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quinta-feira, fevereiro 26

Elegia 1

Lembro-me de quando querias falar-me de coisas referentes à sua partida... Eu nunca quis dar ouvidos. Achava aquilo uma bobagem. Estaria tão distante isso! Coisa mais sem razão falar de morte! Mas mesmo sem querer, acabava ouvindo um ou outro comentário...

Custa-me ainda acreditar que partistes. Custa-me entender que sua ida devesse ser tão cedo. Sem que ao menos pudésseis embranquecer-lhe os cabelos ou surgir-lhe as mais visíveis marcas do tempo. Sem que ao menos vísseis os frutos dos teus frutos; sem que os ouvísseis doce e ternamente chamá-la de "vó"...

Inútil repetir minha incapacidade de compreender...

(150 dias)

segunda-feira, fevereiro 23

23 de fevereiro

Foi no dia 23 de fevereiro de 1980 que, perante Deus e a sociedade, minha mãe e meu pai disseram Sim ao projeto de compartilharem o espaço, o tempo, os amores e as dores. Graças a essa decisão, eu sou.
Eu já havia programado, no plano imaginário, uma comemoração especial para esses 35 anos de histórias, lutas, gostos, desgostos, benquerenças e malmequeres. Algo discreto, familiar, eles não gostam de alvoroço. No entanto, o correr da vida desenredou minha narrativa...

Quero dizer que... valeu muito a pena ter vindo ao mundo para morar com vocês. Eu não queria mesmo ter ido para outra casa, ter chorado em outros braços, ter aprendido outras coisas. Foi um enorme prazer aprender a ler o livro da vida através dos olhos, sorrisos e lágrimas, mãos, suor e afago de vocês... papis e mamis.
Sem mais.

sábado, fevereiro 14

Palavras, tamanhos e cores

À medida que crescemos e vamos descobrindo as diferentes faces da existência, algumas palavras vão mudando de significado no nosso dicionário.
Algumas se ampliam, ganham adornos e cores. Outras se estreitam, murcham, ficam cabisbaixas. Posso citar dois exemplos, um de distensão e um de encolhimento.
A palavra FELICIDADE. Antes era uma coisa grande, esplendorosa e colorida como cauda de pavão. Mas muito maior que a cauda do pavão! Era algo gigantesco, comparado a grandes montanhas, só que com asas, mobilidade, quase dançante. Agora, esse sentido encolheu. Felicidade se tornou coisa bem menos encantada. Também não é mais algo que se vá encontrar amanhã ou daqui a algumas horas ou quando conseguir realizar aquele sonho. Ela não é algo que se possa encontrar, ou que alguém possa trazer de presente, ou que a vida tenha que, por lei, legar a mim ou a você em algum momento da caminhada terrena. Felicidade pode nunca ser. Ou, consideram alguns mais otimistas (ou mais felizes. Ou, ainda, mais bem-aventurados), pode sempre ser. No final das contas, sempre cabe um quinhão de escolha do próprio sujeito. Uma decisão pessoal.
Agora, uma palavra que cresceu foi a palavra VIDA. A gente fala VIDA assim corriqueiramente, mas raramente se para, em algum momento, para refletir o que ela é. E, nesse aspecto, é inevitável refletir sobre vida sem que se lhe oponha à ideia de morte.
Pode parecer um raciocínio clichê (e é) afirmar que só se compreende o valor da vida quando se está diante do seu oposto. Uma pessoa que bebe e vai dirigir, por exemplo, ou que não usa o capacete na motocicleta tem uma noção bem diversa de vida que aquela que luta para curar uma doença. Que se submete a tratamentos rígidos e até dolorosos, usa medicamentos regularmente, abre mão de hábitos prazerosos, alimentares ou quaisquer outros, em vista de melhorias no estado clínico... Os primeiros querem viver a vida a todo vapor. Querem emoção, adrenalina, curtir tudo o que há, mesmo sabendo que a aventura pode custar caro. Os segundos só querem as condições suficientes para passar mais um tempo do lado de cá. Se questionados, uns e outros certamente afirmarão que a vida é boa. E que não querem deixá-la. A diferença é que, para os primeiros, ela é um manancial inesgotável; para os segundos, apenas uma gota. No bar, no encontro de amigos, no carnaval, a vida é uma festa: ela canta e dança. Num leito de hospital, a vida é uma corda bamba: ela geme e chora.
Tão gritante é a dicotomia do significado dessa palavra nessas duas diferentes situações, e é tão tênue a linha que separa a vida da morte, que nunca mais pronunciei a palavra VIDA com a mesma naturalidade de antes. VIDA é estar e ser. Morte é deixar de estar e - ao mesmo na dimensão material - deixar de ser. A ideia de VIDA cresce exponencialmente quando se pensa quão fatal e definitiva é a morte.
Cresceu. Cresceu e se pintou de um cinza um tanto tenebroso, autoritário. Eu estou com Guimarães Rosa quando diz que viver é muito perigoso... Nada de cores e danças e confetes. A tinta, a dança e os confetes quem cria é você, sou eu, se estivermos dispostos para tal. Na crua realidade, a vida é tão terrível quanto a morte.
Para torná-la suportável, levemos lápis de cor.

quinta-feira, fevereiro 12

Li em algum lugar algo que se referia à sutilíssima diferença entre os termos "colorido" e "dolorido".
Sacada certeira essa.
Onde não há cor, impera a dor.

terça-feira, fevereiro 10

Couraça

É preciso rasgar-se por dentro.
É preciso extirpar a pele que te reveste a carne, os ossos, as vísceras do sentir...
É preciso, em seguida, banhar-se no ácido da realidade nova,
a que te causa dor.
É preciso banhar-se na dor.
E permanecer de pé, doendo, até que venha nova pele.

