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sábado, julho 11

Julho

Julho...
e como falam alto as lembranças!...
e como grita o silêncio!...

sábado, junho 27

Ame a tristeza (Mary Oliver)

Ame a tristeza
Ela é sua agora.
E você tem que tomar conta do que lhe foi dado
Escove o cabelo dela,
Ajude-a a vestir o casaquinho,
Pegue-a pela mão, especialmente ao atravessar a rua.
Pois pense só: e se você a perdesse?
Aí você mesma seria a tristeza
A cara fechada, a insônia dela seriam suas.
Cuide bem dela, toque-lhe a testa
Pra ela sentir que não está completamente sozinha.
E sorria, para ela não esquecer totalmente que há um mundo lá fora.
Tenha paciência de sobra
E nunca minta ou a deixe por um momento sequer sozinha,
Ou seja, de novo abandonada.
Ela é estranha, muda, difícil!
As vezes intratável.
Mas lembre-se, é uma criança!
Coisas incríveis podem acontecer, você vai ver,
Quando vocês duas forem andar juntas à luz da manhã como pouco a pouco ela relaxa,
Ela olha em volta, ela começa a crescer.

Tradução de Jorge Pontual.

sexta-feira, junho 26

Elegia 6

O tempo de uma gestação, a extensão dos dias que venho (sobre)vivendo com o peso da ausência.

Uma das coisas que mais ouvi das pessoas que vinham oferecer-me palavras de conforto era: "o tempo vai te ajudar a sofrer menos". Chamei a todas de mentirosas, no meu íntimo, pois percebia que, ao invés de amenizar, a dor crescia com o passar do tempo. E cada dia era mais difícil acordar, transitar na casa, olhar as coisas naquela ordem que ela deixara... A dor aumentava em todos os seus ângulos. Até que, num determinado dia, em um profundo acesso de desesperança, tive a sensação de que eu iria ser consumida. E, naquele instante, percebi que estava diante de um abismo, pois a dor continuaria crescendo. Era urgente, então, que eu crescesse, para poder acomodá-la, uma vez que ela começava a fazer-se maior que eu. Empenhei-me então a Crescer. Expandir-me espiritualmente era questão de sobrevivência.
É um projeto de longo prazo, crescer para que a dor caiba em mim. Como um dever de casa. Às vezes esqueço de cumpri-lo e o desconforto causado pela falta de espaço logo começa a me ferir de modo mais grave.

Ela está aqui, passem as luas que passarem. Tenho a tarefa de fazer-me a cada dia um pouco maior que ela, para poder abarcá-la.

(270 dias).

domingo, junho 21

São João

As bandeirolas na rua, o recesso do trabalho, as pessoas vestidas com roupas características, as fotos de comidas típicas nas redes sociais recordam-me que estamos às vésperas do São João. Essa festividade já foi uma das mais aguardadas por mim. Os fogos, que me encantavam (e esses eram os que não produziam estrondo, obviamente), os bolos tanto mais variados quanto mais saborosos que eu, saltitante, ajudava mainha a preparar, o amendoim cozido - a delícia em casquinhas, o milho e seus derivados, o cheiro da laranja, que parece ganhar um tom característico nesta época, a animação do povo nas ruas, realçada pelo efeito dos licores coloridos, o som de zabumba e sanfona sobressaindo-se aos demais instrumentos musicais...
São joão era época festiva, e embora eu não tivesse como hábito ir a lugares para comemorar em festas e grupos de amigos, a alegria contagiava também a mim, e eu era feliz.

sábado, junho 13

Da eternidade do amor - Inês Pedrosa

E nestes dias em que se celebra o amor,corações, beijos e abraços esparramados por todos os lados, vou deixar um trechinho da escritora portuguesa Inês Pedrosa, do romance que analisei na minha dissertação de Mestrado. No trecho, a personagem Ana Lúcia escreve a Afonso, que acabara de perder a filha pequena. Meditando sobre a relação vida x morte, ela reflete sobre a natureza do amor. Inevitável esse entrecruzamento...
É, na minha opinião, a página mais bonita do livro.


