Páginas

Visualizações de páginas da semana passada

terça-feira, março 10

Das certezas

Rs...
Mas ora veja!...
Eu sou eu e "nicuri" é coco!

segunda-feira, março 9

Rosto 1

E ela percebeu também que havia situações em que o rosto assumia uma forma tão incisiva que a máscara não conseguia adequar-se a ele perfeitamente: a forma do rosto comprometia a moldura da máscara. Nesses instantes, era preciso muito esforço para continuar não sendo.

domingo, março 8

Rosto

Num dia qualquer, ela decidiu comprar uma máscara de alegria. Escolheu uma bem parecida com a sua cara de antes, de modo que aparentasse o mais possível com um rosto real. Vestiu-a e saiu. Foi um sucesso. Todos a cumprimentaram igualmente alegres. E, o mais importante, ninguém notou o artifício. Passaria então a usá-la diariamente. Estava resolvido seu impasse com o mundo lá fora. Contudo, a máscara lhe incomodava, deveras. Não conseguia mantê-la enquanto estava fora da vista do público: o artifício lhe caía aos pés bastava que estivesse só consigo mesma. E a verdade da vida lhe fazia de novo chover.

domingo, março 1

O benfeitor

Ela estava sentada à beira da linha do trem chorando copiosamente. Não sabia como viveria seus dias com aquela mutilação. Perdera o braço direito num acidente terrível! Antes houvesse perdido a vida, pensava no silencioso abismo de sua solidão. Estava desconsolada e só.
Foi ali, diante da linha do trem, que o benfeitor a viu. Não lhe parecera que a moça estivesse cogitando o suicídio. Apesar da visível desesperança, audível a metros de distância pelos seus soluços cortantes, trazia o rosto sereno. O benfeitor se aproximou da moça oferecendo ajuda. Ela levantou o olhar desconfiado para mirá-lo. O seu aspecto pareceu à moça o de um homem sensato. Olhando distraidamente, até tinha um ar angelical. A moça resistiu até onde teve forças (que não eram tantas) antes de aceitar o auxílio do benfeitor. E ele cuidou dela com muito zelo. Por vezes, sentia que, nele, estava sendo restituído o braço direito que, desafortunadamente, perdera.
Certo dia, quando já se havia apagado todo e qualquer resquício de desconfiança do espírito da moça e ela dormia tranquilamente no regaço que ele amorosamente preparara, o benfeitor aproximou-se, silencioso. Olhou-a, sorriu e, resoluto, de um só golpe, decepou-lhe a mão esquerda.

quinta-feira, fevereiro 26

Elegia 1

Lembro-me de quando querias falar-me de coisas referentes à sua partida... Eu nunca quis dar ouvidos. Achava aquilo uma bobagem. Estaria tão distante isso! Coisa mais sem razão falar de morte! Mas mesmo sem querer, acabava ouvindo um ou outro comentário...

Custa-me ainda acreditar que partistes. Custa-me entender que sua ida devesse ser tão cedo. Sem que ao menos pudésseis embranquecer-lhe os cabelos ou surgir-lhe as mais visíveis marcas do tempo. Sem que ao menos vísseis os frutos dos teus frutos; sem que os ouvísseis doce e ternamente chamá-la de "vó"...

Inútil repetir minha incapacidade de compreender...

(150 dias)

segunda-feira, fevereiro 23

23 de fevereiro

Foi no dia 23 de fevereiro de 1980 que, perante Deus e a sociedade, minha mãe e meu pai disseram Sim ao projeto de compartilharem o espaço, o tempo, os amores e as dores. Graças a essa decisão, eu sou.
Eu já havia programado, no plano imaginário, uma comemoração especial para esses 35 anos de histórias, lutas, gostos, desgostos, benquerenças e malmequeres. Algo discreto, familiar, eles não gostam de alvoroço. No entanto, o correr da vida desenredou minha narrativa...

