse. Os anos que sucederam 2010 foram anos de vitória. Seus cabelos, cujos fios haviam caído por completo, voltaram a crescer. E numa beleza e vigor que traduziam a sua força e vontade de continuar vivendo, apesar de todos os apesares. É, a vida sempre te foi hostil, mas você sempre levantava e sorria. Uma guerreira, com todas as letras.
A minha prece a Deus de todos os dias era que você tivesse paz. Que a sua saúde estivesse bem, que todo o mal se afastasse da sua vida. Que as causas de preocupação cessassem, que eu tivesse você sorrindo ao meu lado por anos a fio. Forte, bonita e elegante, como eu te dizia, e você ria achando que eu estava sendo bondosa. Não, eu estava sendo sincera. Eras a mais linda das filhas de minha avó. (Que me perdoem minhas tias, todas muito amadas). Eram sinceras as minhas reclamações por não ter herdado o seu cabelo longo, cheio e macio, as suas unhas fortes e bem torneadas, sua sobrancelha feita por natureza. Eu, como única filha, deveria tê-los recebido por direito!
Pois bem, os muitos e muitos anos que eu pedi a Deus que tivesse ao seu lado... não vieram. Não sei por que. Não que eu me considere digna de todas as graças, merecedora de que meus pedidos sejam sempre atendidos. Quem sou eu!... Mas a gente é assim mesmo... não sabe de nada. E nesse primeiro dia das mães em que eu vou sair do meu quarto e você não vai estar lá dentro para eu abraçar, estou aqui escutando a chuva cair forte no telhado e escrevendo estas linhas. A chuva, sempre a chuva...
Agora que eu não posso mais comprar um presente pra te dar, me resta pedir a Deus que te deixe feliz aí. Aprendi com você a acreditar em Deus, a ser cristã. E é nisso que os cristãos acreditam: que a vida não acaba. Então... que a sua vida aí esteja boa, mainha. Que o seu lugar esteja confortável, limpo, arejado, iluminado e em paz. Que estejas bem acompanhada, com os seus que te precederam, principalmente minha vó. Me angustia não saber ao certo como é aí, mas imagino que tenha todos os anjos e santos, Nossa Senhora e Jesus Cristo. Só me resta pedir daqui, do cume de minha ignorância e pequenez, do profundo de minha dor e saudade, que todas as luzes celestiais estejam te iluminando. Que estejas vivendo a plenitude da graça e a felicidade que tantas vezes te foi negada do lado de cá.
Sempre te amei, vou te amar até sempre.
"Que no próximo ano eu esteja aqui para que vocês possam fazer o mesmo", era uma das coisas que você pronunciava quando te abraçávamos, eu e os meninos. No ano de 2010, quando passamos pela maior das provas, com sua saúde ameaçada, essa frase portava doses redobradas de fé e esperança. Torcemos, oramos, choramos, clamamos que aquela nuvem carregada passasse e a calmaria voltasse. Os anos que sucederam 2010 foram anos de vitória. Seus cabelos, cujos fios haviam caído por completo, voltaram a crescer. E numa beleza e vigor que traduziam a sua força e vontade de continuar vivendo, apesar de todos os apesares. É, a vida sempre te foi hostil, mas você sempre levantava e sorria. Uma guerreira, com todas as letras.
A minha prece a Deus de todos os dias era que você tivesse paz. Que a sua saúde estivesse bem, que todo o mal se afastasse da sua vida. Que as causas de preocupação cessassem, que eu tivesse você sorrindo ao meu lado por anos a fio. Forte, bonita e elegante, como eu te dizia, e você ria achando que eu estava sendo bondosa. Não, eu estava sendo sincera. Eras a mais linda das filhas de minha avó. (Que me perdoem minhas tias, todas muito amadas). Eram sinceras as minhas reclamações por não ter herdado o seu cabelo longo, cheio e macio, as suas unhas fortes e bem torneadas, sua sobrancelha feita por natureza. Eu, como única filha, deveria tê-los recebido por direito!
Pois bem, os muitos e muitos anos que eu pedi a Deus que tivesse ao seu lado... não vieram. Não sei por que. Não que eu me considere digna de todas as graças, merecedora de que meus pedidos sejam sempre atendidos. Quem sou eu!... Mas a gente é assim mesmo... não sabe de nada. E nesse primeiro dia das mães em que eu vou sair do meu quarto e você não vai estar lá dentro para eu abraçar, estou aqui escutando a chuva cair forte no telhado e escrevendo estas linhas. A chuva, sempre a chuva...
Agora que eu não posso mais comprar um presente pra te dar, me resta pedir a Deus que te deixe feliz aí. Aprendi com você a acreditar em Deus, a ser cristã. E é nisso que os cristãos acreditam: que a vida não acaba. Então... que a sua vida aí esteja boa, mainha. Que o seu lugar esteja confortável, limpo, arejado, iluminado e em paz. Que estejas bem acompanhada, com os seus que te precederam, principalmente minha vó. Me angustia não saber ao certo como é aí, mas imagino que tenha todos os anjos e santos, Nossa Senhora e Jesus Cristo. Só me resta pedir daqui, do cume de minha ignorância e pequenez, do profundo de minha dor e saudade, que todas as luzes celestiais estejam te iluminando. Que estejas vivendo a plenitude da graça e a felicidade que tantas vezes te foi negada do lado de cá.
Sempre te amei, vou te amar até sempre.
domingo, maio 3
domingo, abril 26
Elegia 4
Quando sua mão se soltou das minhas, as minhas ficaram vazias.
Desajeitadas, tateiam o vácuo,
tentando acertar maneiras de tecer os dias.
Reconstruir na memória teu jeito, sempre tão certo, de compor a matéria da vida é minha missão diária.
Lição dorida...
(210 dias).
quarta-feira, abril 22
De um acaso
O caso é que o acaso às vezes não dá conta do recado
e fica a deixa de pensar que foi simples, mero acaso.
Tudo que eu queria era o acorde perfeito, maior,
mas como custa acreditar que possa haver harmonia em tanto descompasso.
e fica a deixa de pensar que foi simples, mero acaso.
Tudo que eu queria era o acorde perfeito, maior,
mas como custa acreditar que possa haver harmonia em tanto descompasso.
quinta-feira, abril 16
Elegia 3
"É preciso ser valente para entender um Deus
que nos leva de repente a mesma vida que deu
que plantou essa semente e com a própria mão colheu
É preciso ser valente pra aceitar sua vontade
mesmo quando dói na gente, rouba a nossa mocidade
ontem estava aqui presente, hoje já virou saudade"
...
(200 dias).
que nos leva de repente a mesma vida que deu
que plantou essa semente e com a própria mão colheu
É preciso ser valente pra aceitar sua vontade
mesmo quando dói na gente, rouba a nossa mocidade
ontem estava aqui presente, hoje já virou saudade"
...
(200 dias).
domingo, abril 12
Texto de Nara Rúbia Ribeiro
Eu andava querendo dizer justamente essas coisas, mas uma certa Nara Rúbia Ribeiro, com cuja escrita tenho entrado em contato nos últimos dias (e que, assinale-se, tem dito coisas muito acertadas e de maneira muito feliz), escreveu antes de mim. Segue, na íntegra, o belíssimo pensamento da autora. Me representa.
A arte do desapego
Muitos vivenciam o amor como um rasgo a que a alma se submete intencionalmente para exigir que a mão do amado a costure. O problema é que a mão do outro nem sempre está disponível para esse trabalho: a alma sangra, dói, e os rasgos se expandem… A dor, quando bem resolvida, pode ser um prenúncio de beleza. Mas, para que o belo de fato advenha, é preciso viver a dor, senti-la, tocá-la, integrar-se a ela, e transmutá-la, sabedores de que o vivenciar a dor também é parte do exercício de amor.
