Estive ausente em todo o dezembro e janeiro e fevereiro.
Nosso dezembro foi pesado, duro, tenso. Meu paizinho esteve mal! Hospitalizou-se. De 5 a 27 de dezembro estivemos em quatro hospitais, em Saubara e Salvador. Duas internações aqui, duas em Salvador, sendo a mais longa no Hospital de Subúrbio, meu já conhecido de outras tensões. Ah, hospital... Lá vimos nascer o sol do meu 33º solstício de verão e também do natal.
UTI, boletim médico, exames, risco de vida, coração, pressão, remédios, remédios, remédios... ufa!
Meu pai ficou bem! Está em casa, graças a Deus e às intercessões de Nossa Senhora e todos os santos que invoquei nas angustiosas horas de orações e lágrimas. Vive agora uma nova vida. Por força dos ocorridos e do uso de medicamentos que o acompanharão doravante, largou a bebida. Emagreceu, ficando muito fragilizado. Em um mês de retorno a nossa casa, melhorou muito a aparência. Quando o consultam, responde estar bem. Às vezes, declara estar bom! (Para a glória de Deus!, digo no meu íntimo).
Temos agendados exame e consulta, para averiguar outros sintomas. (Como nosso corpo é traidor.) Mas meu pai segue... bem.
Já chegou o outono, e queremos continuar em paz. Que nada grave mais nos acometa, para que vivamos essa e as próximas estações no doce aconchego de nosso lar. Como é doce estar no nosso lar.
Deus nos conserve a paz e a saúde. Assim seja!
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segunda-feira, março 25
quarta-feira, novembro 21
Jozefina
Jozefina era fraca das pernas. vivia caindo e se machucando. Num dia tropeçava nos próprios pés, noutro, adquiria um galo na cabeça.
Certa vez chegara com os joelhos ensanguentados: "que menina desajeitada! como pode ser tão molenga? Toma jeito, menina fraca!"
Brincando no parque numa noite com as amigas, não foi ela dessa vez a machucada. A amiguinha torcera o pé ao pular do escorregador: "coitada da princesa! não chore, vai passar! gelo é bom pra diminuir o inchaço".
Jozefina também ajudou-a nos cuidados do machucado.
Embora seus joelhos calejados volta e meia tornem a sangrar. E só ela vê.
Certa vez chegara com os joelhos ensanguentados: "que menina desajeitada! como pode ser tão molenga? Toma jeito, menina fraca!"
Brincando no parque numa noite com as amigas, não foi ela dessa vez a machucada. A amiguinha torcera o pé ao pular do escorregador: "coitada da princesa! não chore, vai passar! gelo é bom pra diminuir o inchaço".
Jozefina também ajudou-a nos cuidados do machucado.
Embora seus joelhos calejados volta e meia tornem a sangrar. E só ela vê.
terça-feira, setembro 11
Psicologia de um vencido
(Sem mais...)
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Augusto dos Anjos
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Augusto dos Anjos
segunda-feira, agosto 27
Da inutilidade
Os cães brincam e guardam
Os pássaros cantam
as borboletas colorem
as formigas trabalham
as galinhas dão alimento
os ratos alimentam os gatos
os papagaios repetem
os gatos acarinham
os golfinhos encantam
as flores perfumam
os cactos enfeitam
Mas tu, ó infame, és inútil!
Os pássaros cantam
as borboletas colorem
as formigas trabalham
as galinhas dão alimento
os ratos alimentam os gatos
os papagaios repetem
os gatos acarinham
os golfinhos encantam
as flores perfumam
os cactos enfeitam
Mas tu, ó infame, és inútil!
domingo, julho 29
ca os
palavras desordem
interior igual sentir
explosão querer estilhaços desintegrar
voar, chão pousar
descansar
interior igual sentir
explosão querer estilhaços desintegrar
voar, chão pousar
descansar
sexta-feira, julho 6
Sobre "perder"
Se existe um verbo que concentra tudo o que de mais nefasto pode existir nesta vida e em todas as vidas possíveis, é o verbo perder.