"(...). O amor é eterno como as estrelas. Não sabemos nada das estrelas, como não sabemos nada do amor. Muitas vezes encontramos no brilho distante de uma estrela a coragem necessária para atravessar noites de excessiva treva. Sussurramos desejos às estrelas cadentes e confiamos as lágrimas à beleza de um céu estrelado. Precisamos da tristeza para aprender a olhar para o céu. Não falo do céu metafísico, do céu povoado de deuses vingadores, desse céu demasiado terreno que, ao longo dos séculos, tem construído uma história de horror e guerra. Não falo do céu dos fiéis e infiéis, do céu que ergue fogueiras e cadafalsos, que inventa infernos e torturas, que se despenha em aviões sobre a humanidade. Falo do céu que existe sobre as nossas cabeças demasiado ocupadas a engravatar a terra. Das estrelas que vivem e morrem sem que o saibamos, e que nos iluminam, se soubermos olhar para elas como se fossem sempre a mesma, a estrela inicial. É assim a eternidade do amor - indiferente à vida e à morte, capaz de sobreviver à pequena cronologia da vida. Capaz, acima de tudo, de fazer da semivida presunçosa em que tantas vezes nos enredamos, uma vida verdadeira, voltada à única coisa que interessa - o amor.
Temos o privilégio de nos sabermos mortais. O que fazemos desse privilégio? Em geral, fugimos dele, apavorados. Refugiamo-nos nas aparências do tempo, fazemos contas à vida. A morte de um jovem é uma afronta a essa nossa contabilidade estéril. As nossas vidas seriam muito diferentes, se acordássemos para cada dia como se fosse o único. Quantas vezes repetimos: 'Temos tempo'? Quantas horas ocupamos a complicar as vidas dos outros, em vez de simplificarmos a nossa?
Temos medo. O medo é o maior assassino; conduz-nos a subterfúgios infra-humanos. O medo criou os deuses do extermínio e da vingança, porque a sua natureza cobarde leva-o a viver de desculpas e a sacudir a responsabilidade. Quantas pessoas não se dizem 'demasiado sensíveis' para ir a um hospital e acarinhar um doente terminal, ou para ir a um velório abraçar os que acabaram de perder uma parte de si? A doença e a morte confrontam-nos com a mortal mesquinhez desta 'sensibilidade' - e convocam-nos para uma outra forma de vida, eterna como a valentia e a bondade humanas, que são uma e a mesma coisa.
Repetimos que a fé é, face à morte, o maior lenitivo. Mas que é a fé verdadeira senão o absoluto do Amor? O Amor é o verdadeiro rosto de Deus." (...)

In: Os íntimos, 2010, p. 67, 68.

domingo, junho 7

Dois pontos

Que seja flor o botão
que seja cor o clarão
que seja pra durar

não seja dor, furacão
não leve a paz - extinção
não deixe-se quebrar

não sendo flor, vá ao chão
amanhecer, escuridão
se for doer... faça-se calar:

de finitudes vou plena
de interditos, exausta
entendo bem de partidas,
Chegadas... falta aprender.

terça-feira, maio 26

Elegia 5 (Memórias dos meus maios)

Nas memórias dos meus maios, vejo nós duas caminhando para o Mês de Maria. Braços dados, agasalhos, levadas pelo amor à Mãe Maior. Lembro a sua preparação desde o cair da tarde, a sua atenção em sair cedo para nunca chegar atrasada. Maio era um dos nossos preferidos meses.
Eis um maio mudado, mudo.
Aprendi contigo a cultivar esse carinho pela Mãe do céu. Desde pequena fui ensinada a falar pra ela das minhas inquietações. Mãe sempre entende o filho e o acolhe. Assim como tu me acolhias enquanto estavas aqui.
Meus maios agora têm duas medidas:
Maio menor... sem teus braços enlaçados aos meus.
Maio maior... com duas mães me olhando do céu.

(240 dias).

domingo, maio 17

Prece

Meu Deus,
Sei que este mundo é apenas uma travessia, e tenho aprendido que dele não devemos esperar justiça nem benevolência. Ajude-me a cumprir minha trajetória com sabedoria.
Que eu não dê passos incertos, nem mire alvos caiados.
Que eu saiba reconhecer as folhas secas que devem voar, bem como os brotos de vida que precisam de ar e espaço para florescer.
Não me sejam pesadas as consequências das escolhas que fiz, mas caso assim se tornem, que eu não me acomode ao cansaço que atribula os dias.
Que eu tenha medo do novo, mas que ele não me impeça de desbravar caminhos.
Que eu não viva à espera de coisas extemporâneas para ficar feliz, mas que elas venham mesmo sem terem sido esperadas, e me façam bem.
Que eu não cale a minha voz diante das opressões; que eu não feche meus olhos frente às injustiças.
A mentira não me arraste em suas teias; que eu olhe nos olhos e consiga enxergar o coração.
Livra-me da sedução de tudo que não nasce de Ti.
Sejam meus olhos espelhos da alma, e que esta esteja constantemente buscando o Teu colo.
Que ser só não signifique ser triste; minha companhia me seja bastante. Mas que eu tenha, perto ou longe, quem bem me queira.
As crianças sejam sempre meu alumbramento, as estrelas minha inspiração e a lua o meu encanto.
Que eu não me faça indiferente à Sua criação.
"Que as pedras do meu caminho meus pés suportem pisar". Nenhuma dor outra vez me suplante a fé. Nenhuma ferida permaneça sem fechar.
Minha luz seja do Teu Espírito e minha proteção, a dos Teus anjos.
Que meu elo contigo nunca se desfaça.
Que olhem pra mim minha Mãe do céu, Senhora do mundo,
e a mãe que tive na terra, meu pedaço já na eternidade.
Amém.