Já tive muitos castelos desmoronados na poeira dos dias. Quem não os teve? E a dor, nesse caso, é inevitável. Em nossa alma aprendiz, amar é desejar estar ao lado do outro, dentro do outro. É querer ser o outro sem sair de si mesmo. É construir uma redoma de sonho e ali inserir o amado, sob a eterna e vigilante proteção dos nossos olhos. E queremos que o outro caiba exatamente no nosso sonho e viva o nosso projeto de existência. Que ele esteja no cenário que construímos e encene o papel que lhe escrevemos.
E, num repente, algum novo vento nos sopra e mostra que o outro não é exatamente o aquele a quem julgamos amar. Percebemos que ele tem segredos e mistérios maiores que pensávamos e ficamos perplexos ao perceber que ele tem caminhos traçados e que quer percorrê-los, muitas vezes, sem nós. Perdemos a voz ao saber que a alma do outro é hóspede e hospedeira de outras almas. E as nossas pernas tremem ao constatar que a redoma era ilusão. Que todo o castelo de amor era ilusório. E a dor chega e castiga e fustiga a alma com cem mil acusações.
O que nos sangra, num momento como esse, é a obrigação de desamar. Mas será que isso existe? Os poetas, há muito, já apregoaram que o amor é sempre “para sempre”. Questionaremos as verdades poéticas? Banalizaremos o amor? Faremos dele um bibelô barato e quebrável destinado a adornar, por breves dias, as estantes da nossa alma?
Ocorre que somos ainda aprendizes da arte do eterno. O amor não reside senão no desejo da plenitude do outro. Ele não se esmera a não ser no respeito ao outro. Ele não pulsa a não ser para o querer o bem e sonha que o outro, pássaro livre em perfeição de voo, possa vislumbrar, dos cumes de si mesmo, os mais belos sentimentos e paisagens da terra.
E assim, quando o outro não mais deseja estar ao nosso lado, isso nos fere e sangra, mas o que nos massacra não é o outro. É desejo egoístico de aprisionar um espírito que também, assim como nós, tem sede de infinitos.
Tenho comigo que o que mais dói é a obrigatoriedade que nos impomos, quando o castelo desmorona, de desamar o outro. E embora talvez não o tenhamos amado de fato, fizemos um esboço de amor e é desorientador apagá-lo. Desamar é doloroso demais, porque o desfazimento do amor é contrário à nossa natureza etérea, espiritual, eterna.
Devemos, sim, exercitar o desapego; não o desamor. Desejar a liberdade, a integralidade, a plenitude do outro. Compreender que o que dói não é o amor não correspondido, mas a quebra das correntes (talvez até de ouro) com que tentávamos prender alguém. Apenas quando soubermos apreciar com encantamento a liberdade, seja ela nossa ou de um ser amado, teremos conhecido a face invisível e invencível de um amor verdadeiro.
E a alma, outrora rasgada, fará das cicatrizes uma arte emoldurada e rebordada de vida, na certeza de que toda a dor, bem lá no fundo, labora a nosso favor.
Goiânia, 01 de fevereiro e 2015.
A arte do desapego
Muitos vivenciam o amor como um rasgo a que a alma se submete intencionalmente para exigir que a mão do amado a costure. O problema é que a mão do outro nem sempre está disponível para esse trabalho: a alma sangra, dói, e os rasgos se expandem… A dor, quando bem resolvida, pode ser um prenúncio de beleza. Mas, para que o belo de fato advenha, é preciso viver a dor, senti-la, tocá-la, integrar-se a ela, e transmutá-la, sabedores de que o vivenciar a dor também é parte do exercício de amor.
Já tive muitos castelos desmoronados na poeira dos dias. Quem não os teve? E a dor, nesse caso, é inevitável. Em nossa alma aprendiz, amar é desejar estar ao lado do outro, dentro do outro. É querer ser o outro sem sair de si mesmo. É construir uma redoma de sonho e ali inserir o amado, sob a eterna e vigilante proteção dos nossos olhos. E queremos que o outro caiba exatamente no nosso sonho e viva o nosso projeto de existência. Que ele esteja no cenário que construímos e encene o papel que lhe escrevemos.
E, num repente, algum novo vento nos sopra e mostra que o outro não é exatamente o aquele a quem julgamos amar. Percebemos que ele tem segredos e mistérios maiores que pensávamos e ficamos perplexos ao perceber que ele tem caminhos traçados e que quer percorrê-los, muitas vezes, sem nós. Perdemos a voz ao saber que a alma do outro é hóspede e hospedeira de outras almas. E as nossas pernas tremem ao constatar que a redoma era ilusão. Que todo o castelo de amor era ilusório. E a dor chega e castiga e fustiga a alma com cem mil acusações.
O que nos sangra, num momento como esse, é a obrigação de desamar. Mas será que isso existe? Os poetas, há muito, já apregoaram que o amor é sempre “para sempre”. Questionaremos as verdades poéticas? Banalizaremos o amor? Faremos dele um bibelô barato e quebrável destinado a adornar, por breves dias, as estantes da nossa alma?
Ocorre que somos ainda aprendizes da arte do eterno. O amor não reside senão no desejo da plenitude do outro. Ele não se esmera a não ser no respeito ao outro. Ele não pulsa a não ser para o querer o bem e sonha que o outro, pássaro livre em perfeição de voo, possa vislumbrar, dos cumes de si mesmo, os mais belos sentimentos e paisagens da terra.
E assim, quando o outro não mais deseja estar ao nosso lado, isso nos fere e sangra, mas o que nos massacra não é o outro. É desejo egoístico de aprisionar um espírito que também, assim como nós, tem sede de infinitos.
Tenho comigo que o que mais dói é a obrigatoriedade que nos impomos, quando o castelo desmorona, de desamar o outro. E embora talvez não o tenhamos amado de fato, fizemos um esboço de amor e é desorientador apagá-lo. Desamar é doloroso demais, porque o desfazimento do amor é contrário à nossa natureza etérea, espiritual, eterna.
Devemos, sim, exercitar o desapego; não o desamor. Desejar a liberdade, a integralidade, a plenitude do outro. Compreender que o que dói não é o amor não correspondido, mas a quebra das correntes (talvez até de ouro) com que tentávamos prender alguém. Apenas quando soubermos apreciar com encantamento a liberdade, seja ela nossa ou de um ser amado, teremos conhecido a face invisível e invencível de um amor verdadeiro.
E a alma, outrora rasgada, fará das cicatrizes uma arte emoldurada e rebordada de vida, na certeza de que toda a dor, bem lá no fundo, labora a nosso favor.
Goiânia, 01 de fevereiro e 2015.
quarta-feira, abril 1
Do amor e outras farsas
Hoje é primeiro de abril, mas não é (simplesmente) por isso que vou escrever este texto. Na verdade essa ideia já anda me cutucando há alguns dias...
Observando alguns fatos e algumas histórias ao meu redor, estive refletindo com meus botões... acho que nunca se amou tanto como se ama hoje. Acho também que o amor nunca foi semente tão fácil de brotar nos corações das pessoas de todas as idades e cabeças. E se ama tanto e tão intensamente, que, de repente, todos adquirem aura de poeta. E a vida se cobre de um imenso esplendor, pois o encontro com aquele ser, agora amado, foi a coisa mais iluminada que poderia ter acontecido na vida do amante. Não importa que ambos estejam no começo da vida, no despontar da juventude, é certo que o amor vai durar para sempre. Como nos velhos e bons contos de fadas. (Só que não).
