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domingo, maio 13

In memoriam



In memoriam o abraço dos segundos domingos de maio. (E dos primeiros, terceiros e todos; sábados e -feiras; outono, julho e verão).
In memoriam o cheiro, a graça, a alegria.
In memoriam a voz, o afeto.
In memoriam o rosto, os cabelos, a cor.
O tato in memoriam
In praesentia, a memória.

quarta-feira, fevereiro 28

Os quintais de cada um

Quando se olha, só se vê seu rosto, inexpressivo ou cansado; seus passos, apressados ou incrédulos; seu olhar, solar ou nublado.
Ninguém pode saber em quais mares deságuam os rios alheios.

Perpétuo silêncio.

Ela ajunta guarnição e víveres. Tece dia e noite: não canta. Planta e rega.
Possui um jardim?

...
No quintal de sua alma, um cemitério de sonhos, mortos tragicamente.

segunda-feira, fevereiro 19

Enterro póstumo

Tinha cheiro de flor viçosa que balança à brisa fresca logo após o rebento. Embelezava as manhãs e enchia de vida as tardes.
Um dia foi colhida para pôr-se ao pé de um defunto. Ali, não perfumou.

Caiu em terra seca por entre pedras. Foi pisada, chutada, atropelada e perdeu algumas pétalas. Amarelou-se, murchou.
Capturada, ganhou um vaso, água e brisa. Entanto, não rebenta. Não embeleza as manhãs, nem enche de vida as tardes.
Aguarda, sem viço, o dia em que lhe joguem terra.

terça-feira, janeiro 30

Do cansaço

A página igual
iguais as roupas, os pés, os silêncios
desejo rouco,
oco,
pouco?

na mesa, iguais as taças, as cartas, as traças
os sonos e os sonhos - iguais

desigual a medida da
fe -licidade
a trilha da sorte, igual-desigual
o caminho
a hora
a conta
(desiguais)
o suor, as pegadas, a vigília (desiguais)

a conta (desigual)

A conta...
Por favor!

domingo, maio 14

Feliz filho com mãe!

Segundo domingo de maio e os meus olhos estão cheios de nuvens.

Na minha casa não tem mãe. Não tenho, nem sou. Logo, um domingo quase comum. Estou aqui observando ao redor as homenagens em carros de som, as mensagens nas redes sociais em forma de textos e imagens de mães e filhos como flores para elas, que tanto são essenciais. Observo também mães sendo visitadas por filhos que cumprem nesse dia o ritual de fazer-se presentes para alguns minutos de conversa. Quiçá um abraço ou um presente.

Enquanto observo, a memória traz-me lembranças do cotidiano ao lado da minha inseparável mãe. O mês de maio, sem dúvidas, faz os órfãos de mãe sentirem-se mais órfãos que de costume, porque os corações vermelhos que decoram todos os cantos nos recordam que em nosso ser pulsa doído esse amor essencial que se apartou; esse cordão umbilical doloridamente cortado.

As nuvens dos meus olhos deságuam ao ver o filho abraçar sua mãe. Como que contemplando a mais perfeita das experiências de amor humano; ao alcance da visão, o encontro fundamental, visceral, imortal, com a moldura de um abraço que se chama Felicidade.

sexta-feira, janeiro 6

Coisa vinda, seja bem linda.

Neste ano, quero 2017 bons motivos para escrever.
2017 inspirações.
Pelo menos umas 2017 vezes dedicar uns minutos para fazer nada.
E escrever sobre as coisas que o "nada" me trouxer.

Quero páginas limpas e histórias novas.

Seja linda, coisa vinda!

sábado, dezembro 31

Do ano que acaba

Vai-se velho mais um ano.

Semeaduras marcaram a trajetória dos meses idos. Também intensos aprendizados. Foi um tempo de deixar-se cortar, com a esperança de voltar inteira. No cenário nacional, caos. Política e economicamente, as estruturas do Estado Nacional de direito foram abaladas.

O dia de amanhã estará recebendo toda a sorte de boas vibrações, emanadas de diversas partes do globo. Guardador das mais sinceras esperanças, os dias Primeiro de todos os janeiros deveriam emprestar aos outros 364 um pouquinho da alegria que invade os corações, da esperança que faz crer que dias bons podem vir e do abraço que une as pessoas, ainda que de modo casual.

Para 2017 desejo que estejamos com Deus em todos os seus dias. Que queiramos estar na presença Dele, que nos agrade seguir a Sua voz, o Seu ensinamento. Isso sim é garantia de um ano bom.