domingo, maio 10

"Amor imorredouro"

Inevitável não lembrar do abraço cerimonioso que eu te dava nos segundos domingos de maio. Te abraçar e te beijar era ato diário. A qualquer momento, em qualquer lugar, quando você estava brava, cansada, preocupada ou sorrindo. Mas o abraço do dia das mães era diferente. Bem no fundo, tinha um eco da consciência; um medo mesmo, fruto da dura verdade de que um dia, (um dia!) meus braços ficariam vazios. E você sentia isso também. Não era à toa aquele seu ar entre sério e sereno a dizer coisas ternas enquanto eu te abraçava. Sim, era você quem me dizia coisas ternas. Eu ficava sempre tão paralisada pela solenidade do momento que não sabia nada fazer além de abraçar e sentir. E muitas dessas vezes junto com você, chorar.
"Que no próximo ano eu esteja aqui para que vocês possam fazer o mesmo", era uma das coisas que você pronunciava quando te abraçávamos, eu e os meninos. No ano de 2010, quando passamos pela maior das provas, com sua saúde ameaçada, essa frase portava doses redobradas de fé e esperança. Torcemos, oramos, choramos, clamamos que aquela nuvem carregada passasse e a calmaria voltasse. Os anos que sucederam 2010 foram anos de vitória. Seus cabelos, cujos fios haviam caído por completo, voltaram a crescer. E numa beleza e vigor que traduziam a sua força e vontade de continuar vivendo, apesar de todos os apesares. É, a vida sempre te foi hostil, mas você sempre levantava e sorria. Uma guerreira, com todas as letras.
A minha prece a Deus de todos os dias era que você tivesse paz. Que a sua saúde estivesse bem, que todo o mal se afastasse da sua vida. Que as causas de preocupação cessassem, que eu tivesse você sorrindo ao meu lado por anos a fio. Forte, bonita e elegante, como eu te dizia, e você ria achando que eu estava sendo bondosa. Não, eu estava sendo sincera. Eras a mais linda das filhas de minha avó. (Que me perdoem minhas tias, todas muito amadas). Eram sinceras as minhas reclamações por não ter herdado o seu cabelo longo, cheio e macio, as suas unhas fortes e bem torneadas, sua sobrancelha feita por natureza. Eu, como única filha, deveria tê-los recebido por direito!
Pois bem, os muitos e muitos anos que eu pedi a Deus que tivesse ao seu lado... não vieram. Não sei por que. Não que eu me considere digna de todas as graças, merecedora de que meus pedidos sejam sempre atendidos. Quem sou eu!... Mas a gente é assim mesmo... não sabe de nada. E nesse primeiro dia das mães em que eu vou sair do meu quarto e você não vai estar lá dentro para eu abraçar, estou aqui escutando a chuva cair forte no telhado e escrevendo estas linhas. A chuva, sempre a chuva...
Agora que eu não posso mais comprar um presente pra te dar, me resta pedir a Deus que te deixe feliz aí. Aprendi com você a acreditar em Deus, a ser cristã. E é nisso que os cristãos acreditam: que a vida não acaba. Então... que a sua vida aí esteja boa, mainha. Que o seu lugar esteja confortável, limpo, arejado, iluminado e em paz. Que estejas bem acompanhada, com os seus que te precederam, principalmente minha vó. Me angustia não saber ao certo como é aí, mas imagino que tenha todos os anjos e santos, Nossa Senhora e Jesus Cristo. Só me resta pedir daqui, do cume de minha ignorância e pequenez, do profundo de minha dor e saudade, que todas as luzes celestiais estejam te iluminando. Que estejas vivendo a plenitude da graça e a felicidade que tantas vezes te foi negada do lado de cá.
Sempre te amei, vou te amar até sempre.

domingo, maio 3

Consolo

Já é maio. Mas...
Cadê a flor?

- Virou anjo
protetor.