Se tem um elemento que contribuiu enormemente para o crescimento dessa "cultura do amor", é a popularização das redes sociais. Se antes se amava assim, amava-se em particular, hoje ama-se para o grande público. E, desconfio eu, ama-se em função do público. Por isso é tão comum desfilarem escarlates e mui graciosas as declarações do mais puro e sincero amor, juras de afeição eterna, fotos de felicidades com legendas de citações filosóficas e trechos de Buarque, Jobim ou quem mais que cante o amor e suas belezuras. Há os que, por algum motivo, preferem a discrição, optam por esconder-se por detrás destes últimos, não revelando, a priori, rostos nem nomes. Mas eu cá fico me perguntando... as sementes do amor baratearam mesmo ou estão comprando gato por lebre? O amor virou fenômeno endêmico ou passaram a chamar pelo nome dele a outras sensações e sintomas?
Não vou negar que vejo certa graça nesse movimento febril de ver todas as pessoas amando e sendo amadas. Mas uma pulga por detrás de minha orelha direita faz-me pensar que muito do que se vê não passa de mera... invenção. Isso mesmo! É compreensível, diante de tamanhas revoluções acontecendo em ritmo frenético que os indivíduos desejem preencher as lacunas dos seus dias com emoções. Tudo anda tão modernizado, digitalizado, facilitado, robotizado, que as pessoas sentem falta de sentir. E aí, sem saber, começam a brincar de sentir.
Que crianças hoje em dia brincam na rua de baleado, sete pedrinhas, pular corda, elástico, fita, melancia, chicotinho queimado ou organizam aniversário de boneca? (No meu caso eu poderia citar também aniversário de coelhos. Tive uma coelha cinza de nome extravagante, Hanna Shara, cujo aniversário de um ano foi festejado com bolo, bolas e um discreto painel onde continha seu nome com letras cortadas em papel camurça. Na comemoração, além das pessoas da casa, as crianças vizinhas). As adolescentes ainda reúnem-se para fazer cozinhados, fazerem rifa para comprarem o mais novo CD do artista preferido, depois para ouvir e cantar em alto e bom som as músicas novas do artista preferido? Já não se experimentam mais essas sensações. A infância já não tem gosto da poeira da rua nem o ar fresco dos banhos de chuva, muito menos o doce sabor da fruta tirada astuciosamente do pé. E a adolescência deixou de ser a transição entre a infância e a idade adulta: foi suprimida. Aos doze anos vive-se e ama-se como se já tivesse dezesseis. E aos dezessete então... imagina-se já se ter atingido o ápice da experiência e da sabedoria da vida!
Quanta ilusão!
Pois bem, tanto tornou-se fácil o amar, como rápido o desamar. E aí, como explicar o paradoxo? Fico só observando como as pessoas têm facilidade de encontrar o grande amor de suas vidas, e estupefata da capacidade de o encontrarem várias vezes na vida! Chego a sentir-me injustiçada, pequena, desmoralizada, inferior mesmo! Eu que já conto uma boa quantia de verões e duvido ter dado de cara com ele uma vez sequer!... Mas se era amor, devia acabar? Tá, tudo bem, acaba, o que é que não acaba nessa vida besta!? Mas... se era amor, devia acabar tão rápido? Acabar por qualquer motivo? Pior, devia acabar tantas vezes? Bem, diante disso, deixo de me sentir inferior... ora!
O amor, minha gente, o Amor... o amor não é uma cara bonita, ou uma boca que beija direito, ou um corpo bronzeado ou uma companhia permanente. O amor não é também simplesmente oferecer um ombro para que o outro chore. Ou ir juntos a festas, bares, cafés, praias, cinema, enterro e trabalho. Amor não é falar horas e horas ao telefone (muito menos em tempos em que as telefonias oferecem todas as facilidades para tal), ou trocar mensagens vinte e quatro horas ao dia de todos os dias da semana. Amor não é a necessidade de estar ligado ao outro depois de um certo tempo de relacionamento. (A maconha e a cachaça causam esse mesmo efeito). Também não é dar presentes em aniversários, natais e páscoas. E quem disse que a atração pelo diferente é amor? E que altíssima sabedoria afirmou que a relação amorosa há de ser necessariamente de complementariedade? Então aquela história bonita de Aristófanes era verdadeira? Somos todos metades errantes à procura da nossa outra metade perdida? E se a minha outra metade, na hora da dispersão, tiver ficado lá na Europa?
Não, minha gente, Amor não é nada disso isoladamente! Mas, taí a chave do segredo: se você acredita que essas coisas aí citadas são Amor, elas serão. Se você pensa, acredita e até jura que ama porque apresenta algum desses sintomas, feliz amor pra você! Sim, eu entendo, existe uma necessidade de sentir emoções fortes. É possível que a sua vida esteja muito corrida, muito repetitiva, muito previsível, que mal há em inventar uma paixão? Por qual outro motivo suas pernas vão tremer, sua voz vai embargar, você vai suar frio se não por estar na presença do amor de sua vida? (Assalto não vale, o assaltante não vai te beijar e acariciar depois e ainda vai te deixar puto da vida sem celular).
Teria outra razão pra explicar os surtos de amor espalhados por aí? Alguma outra hipótese justifica tantos corações espalhados nos ares, nas paredes, nas telas de pcs e celulares? Se houver, gostaria de conhecer. Por enquanto vou ficando com essa minha convicção. Engane-se quem quiser! Cá comigo vou continuar achando que Amor... é algo um pouco mais embaixo.
Observando alguns fatos e algumas histórias ao meu redor, estive refletindo com meus botões... acho que nunca se amou tanto como se ama hoje. Acho também que o amor nunca foi semente tão fácil de brotar nos corações das pessoas de todas as idades e cabeças. E se ama tanto e tão intensamente, que, de repente, todos adquirem aura de poeta. E a vida se cobre de um imenso esplendor, pois o encontro com aquele ser, agora amado, foi a coisa mais iluminada que poderia ter acontecido na vida do amante. Não importa que ambos estejam no começo da vida, no despontar da juventude, é certo que o amor vai durar para sempre. Como nos velhos e bons contos de fadas. (Só que não).
Se tem um elemento que contribuiu enormemente para o crescimento dessa "cultura do amor", é a popularização das redes sociais. Se antes se amava assim, amava-se em particular, hoje ama-se para o grande público. E, desconfio eu, ama-se em função do público. Por isso é tão comum desfilarem escarlates e mui graciosas as declarações do mais puro e sincero amor, juras de afeição eterna, fotos de felicidades com legendas de citações filosóficas e trechos de Buarque, Jobim ou quem mais que cante o amor e suas belezuras. Há os que, por algum motivo, preferem a discrição, optam por esconder-se por detrás destes últimos, não revelando, a priori, rostos nem nomes. Mas eu cá fico me perguntando... as sementes do amor baratearam mesmo ou estão comprando gato por lebre? O amor virou fenômeno endêmico ou passaram a chamar pelo nome dele a outras sensações e sintomas?
Não vou negar que vejo certa graça nesse movimento febril de ver todas as pessoas amando e sendo amadas. Mas uma pulga por detrás de minha orelha direita faz-me pensar que muito do que se vê não passa de mera... invenção. Isso mesmo! É compreensível, diante de tamanhas revoluções acontecendo em ritmo frenético que os indivíduos desejem preencher as lacunas dos seus dias com emoções. Tudo anda tão modernizado, digitalizado, facilitado, robotizado, que as pessoas sentem falta de sentir. E aí, sem saber, começam a brincar de sentir.