Que seja em Deus!

sexta-feira, outubro 14

Do amor que partiu



"Aquele jeito que você me olhou
Varreu meu pensamento
Todas as coisas saíram do chão
Eu me esqueci de tudo
Antes que eu me desse conta
Já era seu meu querer

Foi como o sol que desponta
Numa montanha dourada
Na terra do faz de conta
Pra me banhar de prazer"

Meu amor canino partiu.
E deixa partidos os corações dos que conviveram com ele os últimos sete anos. Não sabia que doía tanto...
Agora, reaprender a viver sem seus passinhos, sua teimosia, seu rabinho abanando, sua linguinha pra fora, suas patinhas na mesa, seus ciúmes, suas orelhinhas macias, seu medo de fogos e trovões, seu calcanhar intocável,sua sabedoria, sua doçura, seu dengo, seu olhar, suas cores.
Obrigada, filhotinho, pelo prazer da sua presença. Nós te amávamos muito...

quarta-feira, outubro 12

Do amor que ameaça partir

Meu amor canino está parando de viver...

Como é angustiante ver meu cachorrinho recusando todo e qualquer tipo de alimento. Coisas pelas quais ele fazia grande festa só por sentir o cheiro...agora o são indiferentes. Olha, cheira e dá as costas. Por que meu bichinho está desistindo de viver?

Essa criaturinha colorida veio pra minha vida sem que eu planejasse. Sequer desejei um dia ter cachorro. Mas quando pus os olhos nele pela primeira vez, não foram suas orelhas longas e caídas, nem seu rabo comprido, branco e erguido que me chamaram atenção. Fiquei encantada com a estampa da sua pelagem: preto, branco e dourado. Nunca havia visto um beagle. Analisado-o melhor, percebi que seu olhar era doce e inocente. Não parecia uma fera, e sim um ser frágil, como uma criança. E ele veio morar comigo.

Não dava nenhum trabalho. Não fazia barulho, não comia calçados, fazia as necessidades fisiológicas apenas nos locais apropriados, não espantava visitas, não subia nos móveis...Coloquei os verbos no passado porque esse comportamento irrepreensível não permaneceu por muito tempo. Depois veio a fase de fazer barulhos, de querer ir ao quintal várias vezes na madrugada, de subir nas camas, de morder os donos... Creia, Aquiles nunca mordeu nenhum estranho, mas aos donos, sim. Ocorre que ele, apesar de doce, tem personalidade forte. Tem as coisas de que ele gosta e as coisas de que ele não gosta; as coisas que ele deixa (que façamos nele), e as coisas que... melhor deixar ele em paz.
A minha primeira mordida eu ganhei quando, não resistindo a tamanha delícia, tasquei-lhe um beijo na bochecha. Entendi o recado. Ele não gostava de excessos de carinhos. A segunda e última mordida foi quando tentei fazer uma foto daquela carinha linda bem de pertinho. (Só depois aprendi que existe um recurso no celular chamado "zoom"!) Ele estava de olhos fechados, mas quando sentiu que tinha algo bem perto do seu rosto... atacou. Foi mais barulho do que mordida, na verdade, mas o susto valeu por ambos. Tudo bem. Saquei que meu amorzinho era chato. Que eu não poderia manifestar calorosamente minha paixão. Bem dizem que nada é perfeito.
Os anos passando e essa vidinha cada dia mais incrustando na minha. As patinhas na mesa pedindo comida, o rabinho balançando, o latido rouco quando algum outro cão se aproxima da casa, a cabecinha inclinada pro lado quando está observando os movimentos de alguém... Nenhum cachorro no mundo inclina a cabeça pro lado tão lindamente como ele. É lindo, meu cachorro. Um príncipe. Um gato.

Pois, meu cachorro-gato está-me dando a sensação de que vou perdê-lo a qualquer momento. Sim, eu sabia que acontecerá algum dia. Mas... que coração está preparado para perder um amor?

Vejo-o hoje magro, cabisbaixo, vítima de uma cruel bactéria que amarelou suas mucosas, tirou completamente sua fome, tornou lento seus passos... Está tomando injeções para matar o mal. Mas sinto que meu bebê morre um pouquinho a cada aplicação. Chora, grita, sofre... Uma existência tão inofensiva... não devia ter que sofrer...

Eu quero muito que meu filhote fique bom. Que volte a ter fome, ganhe o peso que perdeu, fique de novo disposto, forte, esbelto, que morra esse mal que o acometeu. Eu quero muito continuar tendo suas cores nos meus dias, já tão cinzentos.
Fique bonzinho, Coração!... Mamãe ama você!

segunda-feira, setembro 26

Dois anos de saudades

Uma das perspectivas de ver a morte é entendê-la como o início de uma vida nova.
Assim como se vive primeiramente a vida uterina, que é uma preparação para a vida do lado de fora, os anos que passamos por aqui são uma preparação para uma outra realidade. Logo, a morte seria um re-nascimento. Um nascer para uma dimensão nova.
Hoje, completando dois anos da passagem de mainha, renovo o meu desejo de que sua nova morada seja imensamente melhor. Que tenha luz, paz e a esplendorosa presença de Deus. Que tenham ficado neste plano todas as dores e prantos. E que continue, de lá, a olhar e cuidar dos seus.
Enquanto eu respirar estarei sentindo saudades.