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terça-feira, junho 21

Part(idas)

E assim se vai partido o meu ano ao meio, a estação das sombras está a chegar.
Tal qual partidas vão esperanças...
taciturnos olhares lançados ao sempre desconhecido porvir.

terça-feira, maio 31

Que seja maio

Já se despede o mês da delicadeza.

Foram dias de semeadura intensa no meu pomar. Dias e noites com as sementes nas mãos, nos olhos, no querer.

Que faça a chuva necessária para fazer brotar os frutos que tenho almejado. E que sejam doces como um despertar de orvalho e sol, como os de maio.

segunda-feira, março 28

Confissão à primeira Lua Cheia do outono

É noite, e estás plena.
Senhora e majestade do céu pontilhado de luz.
Daqui te vejo, só e despida. Serva, súdita, sem lume, vazia.
Nas mãos, feridas; nos pés, poeira; no peito, desejo; nos olhos, clamor:
- Que eu um dia plena te veja, Lua primeira. Que veja em tua luz a minha a cintilar. Na tua majestade a do meu peito trono. Na tua beleza a dos meus passos. Não mais seja contraste a nossa condição. Vede, Lua primeira, quanta graça, quanto encanto trazes. E como nos parece prazenteira. Vede pois que não sois só, ó Lua inteira, mas sois de todo do rei astro hospedeira, receptora de real grandeza. Quero ser como tu, ó Lua,
inteira.

quarta-feira, março 23

Azul

Quero a palavra única, a síntese, a conclusão.
Quero a explicação justa, o golpe certo, o alvo.
Quero a resolução exata das crises, a cura dos crimes (não) cometidos por meus pés.
Quero, somente e todo, o azul,
para acalentar as sucessivas estações inóspitas.

sexta-feira, fevereiro 12

12 de fevereiro



Se minha avó estivesse aqui, faria hoje 90 anos.
Motivo de uma festa e tanta!Certamente os filhos e netos estariam preparando um encontro com muitos abraços, afagos e risos. Mas minha avó não está entre nós há quase 11 anos. Partiu cedo, rápido...
Não faço ideia de como seja a vida além daqui, mas desde que minha avó se foi, fico tentando imaginar a outra dimensão de muitos modos. Será que lá as pessoas continuam comemorando aniversários? Acho que não... Acho que lá é tão plenamente bom que não existem dias mais felizes que outros. Agora, a sua filha primeira também já está nesse outro plano. E como eu desejo que estejam juntas, tranquilas...
Deus, que as mulheres da minha vida estejam em paz, iluminadas pela perpétua luz.

sábado, janeiro 9

"Perdi o bonde e a esperança/ volto pálido para casa"


Mas não foi só um bonde perdido. Foram as muitas águas, que arrastaram sonhos em suas correntezas;
foi a ausência de água, deixando a sede de um futuro adiado;

Não foi só um bonde perdido, foi o sono, socorro único dos pouco validos;o desejo de fazê-lo confundir-se com a realidade crua e cruel de todos os dias;

Não foi somente um bonde perdido, foram dias e noites passados e futuros;

Quisera fosse apenas um bonde perdido... e o gosto do recomeço?

O bonde foi perdido. E também o cheiro de alecrim, o gosto de romã, o tato do amanhã.

Perdi o bonde... e a esperança?

Volta, pálida, para casa.

terça-feira, dezembro 1

Dezembro...


Envelheci uns DEZ anos nos últimos meses.
Lembranças de quando te recebias EM festa...
Sim, acredito que, das cinzas, o entusiasmo BROtará.

segunda-feira, novembro 23

Dos pássaros que faltam


Saíra cedo da cama para caçar passarinhos. Era essa sua atividade mais habitual. Tinha certa habilidade, de modo que contava já um número considerável de bonitos sabiás no seu pequenino pomar particular. Os sabiás eram seus pássaros prediletos. Por muito tempo dedicou-se somente à caça dessa espécie. Andava agora desejoso de um pássaro de penas azuis. Não era uma espécie rara, pois muitos o tinham pela redondeza, mas ele nunca conseguira aprisionar um pássaro azul. Animou-se todo, naquela manhã de sol, quando um deles pousou no seu alçapão. Reuniu os amigos todos para mostrar-lhes a novidade. O coração do menino pulou de alegria com a possibilidade daquela caça inédita. Enquanto o pássaro estava ali, pousado, fazia ele mil conjecturas de como narraria a façanha para os seus afetos. Pensou em como seria completo, agora, com um pássaro azul junto aos seus sabiás. Os amigos todos juntaram-se na torcida por aquele feito inédito do dedicado cuidador de passarinhos. A perspectiva animou a todos, que, interiormente, já comemoravam a grande façanha do dia. O passarinho pulou daqui, pulou dali, perscrutou o espaço, deixou-se ficar um pouco mais em cima do alçapão. Coisas de passarinhos. Toda caçada começa assim. No entanto, aquela era especial. Sentaram-se todos, guardando certa distância, silenciosos e atentos, observando os movimentos do visitante inesperado. De repente, num bater de asas decidido, o pássaro azul voltou para o galho da árvore. Para dali ganhar o infinito novamente. Os amigos do pequeno caçador sentiram neles próprios a frustração daquele desfecho infeliz. Uns baixaram a cabeça, sem palavras de encorajamento para o companheiro, outros tentaram distraí-lo com uma piada sem graça, outro ainda, bateu no seu ombro afirmando que aquele havia sido um prelúdio. E logo um pássaro azul pousaria no seu alçapão. Ele veria. Mas o menino, em tom de sabedoria e descrença, enquanto recolhia a armadilha, balbuciou:
- Não nasci para ter pássaros azuis. Amanhã volto para tentar mais um sabiá.
E, com passos rápidos e coração cansado, entrou no caminho de mato fechado de volta pra casa.

domingo, outubro 4

Ônus

Ninguém sabia que o menino acordara de sonhos intranquilos e saíra a ermo desejando que o vento da manhã de sol levasse consigo os resquícios de inquietude da noite mal vivida;
Ninguém soube que o menino derramara lágrimas quando o calendário o fez recordar de momentos dolorosos;
Ninguém desconfia que o menino até hoje se culpa por atitudes não tomadas quando a vida lhe doeu mais intensamente;
Ninguém sentiu as dores do menino.
Todos o apontaram quando ele não soube ser sorridente e amável como sempre fora.

sábado, outubro 3

Mas livrai-me do mal... Amém!

Quero saber a arte do sorriso. De olhar o mal com olhos de quem crê que o bem maior me rege.
Quero saber a arte do silêncio. Pra não gastar em palavras a energia das ações.
Quero saber a arte da sabedoria. Para entender que os dias maus hão de deixar o legado da experiência.
Quero ter a sabedoria da arte: e não morrer por excesso de palavras não-ditas.