Que crianças hoje em dia brincam na rua de baleado, sete pedrinhas, pular corda, elástico, fita, melancia, chicotinho queimado ou organizam aniversário de boneca? (No meu caso eu poderia citar também aniversário de coelhos. Tive uma coelha cinza de nome extravagante, Hanna Shara, cujo aniversário de um ano foi festejado com bolo, bolas e um discreto painel onde continha seu nome com letras cortadas em papel camurça. Na comemoração, além das pessoas da casa, as crianças vizinhas). As adolescentes ainda reúnem-se para fazer cozinhados, fazerem rifa para comprarem o mais novo CD do artista preferido, depois para ouvir e cantar em alto e bom som as músicas novas do artista preferido? Já não se experimentam mais essas sensações. A infância já não tem gosto da poeira da rua nem o ar fresco dos banhos de chuva, muito menos o doce sabor da fruta tirada astuciosamente do pé. E a adolescência deixou de ser a transição entre a infância e a idade adulta: foi suprimida. Aos doze anos vive-se e ama-se como se já tivesse dezesseis. E aos dezessete então... imagina-se já se ter atingido o ápice da experiência e da sabedoria da vida!
Quanta ilusão!
Pois bem, tanto tornou-se fácil o amar, como rápido o desamar. E aí, como explicar o paradoxo? Fico só observando como as pessoas têm facilidade de encontrar o grande amor de suas vidas, e estupefata da capacidade de o encontrarem várias vezes na vida! Chego a sentir-me injustiçada, pequena, desmoralizada, inferior mesmo! Eu que já conto uma boa quantia de verões e duvido ter dado de cara com ele uma vez sequer!... Mas se era amor, devia acabar? Tá, tudo bem, acaba, o que é que não acaba nessa vida besta!? Mas... se era amor, devia acabar tão rápido? Acabar por qualquer motivo? Pior, devia acabar tantas vezes? Bem, diante disso, deixo de me sentir inferior... ora!
O amor, minha gente, o Amor... o amor não é uma cara bonita, ou uma boca que beija direito, ou um corpo bronzeado ou uma companhia permanente. O amor não é também simplesmente oferecer um ombro para que o outro chore. Ou ir juntos a festas, bares, cafés, praias, cinema, enterro e trabalho. Amor não é falar horas e horas ao telefone (muito menos em tempos em que as telefonias oferecem todas as facilidades para tal), ou trocar mensagens vinte e quatro horas ao dia de todos os dias da semana. Amor não é a necessidade de estar ligado ao outro depois de um certo tempo de relacionamento. (A maconha e a cachaça causam esse mesmo efeito). Também não é dar presentes em aniversários, natais e páscoas. E quem disse que a atração pelo diferente é amor? E que altíssima sabedoria afirmou que a relação amorosa há de ser necessariamente de complementariedade? Então aquela história bonita de Aristófanes era verdadeira? Somos todos metades errantes à procura da nossa outra metade perdida? E se a minha outra metade, na hora da dispersão, tiver ficado lá na Europa?
Não, minha gente, Amor não é nada disso isoladamente! Mas, taí a chave do segredo: se você acredita que essas coisas aí citadas são Amor, elas serão. Se você pensa, acredita e até jura que ama porque apresenta algum desses sintomas, feliz amor pra você! Sim, eu entendo, existe uma necessidade de sentir emoções fortes. É possível que a sua vida esteja muito corrida, muito repetitiva, muito previsível, que mal há em inventar uma paixão? Por qual outro motivo suas pernas vão tremer, sua voz vai embargar, você vai suar frio se não por estar na presença do amor de sua vida? (Assalto não vale, o assaltante não vai te beijar e acariciar depois e ainda vai te deixar puto da vida sem celular).
Teria outra razão pra explicar os surtos de amor espalhados por aí? Alguma outra hipótese justifica tantos corações espalhados nos ares, nas paredes, nas telas de pcs e celulares? Se houver, gostaria de conhecer. Por enquanto vou ficando com essa minha convicção. Engane-se quem quiser! Cá comigo vou continuar achando que Amor... é algo um pouco mais embaixo.
quinta-feira, março 26
Elegia 2
Já se passaram duas estações, mas a marca da mais avessa das primaveras continua real. Forte e presente como um ontem tornado eterno.
Desde então, as ações de abrir os olhos nos amanheceres e fechá-los para o sono noturno, são acompanhadas do mesmo pensamento: terno, dolorido, revoltoso, inquiridor ou puramente saudoso.
E estar bem é uma boca que diz, um rosto que sorri.
(180 dias).
Desde então, as ações de abrir os olhos nos amanheceres e fechá-los para o sono noturno, são acompanhadas do mesmo pensamento: terno, dolorido, revoltoso, inquiridor ou puramente saudoso.
E estar bem é uma boca que diz, um rosto que sorri.
(180 dias).
domingo, março 22
Da vocação
Lygia Fagundes Telles
Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o fervor mas uma certa dose de cólera: fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem muita ferida porque as pessoas estão bravas demais, até as mulheres que eram umas santas, lembram?
Costurar as feridas e amar os inimigos que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez chinês imprevisível?!... Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares, Não chores que a vida/ é luta renhida. Viver é lutar. Lutar com aquela expressão de criança que vai caçar borboleta, ah, como brilham os olhos de curiosidade. Sei que as borboletas andam raras mas se sairmos certos de que vamos encontrar alguma... O importante é a intensidade do empenho nessa busca e em outras. Falhando, não culpar Deus oh! por que Ele me abandonou? Nós é que O abandonamos quando ficamos mornos. Quando a vocação para a vida começa a empalidecer e também nós, os delicados, os esvaídos. Aceitar o desafio da arte. Da loucura. Romper com a falsa harmonia, com o falso equilíbrio e assim, depois da morte - ainda intensos - seremos um fantasminha luminoso.
Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o fervor mas uma certa dose de cólera: fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem muita ferida porque as pessoas estão bravas demais, até as mulheres que eram umas santas, lembram?
Costurar as feridas e amar os inimigos que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez chinês imprevisível?!... Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares, Não chores que a vida/ é luta renhida. Viver é lutar. Lutar com aquela expressão de criança que vai caçar borboleta, ah, como brilham os olhos de curiosidade. Sei que as borboletas andam raras mas se sairmos certos de que vamos encontrar alguma... O importante é a intensidade do empenho nessa busca e em outras. Falhando, não culpar Deus oh! por que Ele me abandonou? Nós é que O abandonamos quando ficamos mornos. Quando a vocação para a vida começa a empalidecer e também nós, os delicados, os esvaídos. Aceitar o desafio da arte. Da loucura. Romper com a falsa harmonia, com o falso equilíbrio e assim, depois da morte - ainda intensos - seremos um fantasminha luminoso.
quarta-feira, março 18
Pra você, Lenna!
Qual será o critério que a vida utiliza para escolher as pessoas que vão estar do nosso lado nas aventuras mais marcantes, mais significativas, mais inesquecíveis...? Morar numa residência universitária é um experiência inenarrável (para usar um termo bem ao seu gosto). E se engana quem imagina que morar assim é simplesmente compartilhar o mesmo teto. Muito mais que isso, vivemos o desafio contínuo de dividir os poucos quilômetros quadrados de chão, olhar o lado de fora pela mesma janela, adiantar o banho pra dar lugar à outra que vai se atrasar, misturar os calçados e os centavos, emprestar o travesseiro e o ombro, escutar os risos e os soluços, comer na mesma panela de brigadeiro. Quando se vive assim tem-se mais que amizade. A vida em comum cria entre nós uma irmandade. Porque no meio tempo em que estamos cada uma de nós envolvidas com os livros, saberes e sabores dos nossos respectivos cursos, a todo o tempo estamos participando da vida uma da outra. E nos ajudando na busca da cura para as dores de barriga e para as dores de amor.
E como esquecer, Lenamíria, daquele seu despertador que despertava todo mundo menos você... ou do dia em que você resolveu ligar para todos os seus contatos enquanto trovejava forte e eu estremecia debaixo do lençol no canto do alto daquela cama... E pensa que é só isso? O que você me diz de acordar num sábado, na tranquilidade de sua casa, atender o telefone e ouvir a voz do outro lado noticiar que havia ocorrido um incêndio na residência. Sim, um incêndio! parece que não havia vítimas mas os danos materiais foram notáveis. Fiquei assustada! Sobressaltada, tentava fazer todas as perguntas ao mesmo tempo, quando você ri seu riso largo e confessa com toda a naturalidade do mundo: "foi mentira besta, só liguei pra falar com você"...