Couraça.

domingo, fevereiro 8

Passam as horas, a terra completa a sua volta ao redor do seu eixo, a lua vem.
Na rua, passam as pessoas
a programação passando na tevê.
É domingo. A rotina semanal vai recomeçar.
Rugindo, no espaço oco do meu peito, uma saudade indomável!
que nunca vai passar.

quinta-feira, fevereiro 5

Prazo de Vida


Cecília Meireles


No meio do mundo faz frio,
faz frio no meio do mundo,
muito frio.

Mandei armar o meu navio.
Volveremos ao mar profundo,
meu navio!

No meio das águas faz frio.
Faz frio no meio das águas,
muito frio.

Marinheiro serei sombrio,
por minha provisão de mágoas.
Tão sombrio!

No meio da vida faz frio,
faz frio no meio da vida.
Muito frio.

O universo ficou vazio,
porque a mão do amor foi partida
no vazio.

segunda-feira, fevereiro 2

Para Jell Cerqueira

É o que todos dizem, baby... é o que dizem...

Lei
Cecília Meireles


O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga
que leva os mortos.

O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.

O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa,
e os lábios de ouro puro.

O que é preciso é que a alma vá e venha;
e ouça a notícia do tempo,
e. entre os assombros da vida e da morte,
estenda suas diáfanas asas,
isenta por igual.
de desejo e de desespero.

domingo, fevereiro 1

De vez em quando...

Paixão
Adélia Prado

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos, não é a bola
bonita caminhando
solta no espaço.


quarta-feira, janeiro 28

F5


"Quando já não tinha espaço pequena fui
Onde a vida me cabia apertada"...



Tava olhando aqui... Esse blog ta cada vez mais parecido com um diário. Mas então, caro hipotético leitor, você não tem nada que reclamar. Já viu o nome do blog? Pois é, então eu faço dele o que eu bem quiser e entender. Até porque, nos nossos tempos (ou quem sabe tenha sido assim em todos os tempos), poucas coisas são assim tão nossas de modo que a gente possa delas fazer o que bem quer e entende. Nem nossas próprias opiniões! Nem nosso cachorro! O meu mesmo odeia ser beijado e abraçado. Fui fazer isso uma vez e foi a única! Não, ele não chegou a morder-me, ele não é louco! E se tivesse mordido iria ficar nisso mesmo. Dois gritos de reclamação e eu que curasse o local lesionado com mertiolate. A propósito, ainda existe mertiolate? E será que é assim que fala? Que nada, isso foi remédio de quando eu era pequena, não deve existir mais. Não tô dizendo com isso que eu seja velha. Claro que não... Ainda estou na casa dos vinte!
Pois bem. Eu dizia que esse blog ta a cara de um diário. E essa postagem é pra fazer jus a isso.

Desde que resolvi apertar a tecla F5 em minha vida, instalou-se uma necessária desorganização interior. Na verdade, a desordem já estava instaurada. O ato de clicar o F5 só fez colocar as coisas todas em movimento, em tremendo reboliço. Aí, as ideias, os conceitos, as crenças, os valores, os hábitos, as pessoas...tudo está posto em julgamento. Algumas, certamente, irão permanecer. As que estiverem melhor alicerçadas. Mas muita coisa vai voar. Essa não é uma operação indolor. Não, não é. Para concretizá-la é necessário boas doses de desapego, coragem, determinação e desejo de mudança. Ativar F5 significa predispor-se a enfrentar as mudanças de enredo quando da alteração da importância das personagens. Sim, é um processo de redefinir prioridades. Sabe aquelas faxinas que você aproveita pra mudar os móveis de lugar? Tira o sofá desse lado, leva a mesa pro centro, prega a televisão no alto.. É assim. E isso causa muito barulho! Incomoda. Arranha o piso da casa. Mas depois, quase sempre fica a sensação de que ganhamos espaço. O sentimento de estreiteza acaba. Experimenta-se certo conforto, logo após o rearranjo das posições.

É o que ocorre com o nosso eu. É árdua e incômoda a tarefa de refazer-se. Machuca, fere, provoca dor... Tudo em nome da recusa ao lugar estreito. E que bom quando recusamos o lugar estreito; que bom quando não nos acostumamos com ele, projetando a falsa ilusão de que se pode viver ali, apesar do aperto. Quer que eu confesse uma coisa? A real é, se hoje um anjo viesse do céu me perguntar se eu preferiria morrer ou continuar vivendo, não tenho dúvidas de que escolheria deixar a matéria. Mas acontece que nenhum anjo veio nem virá me fazer essa pergunta. Logo, a única opção é ficar! Pois então, se é pra viver, vamos viver com classe! Nada de aceitar migalhas nem mendigar misérias nem engolir tudo que quiserem nos empurrar goela abaixo. Se viver é um imperativo, vamos também nós sermos exigentes! Vamos partir para o enfrentamento! Tá achando que é barato estar aqui? Não é não! Pois então... briguemos por espaço! E sejamos tão grandes quanto a amplitude do nosso lugar.