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sexta-feira, outubro 14

Do amor que partiu



"Aquele jeito que você me olhou
Varreu meu pensamento
Todas as coisas saíram do chão
Eu me esqueci de tudo
Antes que eu me desse conta
Já era seu meu querer

Foi como o sol que desponta
Numa montanha dourada
Na terra do faz de conta
Pra me banhar de prazer"

Meu amor canino partiu.
E deixa partidos os corações dos que conviveram com ele os últimos sete anos. Não sabia que doía tanto...
Agora, reaprender a viver sem seus passinhos, sua teimosia, seu rabinho abanando, sua linguinha pra fora, suas patinhas na mesa, seus ciúmes, suas orelhinhas macias, seu medo de fogos e trovões, seu calcanhar intocável,sua sabedoria, sua doçura, seu dengo, seu olhar, suas cores.
Obrigada, filhotinho, pelo prazer da sua presença. Nós te amávamos muito...

quarta-feira, outubro 12

Do amor que ameaça partir

Meu amor canino está parando de viver...

Como é angustiante ver meu cachorrinho recusando todo e qualquer tipo de alimento. Coisas pelas quais ele fazia grande festa só por sentir o cheiro...agora o são indiferentes. Olha, cheira e dá as costas. Por que meu bichinho está desistindo de viver?

Essa criaturinha colorida veio pra minha vida sem que eu planejasse. Sequer desejei um dia ter cachorro. Mas quando pus os olhos nele pela primeira vez, não foram suas orelhas longas e caídas, nem seu rabo comprido, branco e erguido que me chamaram atenção. Fiquei encantada com a estampa da sua pelagem: preto, branco e dourado. Nunca havia visto um beagle. Analisado-o melhor, percebi que seu olhar era doce e inocente. Não parecia uma fera, e sim um ser frágil, como uma criança. E ele veio morar comigo.

Não dava nenhum trabalho. Não fazia barulho, não comia calçados, fazia as necessidades fisiológicas apenas nos locais apropriados, não espantava visitas, não subia nos móveis...Coloquei os verbos no passado porque esse comportamento irrepreensível não permaneceu por muito tempo. Depois veio a fase de fazer barulhos, de querer ir ao quintal várias vezes na madrugada, de subir nas camas, de morder os donos... Creia, Aquiles nunca mordeu nenhum estranho, mas aos donos, sim. Ocorre que ele, apesar de doce, tem personalidade forte. Tem as coisas de que ele gosta e as coisas de que ele não gosta; as coisas que ele deixa (que façamos nele), e as coisas que... melhor deixar ele em paz.
A minha primeira mordida eu ganhei quando, não resistindo a tamanha delícia, tasquei-lhe um beijo na bochecha. Entendi o recado. Ele não gostava de excessos de carinhos. A segunda e última mordida foi quando tentei fazer uma foto daquela carinha linda bem de pertinho. (Só depois aprendi que existe um recurso no celular chamado "zoom"!) Ele estava de olhos fechados, mas quando sentiu que tinha algo bem perto do seu rosto... atacou. Foi mais barulho do que mordida, na verdade, mas o susto valeu por ambos. Tudo bem. Saquei que meu amorzinho era chato. Que eu não poderia manifestar calorosamente minha paixão. Bem dizem que nada é perfeito.
Os anos passando e essa vidinha cada dia mais incrustando na minha. As patinhas na mesa pedindo comida, o rabinho balançando, o latido rouco quando algum outro cão se aproxima da casa, a cabecinha inclinada pro lado quando está observando os movimentos de alguém... Nenhum cachorro no mundo inclina a cabeça pro lado tão lindamente como ele. É lindo, meu cachorro. Um príncipe. Um gato.

Pois, meu cachorro-gato está-me dando a sensação de que vou perdê-lo a qualquer momento. Sim, eu sabia que acontecerá algum dia. Mas... que coração está preparado para perder um amor?

Vejo-o hoje magro, cabisbaixo, vítima de uma cruel bactéria que amarelou suas mucosas, tirou completamente sua fome, tornou lento seus passos... Está tomando injeções para matar o mal. Mas sinto que meu bebê morre um pouquinho a cada aplicação. Chora, grita, sofre... Uma existência tão inofensiva... não devia ter que sofrer...