Mas nenhuma dessas astúcias se compara ao acontecido mais recente. Sabe o que é ouvir de uma amiga que ela está grávida? Nossa! Borboletas fizeram festa no meu estômago com essa notícia tão feliz. Mas Lenna não estava contente com a novidade... Segredou-me, no dia seguinte ao da revelação, que estava a providenciar o aborto. Desesperada quem ficou fui eu com essa possibilidade fatídica. Teria sido rejeitada pelo pai? Havia acontecido algo que ela não quis contar? Era preciso fazer algo para impedir, não seria justo! E juntei-me a Juli para conversarmos com o pai do bebê. Caberia a ele impedir aquela ação. Assim o fizemos. Mas o pai nem sabia da história do bebê. Ate porque o bebê que tanto me alegrou era só mais uma história fictícia...
É, Lenna, são tantas as histórias... Não caberiam num só post. E como toda relação de família, não são só capítulos felizes, provas de amizade e companheirismo. Como toda boa irmandade, birras, desavenças, contrariedades permearam e permeiam a nossa união. Até hoje fico meio triste quando vejo que você não está na minha foto de formatura. Por quê?... Mas tem nada não. Passados cinco anos, você estava na minha defesa de Mestrado! E como você me ajudou naquele dia, viu!...
Pois, o que verdadeiramente importa, é que continuamos nos querendo bem. E quando você some eu pergunto onde você estava, e quando eu não apareço você pergunta se estou bem. Importa mesmo é saber que, embora não mais dividindo o mesmo teto, continuamos participando das dores e delícias de nossas trajetórias. Saiba que estou aqui para vibrar pelas suas conquistas. E que quero sim estar no churrasco na piscina da sua casa, saber do seu novo amor, da sua promoção no emprego, seu carro, seu filho, suas viagens... Que a vida lhe dê muitos motivos para celebrar. Mas se ela não der tantos assim, crie-os! Feliz é quem tem coragem de ser assim.
sexta-feira, março 13
Vó: 10 anos
Meu primeiro contato direto com a morte foi há exatos dez anos, quando partiu a única avó que conheci.
Minha relação com vó era terna, como são os amores dos netos para com seus avós. Lembro-me que, bem pequena, todas as vezes que ia visitá-la com minha mãe eu levava um bombom. Eu, louca por doces desde que me sei, achava que aquela era a forma mais simples de deixar alguém feliz. A casa de minha avó tinha um quintal grande, com várias árvores. Quando a primarada estava reunida, nos divertíamos muito brincando no quintal. Mas eu sempre fui meio grande. Às vezes não participava das brincadeiras com as outras crianças para ajudar minha vó em alguma tarefa. Eu varria, lavava a louça, limpava o fogão, ajudava a fazer geladinho, arrumava o forro do sofá, pegava roupas do varal, dobrava-as... Acho que eu era a única das netas pequenas que se prestava a essas tarefas. Devo ter aprendido com mainha. Quando mainha chegava lá ia logo ajudar minha avó, principalmente nas tarefas mais pesadas. Só depois sentava para conversarem. Eu também gostava de pentear o cabelo de vó e de passar perfume no seu pescoço, quando ela tomava banho e sentava na sua cadeira em frente à televisão. Ela ria com meus gestos e agradecia. Eu não chamava vó de vó. Não sei por que motivo, eu e alguns outros primos nos habituamos a chamá-la somente pelo seu apelido: Lalu. Vó criava galinhas. Ela certamente gostava delas, mas não era essa a sensação que eu tinha. Vó vivia reclamando da ousadia das galinhas em querer invadir a casa, além de outras chateações que os bichos domésticos causam. Às vezes me incomodava o fato de aquelas galinhas serem tão chateadeiras e fazerem minha avó resmungar tanto, e eu aconselhava que ela não as quisesse mais. Mas ela sempre sorria e dizia que não. Eu entendi então que havia algum tipo de necessidade naquela relação conturbada.
Quando minha avó ficou doente, surgiu um impasse: alguns dos filhos achavam que ela deveria ser levada para Salvador, para ser internada e receber os devidos cuidados num hospital. Eu sabia que vó não queria ir. Eu ouvia, quando ela conversava com mainha, qual era opinião dela sobre hospitais. Mas ela sentia dores, e os remédios que estavam sendo administrados só funcionavam um pouquinho. Depois a dor voltava. Prepararam então tudo para levá-la. Eu nunca vou esquecer o olhar de minha avó, sentada em sua cadeira no quintal, no dia em que a levaram para o hospital. Naquele dia a casa ficou cheia de filhos e netos. Minha mãe auxiliou-a no banho, como estava sendo desde que vó começou a ficar frágil. Eu estava triste, porque sabia que ela não queria ir. Antes de sair, minha avó me chamou duas vezes. A casa estava cheia, mas ela pediu a mim dois favores: que a ajudasse a enxugar os pés, antes de calçar a sandália que usaria na viagem, e que pegasse no seu guarda-roupa um lencinho. Explicou-me minuciosamente onde estava guardado o lencinho, como um segredo.
O olhar que ela lançou à casa, já de dentro do carro, na hora de sair, foi igual ao olhar que eu havia notado horas antes, quando ela estava no quintal. Nós nos despedimos acenando e sorrindo, para que ela ficasse alegre. Observei que minha mãe ficou triste. Ela saiu do meio do grupo logo que o carro deu a partida. Estava arrepiada, e me parece que escondeu uma lágrima.
Não durou nem uma semana, recebemos a notícia de que vó havia partido. A cena do momento em que eu e minha mãe fomos avisadas da morte de vó ficou gravada em minha memória de tal forma, que eu não consigo lembrar sem que as lágrimas me voltem à face. Mainha sofreu muito a morte de vó. E eu sofri de dois jeitos: perder aquele elo único com a ascendência de meus pais; e testemunhar a dor de minha mãe por ver partir o seu porto seguro. Sim, mainha tinha esposo, filhos, irmãos, irmãs, amigas, tios e tias. Mas quando ela estava muito triste ou muito chateada ou muito preocupada, ela gostava de conversar era com vó. E depois que vó morreu, quando ela ficava muito triste, muito chateada ou muito preocupada, ela chorava, porque não tinha mais vó para conversar. Muitas vezes eu chorei escondido ao escutá-la dizer que estava sentindo "falta de mamãe". Eu imaginava que devia ser muito doloroso aquele sentimento...
Eu quero crer veementemente que mãe agora está perto de vó. Como eu queria que as duas estivessem perto de mim... A lacuna na minha vida é impreenchível! Mas, se mãe tiver perto de vó, eu vou me alegrar de um jeito: mãe tá feliz. E vó também. E o meu grande sonho, hoje, é um dia poder voltar a estar junto das duas.
Mulheres da minha vida, desejo que estejam bem! Digam a Deus do meu sonho de ir para perto de vocês... E me esperem.
quarta-feira, março 11
Escrevi um poema
Lygia Fagundes Telles
O menino de cara inchada entra na sala de espera e corre choramingando até a enfermeira, não está aguentando de dor, quer que o dentista arranque imediatamente esse miserável. A enfermeira faz uma expressão compungida e pergunta se não me importo de ceder minha hora para o menino. Com todo o prazer - respondo e saio para a rua. Estou leve, inspirada. Nenhum sentimento de culpa. Vou andando e pensando debaixo do sol. Dentes demais. Nervos demais. Num sistema dental assim complexo tem que haver mesmo os inconformados, os dissidentes. Mas a maioria ficou firme, fiel ao regime, até me comovo com tamanha disciplina. E este sol e este ar fino! Escrevo um poema no cartão da hora cancelada: Estou viva./Lúcida./E tirante os dissidentes/os dentes são meus.
