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quarta-feira, março 9

Um cão apenas

Para uma quarta-feira de cinzas, um ressurgir. Reencontrei-me agora há pouco com essa crônica da minha doce Cecília... Que boa surpresa poder relê-lo, redescobrí-lo! Vou abster-me de quaisquer comentários. Tenho certeza que ele os dispensa...

Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim – plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito eis-me no patamar. E a meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. É um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gastas, as mechas brancas do pêlo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas.

Com um grande esforço, acaba de levantar.-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonha-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer, enquanto dormem… Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves, acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir.

Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento… Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica. Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens. Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.

Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era o seu.

Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.

Cecilia Meireles

domingo, março 6

Colecionador

Vou pedir licença ao autor pra postar aqui um texto (lindo) que li ontem. Belas imagens de nossa insensata mania de ser "viajante imóvel"...

Guardo recordações de viagens
que nunca fiz. Garrafas cheias
de lembranças vazias e nomes
conhecidos, mas distantes.
Diferentes barcos a vela
que, como eu, não velejam,
mas velam por minha imaginação.
Localidades das quais não
tenho qualquer recordação,
a não ser a breve sensação
de que as toco, aqui, de longe,
quando encosto, ainda em transe,
nas bugigangas daqueles lugares.

Marcos R. B. Lima

segunda-feira, janeiro 24

De um instante de ausências

... Não encontrei nada pronto que pudesse postar agora, mas sinto uma enorme vontade de me dizer. Sinto uma mistura de coisas, uma efusão de sentimentos, uma multidão de palavras a dançar, brincar, lutar, explodir...Vontade de falar sem reticências para amenizar as angústias das interrogações. Escrever para tentar entender a razão de tantos apesares, de tantos ses e talvezes, de tantos quereres; Escrever para tentar elucidar a estranha natureza do bicho homem, a estranha essência do ser gente. Escrever para me dizer, aliviar as sofrências dos exacerbados anseios eternos... inacabáveis... insaciáveis...
Viver é magnífico!
Viver é muito difícil.

Viver é morrer sem respostas... E amar (verbo de ligação) é a única resposta.

domingo, janeiro 23

Das coisas que me dizem

Essa postagem é especial. Na semana passada tive o privilégio de ter sido presenteada com a dedicatória de um poema. Fiquei deslumbrada. Quem ainda não ouviu vai ouvir muito ainda falar de Elis Angela, poeta e contista feirense. Amiga da graduação. Enveredou pela literatura. Caminho bonito... Não me faltando vida e oportunidade estarei eu algum dia, quem sabe, arriscando-me a trilhar essas rotas também. Pois dedicou-me ela esses versos, sob o título deste humilde blog. Muito grata!!!

Para Helitânia


O infinito do mar, do céu, dos campos verdejantes.
O infinito do homem, prisioneiro em suas ideias (in) finitas.
A sonata.
A história mal contada em livro para ser esquecido.
O filósofo que, sem saber o que é filosofar,
ensina-nos como gozar a vida.
E a formiga silente que mordeu o meu dedão.
(viver é doer constantemente)

Elis Ângela F. Ferreira Santos

quarta-feira, janeiro 5

Caçador de mim

Primeira postagem de 2011! Que seja um ano de muita luz!!!
Com essa postagem quero expressar um dos meus mais fortes sentimentos no limiar deste novo ano. Viver é muito perigoso, já dizia Guimarães Rosa. Chego à conclusão de que há uma só solução: viver. A despeito de todas as reflexões, viver. Que em 2011eu adie menos...


Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Luís Carlos Sá e Sérgio Magrão

domingo, dezembro 26

O Natal existe

Pessoal, minhas postagens de natal estão chegando com um certo atraso... mas eu explico. Devido a um incêndio no prédio da Oi, em Salvador, no dia 21, fiquei sem net por uns dias (e sem telefone até hoje). Mas não poderia deixar passar em branco esse momento que tanto me inspira que é o natal. Essa letra é uma das tantas natalinas que dizem coisas muito belas. Adoro.

Quero ver
você não chorar
não olhar pra trás
nem se arrepender do que faz...

Quero ver
o amor vencer
mas se a dor nascer
você resistir e sorrir...

Se você
pode ser assim
tão enorme assim
eu vou crer...

Que o Natal existe
que ninguém é triste
e no mundo há sempre amor...

Bom Natal um Feliz Natal
muito Amor e Paz pra Você
pra você...