Quero dizer que... valeu muito a pena ter vindo ao mundo para morar com vocês. Eu não queria mesmo ter ido para outra casa, ter chorado em outros braços, ter aprendido outras coisas. Foi um enorme prazer aprender a ler o livro da vida através dos olhos, sorrisos e lágrimas, mãos, suor e afago de vocês... papis e mamis.
Sem mais.

sábado, fevereiro 14

Palavras, tamanhos e cores

À medida que crescemos e vamos descobrindo as diferentes faces da existência, algumas palavras vão mudando de significado no nosso dicionário.
Algumas se ampliam, ganham adornos e cores. Outras se estreitam, murcham, ficam cabisbaixas. Posso citar dois exemplos, um de distensão e um de encolhimento.
A palavra FELICIDADE. Antes era uma coisa grande, esplendorosa e colorida como cauda de pavão. Mas muito maior que a cauda do pavão! Era algo gigantesco, comparado a grandes montanhas, só que com asas, mobilidade, quase dançante. Agora, esse sentido encolheu. Felicidade se tornou coisa bem menos encantada. Também não é mais algo que se vá encontrar amanhã ou daqui a algumas horas ou quando conseguir realizar aquele sonho. Ela não é algo que se possa encontrar, ou que alguém possa trazer de presente, ou que a vida tenha que, por lei, legar a mim ou a você em algum momento da caminhada terrena. Felicidade pode nunca ser. Ou, consideram alguns mais otimistas (ou mais felizes. Ou, ainda, mais bem-aventurados), pode sempre ser. No final das contas, sempre cabe um quinhão de escolha do próprio sujeito. Uma decisão pessoal.
Agora, uma palavra que cresceu foi a palavra VIDA. A gente fala VIDA assim corriqueiramente, mas raramente se para, em algum momento, para refletir o que ela é. E, nesse aspecto, é inevitável refletir sobre vida sem que se lhe oponha à ideia de morte.
Pode parecer um raciocínio clichê (e é) afirmar que só se compreende o valor da vida quando se está diante do seu oposto. Uma pessoa que bebe e vai dirigir, por exemplo, ou que não usa o capacete na motocicleta tem uma noção bem diversa de vida que aquela que luta para curar uma doença. Que se submete a tratamentos rígidos e até dolorosos, usa medicamentos regularmente, abre mão de hábitos prazerosos, alimentares ou quaisquer outros, em vista de melhorias no estado clínico... Os primeiros querem viver a vida a todo vapor. Querem emoção, adrenalina, curtir tudo o que há, mesmo sabendo que a aventura pode custar caro. Os segundos só querem as condições suficientes para passar mais um tempo do lado de cá. Se questionados, uns e outros certamente afirmarão que a vida é boa. E que não querem deixá-la. A diferença é que, para os primeiros, ela é um manancial inesgotável; para os segundos, apenas uma gota. No bar, no encontro de amigos, no carnaval, a vida é uma festa: ela canta e dança. Num leito de hospital, a vida é uma corda bamba: ela geme e chora.
Tão gritante é a dicotomia do significado dessa palavra nessas duas diferentes situações, e é tão tênue a linha que separa a vida da morte, que nunca mais pronunciei a palavra VIDA com a mesma naturalidade de antes. VIDA é estar e ser. Morte é deixar de estar e - ao mesmo na dimensão material - deixar de ser. A ideia de VIDA cresce exponencialmente quando se pensa quão fatal e definitiva é a morte.
Cresceu. Cresceu e se pintou de um cinza um tanto tenebroso, autoritário. Eu estou com Guimarães Rosa quando diz que viver é muito perigoso... Nada de cores e danças e confetes. A tinta, a dança e os confetes quem cria é você, sou eu, se estivermos dispostos para tal. Na crua realidade, a vida é tão terrível quanto a morte.
Para torná-la suportável, levemos lápis de cor.

quinta-feira, fevereiro 12

Li em algum lugar algo que se referia à sutilíssima diferença entre os termos "colorido" e "dolorido".
Sacada certeira essa.
Onde não há cor, impera a dor.

terça-feira, fevereiro 10

Couraça

É preciso rasgar-se por dentro.
É preciso extirpar a pele que te reveste a carne, os ossos, as vísceras do sentir...
É preciso, em seguida, banhar-se no ácido da realidade nova,
a que te causa dor.
É preciso banhar-se na dor.
E permanecer de pé, doendo, até que venha nova pele.

Couraça.

domingo, fevereiro 8

Passam as horas, a terra completa a sua volta ao redor do seu eixo, a lua vem.
Na rua, passam as pessoas
a programação passando na tevê.
É domingo. A rotina semanal vai recomeçar.
Rugindo, no espaço oco do meu peito, uma saudade indomável!
que nunca vai passar.