O menino de cara inchada entra na sala de espera e corre choramingando até a enfermeira, não está aguentando de dor, quer que o dentista arranque imediatamente esse miserável. A enfermeira faz uma expressão compungida e pergunta se não me importo de ceder minha hora para o menino. Com todo o prazer - respondo e saio para a rua. Estou leve, inspirada. Nenhum sentimento de culpa. Vou andando e pensando debaixo do sol. Dentes demais. Nervos demais. Num sistema dental assim complexo tem que haver mesmo os inconformados, os dissidentes. Mas a maioria ficou firme, fiel ao regime, até me comovo com tamanha disciplina. E este sol e este ar fino! Escrevo um poema no cartão da hora cancelada: Estou viva./Lúcida./E tirante os dissidentes/os dentes são meus.
terça-feira, março 10
segunda-feira, março 9
Rosto 1
E ela percebeu também que havia situações em que o rosto assumia uma forma tão incisiva que a máscara não conseguia adequar-se a ele perfeitamente: a forma do rosto comprometia a moldura da máscara. Nesses instantes, era preciso muito esforço para continuar não sendo.
domingo, março 8
Rosto
Num dia qualquer, ela decidiu comprar uma máscara de alegria. Escolheu uma bem parecida com a sua cara de antes, de modo que aparentasse o mais possível com um rosto real. Vestiu-a e saiu. Foi um sucesso. Todos a cumprimentaram igualmente alegres. E, o mais importante, ninguém notou o artifício. Passaria então a usá-la diariamente. Estava resolvido seu impasse com o mundo lá fora. Contudo, a máscara lhe incomodava, deveras. Não conseguia mantê-la enquanto estava fora da vista do público: o artifício lhe caía aos pés bastava que estivesse só consigo mesma. E a verdade da vida lhe fazia de novo chover.
domingo, março 1
O benfeitor
Ela estava sentada à beira da linha do trem chorando copiosamente. Não sabia como viveria seus dias com aquela mutilação. Perdera o braço direito num acidente terrível! Antes houvesse perdido a vida, pensava no silencioso abismo de sua solidão. Estava desconsolada e só.
Foi ali, diante da linha do trem, que o benfeitor a viu. Não lhe parecera que a moça estivesse cogitando o suicídio. Apesar da visível desesperança, audível a metros de distância pelos seus soluços cortantes, trazia o rosto sereno. O benfeitor se aproximou da moça oferecendo ajuda. Ela levantou o olhar desconfiado para mirá-lo. O seu aspecto pareceu à moça o de um homem sensato. Olhando distraidamente, até tinha um ar angelical. A moça resistiu até onde teve forças (que não eram tantas) antes de aceitar o auxílio do benfeitor. E ele cuidou dela com muito zelo. Por vezes, sentia que, nele, estava sendo restituído o braço direito que, desafortunadamente, perdera.
Certo dia, quando já se havia apagado todo e qualquer resquício de desconfiança do espírito da moça e ela dormia tranquilamente no regaço que ele amorosamente preparara, o benfeitor aproximou-se, silencioso. Olhou-a, sorriu e, resoluto, de um só golpe, decepou-lhe a mão esquerda.
Foi ali, diante da linha do trem, que o benfeitor a viu. Não lhe parecera que a moça estivesse cogitando o suicídio. Apesar da visível desesperança, audível a metros de distância pelos seus soluços cortantes, trazia o rosto sereno. O benfeitor se aproximou da moça oferecendo ajuda. Ela levantou o olhar desconfiado para mirá-lo. O seu aspecto pareceu à moça o de um homem sensato. Olhando distraidamente, até tinha um ar angelical. A moça resistiu até onde teve forças (que não eram tantas) antes de aceitar o auxílio do benfeitor. E ele cuidou dela com muito zelo. Por vezes, sentia que, nele, estava sendo restituído o braço direito que, desafortunadamente, perdera.
Certo dia, quando já se havia apagado todo e qualquer resquício de desconfiança do espírito da moça e ela dormia tranquilamente no regaço que ele amorosamente preparara, o benfeitor aproximou-se, silencioso. Olhou-a, sorriu e, resoluto, de um só golpe, decepou-lhe a mão esquerda.
quinta-feira, fevereiro 26
Elegia 1
Lembro-me de quando querias falar-me de coisas referentes à sua partida... Eu nunca quis dar ouvidos. Achava aquilo uma bobagem. Estaria tão distante isso! Coisa mais sem razão falar de morte! Mas mesmo sem querer, acabava ouvindo um ou outro comentário...
Custa-me ainda acreditar que partistes. Custa-me entender que sua ida devesse ser tão cedo. Sem que ao menos pudésseis embranquecer-lhe os cabelos ou surgir-lhe as mais visíveis marcas do tempo. Sem que ao menos vísseis os frutos dos teus frutos; sem que os ouvísseis doce e ternamente chamá-la de "vó"...
Inútil repetir minha incapacidade de compreender...
(150 dias)
Custa-me ainda acreditar que partistes. Custa-me entender que sua ida devesse ser tão cedo. Sem que ao menos pudésseis embranquecer-lhe os cabelos ou surgir-lhe as mais visíveis marcas do tempo. Sem que ao menos vísseis os frutos dos teus frutos; sem que os ouvísseis doce e ternamente chamá-la de "vó"...
Inútil repetir minha incapacidade de compreender...
(150 dias)
segunda-feira, fevereiro 23
23 de fevereiro
Foi no dia 23 de fevereiro de 1980 que, perante Deus e a sociedade, minha mãe e meu pai disseram Sim ao projeto de compartilharem o espaço, o tempo, os amores e as dores. Graças a essa decisão, eu sou.
Eu já havia programado, no plano imaginário, uma comemoração especial para esses 35 anos de histórias, lutas, gostos, desgostos, benquerenças e malmequeres. Algo discreto, familiar, eles não gostam de alvoroço. No entanto, o correr da vida desenredou minha narrativa...
Quero dizer que... valeu muito a pena ter vindo ao mundo para morar com vocês. Eu não queria mesmo ter ido para outra casa, ter chorado em outros braços, ter aprendido outras coisas. Foi um enorme prazer aprender a ler o livro da vida através dos olhos, sorrisos e lágrimas, mãos, suor e afago de vocês... papis e mamis.
Sem mais.
Eu já havia programado, no plano imaginário, uma comemoração especial para esses 35 anos de histórias, lutas, gostos, desgostos, benquerenças e malmequeres. Algo discreto, familiar, eles não gostam de alvoroço. No entanto, o correr da vida desenredou minha narrativa...
Quero dizer que... valeu muito a pena ter vindo ao mundo para morar com vocês. Eu não queria mesmo ter ido para outra casa, ter chorado em outros braços, ter aprendido outras coisas. Foi um enorme prazer aprender a ler o livro da vida através dos olhos, sorrisos e lágrimas, mãos, suor e afago de vocês... papis e mamis.
Sem mais.
sábado, fevereiro 14
Palavras, tamanhos e cores
À medida que crescemos e vamos descobrindo as diferentes faces da existência, algumas palavras vão mudando de significado no nosso dicionário.
Algumas se ampliam, ganham adornos e cores. Outras se estreitam, murcham, ficam cabisbaixas. Posso citar dois exemplos, um de distensão e um de encolhimento.