A experiência de perder faz-nos conhecer os becos mais escuros, os mais inóspitos lugares da alma humana. Existem perdas de variadas dimensões: perde-se o ônibus, perde-se o anel, perde-se a fome, perde-se o voo, perde-se o grande amor, perde-se o emprego, perde-se a saúde, perde-se o bebê, perde-se a calma, perde-se a avó, perde-se o chinelo, perde-se a alegria, perde-se o campeonato, perde-se o sono, perde-se a motivação, perde-se a prova, perde-se o celular, perde-se a esperança. A dor de uma perda pode durar alguns instantes, como quando se perde o chinelo, pode durar uma noite, como quando se perde o sono, pode durar duas semanas, como quando se perde o emprego, ou pode durar a vida inteira, se se perde o sentido.
Há muitas filosofias sobre as perdas, algumas deveras plausíveis. Diz-se que elas favorecem o amadurecimento, criam as condições para futuros ganhos e afinam o indivíduo para os altos e baixos do correr da vida. Não parecem assertivas falsas. No entanto, tão acertada quanto, é a constatação de que, quem menos perde, mais se alegra. Talvez não se trate de uma conta de somar, e sim de uma equação mais complexa, mas ninguém há de negar que dores sobre dores têm o poder de apagar aos pouquinhos as velinhas que formam o candeeiro da alma.
Em outras palavras, arrisco afirmar que uma existência pode ser medida pela frequência e pela intensidade das perdas que experimenta.
E eu nem estou falando da copa.
A experiência de perder faz-nos conhecer os becos mais escuros, os mais inóspitos lugares da alma humana. Existem perdas de variadas dimensões: perde-se o ônibus, perde-se o anel, perde-se a fome, perde-se o voo, perde-se o grande amor, perde-se o emprego, perde-se a saúde, perde-se o bebê, perde-se a calma, perde-se a avó, perde-se o chinelo, perde-se a alegria, perde-se o campeonato, perde-se o sono, perde-se a motivação, perde-se a prova, perde-se o celular, perde-se a esperança. A dor de uma perda pode durar alguns instantes, como quando se perde o chinelo, pode durar uma noite, como quando se perde o sono, pode durar duas semanas, como quando se perde o emprego, ou pode durar a vida inteira, se se perde o sentido.
Há muitas filosofias sobre as perdas, algumas deveras plausíveis. Diz-se que elas favorecem o amadurecimento, criam as condições para futuros ganhos e afinam o indivíduo para os altos e baixos do correr da vida. Não parecem assertivas falsas. No entanto, tão acertada quanto, é a constatação de que, quem menos perde, mais se alegra. Talvez não se trate de uma conta de somar, e sim de uma equação mais complexa, mas ninguém há de negar que dores sobre dores têm o poder de apagar aos pouquinhos as velinhas que formam o candeeiro da alma.
Em outras palavras, arrisco afirmar que uma existência pode ser medida pela frequência e pela intensidade das perdas que experimenta.
E eu nem estou falando da copa.
domingo, junho 24
De estrangeiros e bagagens
Mire-o.
Ei-lo a espreitar a rua, estrangeiro e só. Vigilante dos próprios passos, caminha vacilante: pés cansados, olhos brilhantes, ouvidos atentos. Pergunta informação a nativo transeunte de destino seguro para repousar a bagagem, mas não se fez comunicação - a língua estranha.
Como chegara a terra distante não responde o "sem lugar". Memória tinha, e vestes limpas. Adentra um bar, pessoas risonhas a comer e beber seriam boas informantes, cogitou, Mas, distraídas, sequer notaram a presença do semelhante. "Há, neste solo, sorrisos e amigos", pensou, animando-se, contagiado pelo vivo cenário de celebração da vida. Observa-os por mais alguns instantes e sai, novamente a perambular. Ao longe, um senhor uniformizado espreita, por ofício, o cotidiano da população. Caminha em direção deste, esperançoso. Lê no olhar do senhor de uniforme confusão e desconfiança diante do estranho. Com gestos e mímicas comunica, enfim, ao guarda o seu desejo: lugar seguro para repousar a bagagem. Não respondendo de imediato, quis o guarda saber informação detalhada de procedência sua para lugar distante. Poucos minutos de contato gestual e despediram-se a sorrir com cumprimentos de amistosa familiaridade. Segue o estrangeiro o caminho indicado pelo de uniforme.