Edson Borges

Ele está pra chegar

Natal é tempo de ímpar singeleza e ternura. O clima de bonança que infesta a atmosfera dos nossos sentimentos nesta época do ano não vem do acaso. Para os cristãos natal é tempo de rememorar o acontecimento histórico do nascimento de Jesus. É a humanização de um Deus. E, para surpresa dos homens do tempo, Ele não vem de forma triunfal, como seria digno de um rei, mas vem na fragilidade de uma criança; na pobreza de uma manjedoura.
Esta canção nos convida a viver em plenitude esse momento de espera do Homem-Deus. Mas é importante vê-la também como um chamado constante à contemplação dessa luz, dessa força...


Se ilumine na luz das estrelas
Se aqueça nos raios do sol
Se refresque na chuva que cai
Sobre a sua cabeça
Agradeça e respire do ar
Se concentre diante do mar
Se procure e se encontre depressa
Ele está pra chegar

Não se pode negar os sentidos
Tão pouco tapar os ouvidos
Pra fugir das verdades
Que a própria consciência nos diz
Não adianta tentar se esconder
Nem tão pouco querer se enganar
Se procure, se encontre depressa
Ele está pra chegar
Ele está pra chegar

Vista-se no branco desse amor que vem do alto
Busque o céu dos seus pensamentos
Veja que a verdade e as palavras do profeta
Nunca se perderam nos ventos
Pare pra pensar
Pense muito bem
Olhe que esse dia já vem
Pare pra pensar
Pense muito bem
Olhe que esse dia já vem

Pare, pense
Olhe que esse dia já vem (2x)

Muito em breve uma luz vai brilhar
Dessa luz Ele então surgirá
Se materializando ante os olhos
Surpresos do mundo
Não se pode fugir dessa Luz
Dessa força chamada Jesus
Se procure, se encontre depressa
Ele está pra chegar
Ele está pra chegar

Erasmo Carlos/Roberto Carlos

quinta-feira, dezembro 2

Ainda que o amor seja mudo...

A CRIANÇA que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo -

Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer cousa de amor,
Ainda que o amor seja mudo

Fernando Pessoa

sexta-feira, novembro 26

Tempo

Nessa semana Sandy iniciou sua primeira turnê solo, após ter desfeito a dupla com Junior. Sandy e Junior foram as paixões da minha infãncia e adolescência, deixe eu explicar logo aqui. E, claro, não deixei de amá-los, admirá-los e torcer por eles pelo fato de ter crescido...afinal, recordar é viver! Essa é uma das músicas do CD de Sandy (que por sinal está lindo). Acho essa mensagem bonita; muito oportuna. Vale a pena!!!

Invernos
Impérios
Mistérios
Lembranças
Cobranças
Vinganças

Assim como a dor
Que fere o peito
Isso vai passar
Também

E todo o medo, o desespero
E a alegria
E a tempestade, a falsidade
A calmaria
E os teus espinhos
E o frio que eu sinto
Isso vai passar
Também

Saudades
Vaidades
Verdades
Coragem
Miragens
E a imagem no espelho
Como a dor
Que fere o peito
Isso vai passar
Também

E todo o medo, o desespero
E a alegria
E a tempestade, a falsidade
A calmaria
E os teus espinhos
E o frio que eu sinto
Isso vai passar
Também

Isso vai passar
Isso vai passar
Isso vai passar
Também
Isso vai passar
Isso vai passar
Também

Isso vai passar

Sandy

domingo, novembro 21

Meu Plano

Inevitavelmente, a gente vive a fazer planos. Planos para nós mesmos, para as situações que nos rodeiam, as pessoas que encontramos... Ainda que seja um segredo só nosso, indizível, as vezes até inconsciente, é da natureza humana idealizar, projetar, antecipar... Adooro essa canção!!! E que façamos muitos planos... e que os nossos planos sejam!

Meu plano era deixar você pensar o que quiser
Meu plano era deixar você pensar
Meu plano era deixar você falar o que quiser
Meu plano era deixar você falar
Coisas sem sentido, sem motivo, sem querer
Andei fazendo planos pra você

Engano seu achar que fosse brincadeira
Engano seu
Aconteceu de ser assim dessa maneira
O plano é meu
Mesmo sem sentido ,sem motivo, sem qurer
Andei fazendo planos pra você

Pra você eu faço tudo e um pouco mais
Pra você ficar comigo e ninguém mais
Largo os compromissos
Deixo tudo ao largo
Você tenta em vão me convencer
Que é melhor não fazer planos pra você

Meu plano era deixa você fugir quando quiser
Meu plano era esperar você voltar
Engano meu achar que o plano é passageiro
Engano meu
Acho que o destino antes de nos conhecer
Fez um plano pra juntar eu e você

Pra você eu faço tudo e um pouco mais
Pra você ficar comigo e ninguém mais
Largo os compromissos
Deixo tudo ao largo
Você tenta em vão me convencer
Que é melhor não fazer planos pra você

Lenine / Dudu Falcão