Alice tinha um gato que era um grude. Não desgrudava de seus passos. Por duas vezes fugiu de casa, para desconsolo da pobre menina. Não se sabe por quais razões o gatinho preterira o colo da menina em busca de outros aconchegos. Depois do retorno da segunda fuga, Alice prometera para o felino travesso que não mais o quereria como seu, tamanho era o mahucado no seu coração criança. De castigo ao fugitivo só comida e leite, nada de afagos e passeios. Mas quem disse que a menina resistiria por muito tempo impor o regime restritivo de afetos para com o gato? Se o gato titubeava nos modos de amar a menina, esta por ele transbordava de bem querer. Os castigos, puro instinto de autodefesa na intenção de evitar novas frustrações. Mais tempo, menos tempo, estavam os dois novamente entrelaçados, na praça, na rua, no parque.
Pobre menina! De quem já fugira duas vezes, seria razoável esperar que novamente o fizesse! Pois Alice dessa vez estava esperta. Decidiu encoleirar o bicho. Nos primeiros instantes, Noveludo demonstrou indiferença ao acessório. Brincou tranquilo e contente com a menina, parecendo satisfeito com a coleira cor do céu. Mas não demorou para que o bichano começasse a intentar modos de se livrar do objeto aprisionador. Alice observava tristonha, e seu coração, gato molhado, já começava a adivinhar os pensamentos ocultos do felino. A menina estava tendo certeza que o gato fugiria mais uma vez. Silenciou, ensimesmou-se, e ficou a espreitar cada movimento do animal, de dia e de noite. As horas em que ele dormia, as horas em que acordava, a quantidade de vezes que a procurava para brincar entre uma refeição e outra...tudo foi anotando no fichário machucado do seu peito que transbordava de bem querer. Qualquer dia, amanheceria novamente só.
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