A palavra FELICIDADE. Antes era uma coisa grande, esplendorosa e colorida como cauda de pavão. Mas muito maior que a cauda do pavão! Era algo gigantesco, comparado a grandes montanhas, só que com asas, mobilidade, quase dançante. Agora, esse sentido encolheu. Felicidade se tornou coisa bem menos encantada. Também não é mais algo que se vá encontrar amanhã ou daqui a algumas horas ou quando conseguir realizar aquele sonho. Ela não é algo que se possa encontrar, ou que alguém possa trazer de presente, ou que a vida tenha que, por lei, legar a mim ou a você em algum momento da caminhada terrena. Felicidade pode nunca ser. Ou, consideram alguns mais otimistas (ou mais felizes. Ou, ainda, mais bem-aventurados), pode sempre ser. No final das contas, sempre cabe um quinhão de escolha do próprio sujeito. Uma decisão pessoal.
Agora, uma palavra que cresceu foi a palavra VIDA. A gente fala VIDA assim corriqueiramente, mas raramente se para, em algum momento, para refletir o que ela é. E, nesse aspecto, é inevitável refletir sobre vida sem que se lhe oponha à ideia de morte.
Pode parecer um raciocínio clichê (e é) afirmar que só se compreende o valor da vida quando se está diante do seu oposto. Uma pessoa que bebe e vai dirigir, por exemplo, ou que não usa o capacete na motocicleta tem uma noção bem diversa de vida que aquela que luta para curar uma doença. Que se submete a tratamentos rígidos e até dolorosos, usa medicamentos regularmente, abre mão de hábitos prazerosos, alimentares ou quaisquer outros, em vista de melhorias no estado clínico... Os primeiros querem viver a vida a todo vapor. Querem emoção, adrenalina, curtir tudo o que há, mesmo sabendo que a aventura pode custar caro. Os segundos só querem as condições suficientes para passar mais um tempo do lado de cá. Se questionados, uns e outros certamente afirmarão que a vida é boa. E que não querem deixá-la. A diferença é que, para os primeiros, ela é um manancial inesgotável; para os segundos, apenas uma gota. No bar, no encontro de amigos, no carnaval, a vida é uma festa: ela canta e dança. Num leito de hospital, a vida é uma corda bamba: ela geme e chora.
Tão gritante é a dicotomia do significado dessa palavra nessas duas diferentes situações, e é tão tênue a linha que separa a vida da morte, que nunca mais pronunciei a palavra VIDA com a mesma naturalidade de antes. VIDA é estar e ser. Morte é deixar de estar e - ao mesmo na dimensão material - deixar de ser. A ideia de VIDA cresce exponencialmente quando se pensa quão fatal e definitiva é a morte.
Cresceu. Cresceu e se pintou de um cinza um tanto tenebroso, autoritário. Eu estou com Guimarães Rosa quando diz que viver é muito perigoso... Nada de cores e danças e confetes. A tinta, a dança e os confetes quem cria é você, sou eu, se estivermos dispostos para tal. Na crua realidade, a vida é tão terrível quanto a morte.
Para torná-la suportável, levemos lápis de cor.
Algumas se ampliam, ganham adornos e cores. Outras se estreitam, murcham, ficam cabisbaixas. Posso citar dois exemplos, um de distensão e um de encolhimento.
A palavra FELICIDADE. Antes era uma coisa grande, esplendorosa e colorida como cauda de pavão. Mas muito maior que a cauda do pavão! Era algo gigantesco, comparado a grandes montanhas, só que com asas, mobilidade, quase dançante. Agora, esse sentido encolheu. Felicidade se tornou coisa bem menos encantada. Também não é mais algo que se vá encontrar amanhã ou daqui a algumas horas ou quando conseguir realizar aquele sonho. Ela não é algo que se possa encontrar, ou que alguém possa trazer de presente, ou que a vida tenha que, por lei, legar a mim ou a você em algum momento da caminhada terrena. Felicidade pode nunca ser. Ou, consideram alguns mais otimistas (ou mais felizes. Ou, ainda, mais bem-aventurados), pode sempre ser. No final das contas, sempre cabe um quinhão de escolha do próprio sujeito. Uma decisão pessoal.
Agora, uma palavra que cresceu foi a palavra VIDA. A gente fala VIDA assim corriqueiramente, mas raramente se para, em algum momento, para refletir o que ela é. E, nesse aspecto, é inevitável refletir sobre vida sem que se lhe oponha à ideia de morte.
Pode parecer um raciocínio clichê (e é) afirmar que só se compreende o valor da vida quando se está diante do seu oposto. Uma pessoa que bebe e vai dirigir, por exemplo, ou que não usa o capacete na motocicleta tem uma noção bem diversa de vida que aquela que luta para curar uma doença. Que se submete a tratamentos rígidos e até dolorosos, usa medicamentos regularmente, abre mão de hábitos prazerosos, alimentares ou quaisquer outros, em vista de melhorias no estado clínico... Os primeiros querem viver a vida a todo vapor. Querem emoção, adrenalina, curtir tudo o que há, mesmo sabendo que a aventura pode custar caro. Os segundos só querem as condições suficientes para passar mais um tempo do lado de cá. Se questionados, uns e outros certamente afirmarão que a vida é boa. E que não querem deixá-la. A diferença é que, para os primeiros, ela é um manancial inesgotável; para os segundos, apenas uma gota. No bar, no encontro de amigos, no carnaval, a vida é uma festa: ela canta e dança. Num leito de hospital, a vida é uma corda bamba: ela geme e chora.
Tão gritante é a dicotomia do significado dessa palavra nessas duas diferentes situações, e é tão tênue a linha que separa a vida da morte, que nunca mais pronunciei a palavra VIDA com a mesma naturalidade de antes. VIDA é estar e ser. Morte é deixar de estar e - ao mesmo na dimensão material - deixar de ser. A ideia de VIDA cresce exponencialmente quando se pensa quão fatal e definitiva é a morte.
Cresceu. Cresceu e se pintou de um cinza um tanto tenebroso, autoritário. Eu estou com Guimarães Rosa quando diz que viver é muito perigoso... Nada de cores e danças e confetes. A tinta, a dança e os confetes quem cria é você, sou eu, se estivermos dispostos para tal. Na crua realidade, a vida é tão terrível quanto a morte.
Para torná-la suportável, levemos lápis de cor.
quinta-feira, fevereiro 12
terça-feira, fevereiro 10
Couraça
É preciso rasgar-se por dentro.
É preciso extirpar a pele que te reveste a carne, os ossos, as vísceras do sentir...
É preciso, em seguida, banhar-se no ácido da realidade nova,
a que te causa dor.
É preciso banhar-se na dor.
E permanecer de pé, doendo, até que venha nova pele.
Couraça.
É preciso extirpar a pele que te reveste a carne, os ossos, as vísceras do sentir...
É preciso, em seguida, banhar-se no ácido da realidade nova,
a que te causa dor.
É preciso banhar-se na dor.
E permanecer de pé, doendo, até que venha nova pele.
Couraça.
domingo, fevereiro 8
quinta-feira, fevereiro 5
Prazo de Vida
Cecília Meireles
No meio do mundo faz frio,
faz frio no meio do mundo,
muito frio.
Mandei armar o meu navio.
Volveremos ao mar profundo,
meu navio!
No meio das águas faz frio.
Faz frio no meio das águas,
muito frio.
Marinheiro serei sombrio,
por minha provisão de mágoas.
Tão sombrio!
No meio da vida faz frio,
faz frio no meio da vida.
Muito frio.
O universo ficou vazio,
porque a mão do amor foi partida
no vazio.
segunda-feira, fevereiro 2
Para Jell Cerqueira
É o que todos dizem, baby... é o que dizem...
Lei
Cecília Meireles
O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga
que leva os mortos.
O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.
O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa,
e os lábios de ouro puro.
O que é preciso é que a alma vá e venha;
e ouça a notícia do tempo,
e. entre os assombros da vida e da morte,
estenda suas diáfanas asas,
isenta por igual.
de desejo e de desespero.