Levou algum tempo para entender que fora conduzido a penitenciária com ordem de prisão e tortura. Não mais teria notícias do paradeiro de sua bagagem.
Ei-lo a espreitar a rua, estrangeiro e só. Vigilante dos próprios passos, caminha vacilante: pés cansados, olhos brilhantes, ouvidos atentos. Pergunta informação a nativo transeunte de destino seguro para repousar a bagagem, mas não se fez comunicação - a língua estranha.
Como chegara a terra distante não responde o "sem lugar". Memória tinha, e vestes limpas. Adentra um bar, pessoas risonhas a comer e beber seriam boas informantes, cogitou, Mas, distraídas, sequer notaram a presença do semelhante. "Há, neste solo, sorrisos e amigos", pensou, animando-se, contagiado pelo vivo cenário de celebração da vida. Observa-os por mais alguns instantes e sai, novamente a perambular. Ao longe, um senhor uniformizado espreita, por ofício, o cotidiano da população. Caminha em direção deste, esperançoso. Lê no olhar do senhor de uniforme confusão e desconfiança diante do estranho. Com gestos e mímicas comunica, enfim, ao guarda o seu desejo: lugar seguro para repousar a bagagem. Não respondendo de imediato, quis o guarda saber informação detalhada de procedência sua para lugar distante. Poucos minutos de contato gestual e despediram-se a sorrir com cumprimentos de amistosa familiaridade. Segue o estrangeiro o caminho indicado pelo de uniforme.
Levou algum tempo para entender que fora conduzido a penitenciária com ordem de prisão e tortura. Não mais teria notícias do paradeiro de sua bagagem.
domingo, maio 13
In memoriam
In memoriam o abraço dos segundos domingos de maio. (E dos primeiros, terceiros e todos; sábados e -feiras; outono, julho e verão).
In memoriam o cheiro, a graça, a alegria.
In memoriam a voz, o afeto.
In memoriam o rosto, os cabelos, a cor.
O tato in memoriam
In praesentia, a memória.
quarta-feira, fevereiro 28
Os quintais de cada um
Quando se olha, só se vê seu rosto, inexpressivo ou cansado; seus passos, apressados ou incrédulos; seu olhar, solar ou nublado.
Ninguém pode saber em quais mares deságuam os rios alheios.
Perpétuo silêncio.
Ela ajunta guarnição e víveres. Tece dia e noite: não canta. Planta e rega.
Possui um jardim?
...
No quintal de sua alma, um cemitério de sonhos, mortos tragicamente.
Ninguém pode saber em quais mares deságuam os rios alheios.
Perpétuo silêncio.
Ela ajunta guarnição e víveres. Tece dia e noite: não canta. Planta e rega.
Possui um jardim?
...
No quintal de sua alma, um cemitério de sonhos, mortos tragicamente.
segunda-feira, fevereiro 19
Enterro póstumo
Tinha cheiro de flor viçosa que balança à brisa fresca logo após o rebento. Embelezava as manhãs e enchia de vida as tardes.
Um dia foi colhida para pôr-se ao pé de um defunto. Ali, não perfumou.
Caiu em terra seca por entre pedras. Foi pisada, chutada, atropelada e perdeu algumas pétalas. Amarelou-se, murchou.
Capturada, ganhou um vaso, água e brisa. Entanto, não rebenta. Não embeleza as manhãs, nem enche de vida as tardes.
Aguarda, sem viço, o dia em que lhe joguem terra.
Um dia foi colhida para pôr-se ao pé de um defunto. Ali, não perfumou.
Caiu em terra seca por entre pedras. Foi pisada, chutada, atropelada e perdeu algumas pétalas. Amarelou-se, murchou.
Capturada, ganhou um vaso, água e brisa. Entanto, não rebenta. Não embeleza as manhãs, nem enche de vida as tardes.
Aguarda, sem viço, o dia em que lhe joguem terra.
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