Lei
Cecília Meireles
O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga
que leva os mortos.
O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.
O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa,
e os lábios de ouro puro.
O que é preciso é que a alma vá e venha;
e ouça a notícia do tempo,
e. entre os assombros da vida e da morte,
estenda suas diáfanas asas,
isenta por igual.
de desejo e de desespero.
domingo, fevereiro 1
De vez em quando...
Paixão
Adélia Prado
De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos, não é a bola
bonita caminhando
solta no espaço.
Adélia Prado
De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos, não é a bola
bonita caminhando
solta no espaço.
quarta-feira, janeiro 28
F5
"Quando já não tinha espaço pequena fui
Onde a vida me cabia apertada"...
Tava olhando aqui... Esse blog ta cada vez mais parecido com um diário. Mas então, caro hipotético leitor, você não tem nada que reclamar. Já viu o nome do blog? Pois é, então eu faço dele o que eu bem quiser e entender. Até porque, nos nossos tempos (ou quem sabe tenha sido assim em todos os tempos), poucas coisas são assim tão nossas de modo que a gente possa delas fazer o que bem quer e entende. Nem nossas próprias opiniões! Nem nosso cachorro! O meu mesmo odeia ser beijado e abraçado. Fui fazer isso uma vez e foi a única! Não, ele não chegou a morder-me, ele não é louco! E se tivesse mordido iria ficar nisso mesmo. Dois gritos de reclamação e eu que curasse o local lesionado com mertiolate. A propósito, ainda existe mertiolate? E será que é assim que fala? Que nada, isso foi remédio de quando eu era pequena, não deve existir mais. Não tô dizendo com isso que eu seja velha. Claro que não... Ainda estou na casa dos vinte!
Pois bem. Eu dizia que esse blog ta a cara de um diário. E essa postagem é pra fazer jus a isso.
Desde que resolvi apertar a tecla F5 em minha vida, instalou-se uma necessária desorganização interior. Na verdade, a desordem já estava instaurada. O ato de clicar o F5 só fez colocar as coisas todas em movimento, em tremendo reboliço. Aí, as ideias, os conceitos, as crenças, os valores, os hábitos, as pessoas...tudo está posto em julgamento. Algumas, certamente, irão permanecer. As que estiverem melhor alicerçadas. Mas muita coisa vai voar. Essa não é uma operação indolor. Não, não é. Para concretizá-la é necessário boas doses de desapego, coragem, determinação e desejo de mudança. Ativar F5 significa predispor-se a enfrentar as mudanças de enredo quando da alteração da importância das personagens. Sim, é um processo de redefinir prioridades. Sabe aquelas faxinas que você aproveita pra mudar os móveis de lugar? Tira o sofá desse lado, leva a mesa pro centro, prega a televisão no alto.. É assim. E isso causa muito barulho! Incomoda. Arranha o piso da casa. Mas depois, quase sempre fica a sensação de que ganhamos espaço. O sentimento de estreiteza acaba. Experimenta-se certo conforto, logo após o rearranjo das posições.
É o que ocorre com o nosso eu. É árdua e incômoda a tarefa de refazer-se. Machuca, fere, provoca dor... Tudo em nome da recusa ao lugar estreito. E que bom quando recusamos o lugar estreito; que bom quando não nos acostumamos com ele, projetando a falsa ilusão de que se pode viver ali, apesar do aperto. Quer que eu confesse uma coisa? A real é, se hoje um anjo viesse do céu me perguntar se eu preferiria morrer ou continuar vivendo, não tenho dúvidas de que escolheria deixar a matéria. Mas acontece que nenhum anjo veio nem virá me fazer essa pergunta. Logo, a única opção é ficar! Pois então, se é pra viver, vamos viver com classe! Nada de aceitar migalhas nem mendigar misérias nem engolir tudo que quiserem nos empurrar goela abaixo. Se viver é um imperativo, vamos também nós sermos exigentes! Vamos partir para o enfrentamento! Tá achando que é barato estar aqui? Não é não! Pois então... briguemos por espaço! E sejamos tão grandes quanto a amplitude do nosso lugar.
segunda-feira, janeiro 26
Elegia
A noite. Escuridão, silêncio. A voz, o salto, a pergunta:
A notícia, o desespero.
Mentira! O grito, o chão aberto.
A chaga aberta, a vida deserta, a interrogação.
Anestesia.
O lugar. O encontro, o corpo. Não! A pergunta, a ânsia, o sono. A mão, o rosto, o silêncio.
Uma vida ida, outra, erma.
(120 dias).
A notícia, o desespero.
Mentira! O grito, o chão aberto.
A chaga aberta, a vida deserta, a interrogação.
Anestesia.
O lugar. O encontro, o corpo. Não! A pergunta, a ânsia, o sono. A mão, o rosto, o silêncio.
Uma vida ida, outra, erma.
(120 dias).
domingo, janeiro 11
Versos íntimos
Bem, atender o pedido de Mel postando algo romântico foi até fácil. Agora, a ressalva de Jéssica de que deveria ser uma composição minha... aí já é meio impossível! Serve Augusto dos Anjos?
Rs.
Versos íntimos
Augusto dos Anjos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Rs.
Versos íntimos
Augusto dos Anjos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
sábado, janeiro 10
"Uma coisa romântica, por favor!"
Sim, há um tempo já fui romântica...
Uma amiga visitou meu blog e pediu, por favor, que eu faça uma postagem romântica...
Eu a entendo... Deve estar tudo super pesado por aqui. Mas fazer o quê... são as coisas que estão em mim..
Mas vamo lá. Voltando ao tempo em que fui romântica... Tem uma música que sempre que ouvia eu pensava: poxa...se um desavisado me oferece uma música dessa...eu caso com ele! É, na minha opinião, uma das mais lindas composições brasileiras.
Detalhe: nenhum desavisado nunca me dedicou essa canção... :(
(Melzinha... ei-la!)
Dia branco
Geraldo Azevedo
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Link para ouvir: http://letras.mus.br/geraldo-azevedo/46156/
Uma amiga visitou meu blog e pediu, por favor, que eu faça uma postagem romântica...
Eu a entendo... Deve estar tudo super pesado por aqui. Mas fazer o quê... são as coisas que estão em mim..
Mas vamo lá. Voltando ao tempo em que fui romântica... Tem uma música que sempre que ouvia eu pensava: poxa...se um desavisado me oferece uma música dessa...eu caso com ele! É, na minha opinião, uma das mais lindas composições brasileiras.
Detalhe: nenhum desavisado nunca me dedicou essa canção... :(
(Melzinha... ei-la!)
Dia branco
Geraldo Azevedo
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Link para ouvir: http://letras.mus.br/geraldo-azevedo/46156/
quarta-feira, janeiro 7
A rua dos cataventos
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Mário Quintana
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Mário Quintana
terça-feira, janeiro 6
Cem dias...
Sem o olhar,
sem a voz,
sem o sorriso,
sem o afeto,
sem o abraço,
sem o ombro,
sem o colo,
sem os passos,
sem os conselhos,
sem os segredos,
sem os beijos,
sem o consolo...
sem o amor que me deu vida.
Cem dias de solidão...
sem a voz,
sem o sorriso,
sem o afeto,
sem o abraço,
sem o ombro,
sem o colo,
sem os passos,
sem os conselhos,
sem os segredos,
sem os beijos,
sem o consolo...
sem o amor que me deu vida.
Cem dias de solidão...
quinta-feira, janeiro 1
2015... que meus pés suportem pisar
Navegante
De mim
exijam pouco...
Pois o tempo
que me resta
é louca busca
de como atravessar
O Sol...
Damário da Cruz
De mim
exijam pouco...
Pois o tempo
que me resta
é louca busca
de como atravessar
O Sol...
Damário da Cruz
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