Eu quero muito que meu filhote fique bom. Que volte a ter fome, ganhe o peso que perdeu, fique de novo disposto, forte, esbelto, que morra esse mal que o acometeu. Eu quero muito continuar tendo suas cores nos meus dias, já tão cinzentos.
Fique bonzinho, Coração!... Mamãe ama você!

segunda-feira, setembro 26

Dois anos de saudades

Uma das perspectivas de ver a morte é entendê-la como o início de uma vida nova.
Assim como se vive primeiramente a vida uterina, que é uma preparação para a vida do lado de fora, os anos que passamos por aqui são uma preparação para uma outra realidade. Logo, a morte seria um re-nascimento. Um nascer para uma dimensão nova.
Hoje, completando dois anos da passagem de mainha, renovo o meu desejo de que sua nova morada seja imensamente melhor. Que tenha luz, paz e a esplendorosa presença de Deus. Que tenham ficado neste plano todas as dores e prantos. E que continue, de lá, a olhar e cuidar dos seus.
Enquanto eu respirar estarei sentindo saudades.

segunda-feira, agosto 15

Segundo domingo de agosto

Segundo domingo de agosto, dia daqueles dos quais procedemos.

Quando eu era pequena ficava curiosa pra saber em que lugar eu ficaria caso não tivesse virado pessoa. Dentre muitas maneiras que os adultos usavam para dar a mesma explicação, uma delas me fez passar um bom tempo pensando que as pessoas só são pessoas por causa do pai; porque "somos o resultado de uma semente que o papai coloca na mamãe". A ideia do Pai se agigantou de tal forma na minha imaginação infantil... ganhando uma dimensão quase sobrehumana!
E, a pensar direitinho, não é diferente. Não pela mera circunstância de possibilitar a concepção (a parte mais fugaz), mas pela sua responsabilidade de fazer crescer essa semente que dele brotou. Crescer no aspecto físico, orgânico, se pensarmos na figura do pai como o provedor da família (embora essas delimitações de papéis no interior da família estejam cada vez mais híbridas), mas também crescer no aspecto humano, moral, pessoal. A criança há de aprender do modelo do pai; do modo como ele trata a mãe e as pessoas do mesmo círculo, das coisas que ele cultiva, que ama, que valoriza; do jeito de pensar e conduzir a sua vida própria e a vida da família. Nasce um pai quando se concebe um embrião, mas a tarefa de pai se consolida dia após dia, nas circunstâncias cotidianas dos anos de convivência que tiverem juntos.
O filho procede do pai não somente porque carrega deste uma carga genética; ele procede do seu pai porque aprende dele, de suas palavras e exemplos (bons e maus) a ser um no mundo.
A estes, que têm a missão de ser precedentes de pessoas, luz e sabedoria.

Ao meu pai amado, único motivo, hoje, que me faz querer ficar viva, abundância de saúde, física, psíquica e espiritual, bênçãos e graças celestiais e alegrias ao lado dos seus. Imenso amor por esse homem de quem derivo.

sábado, julho 30

Da presença dela em mim

Amanhã, dia 31, seria o 67º aniversário de minha mãe. E no último dia 26 foi o 21º mês de sua partida.

A assimilação da ausência é um processo interminável. Acontece a cada manhã, após acordar de um sonho em que ela estava presente; ao olhar para o calendário e perceber que se aproximam datas queridas; ao precisar de um coração para escutar meus "ais" e meus cânticos.

A assimilação da ausência se dá aos pedaços. Um pouquinho a cada amanhecer. Com gotas de realce a cada anoitecer.
Mas como é presente essa ausência... Em muitos momentos parece que o ser dela se fundiu ao meu, e agora vivemos uma alma unida, una.

Como recordo do seu modo de ver, de julgar, de sentir e de pensar. Como me vejo retratando, refazendo, revivendo seus traços...
Como está viva... de dia e de noite, no sono e na vigília.

Tão dentro de mim... tão longe daqui...

terça-feira, junho 21

Part(idas)

E assim se vai partido o meu ano ao meio, a estação das sombras está a chegar.
Tal qual partidas vão esperanças...
taciturnos olhares lançados ao sempre desconhecido porvir.

terça-feira, maio 31

Que seja maio

Já se despede o mês da delicadeza.

Foram dias de semeadura intensa no meu pomar. Dias e noites com as sementes nas mãos, nos olhos, no querer.

Que faça a chuva necessária para fazer brotar os frutos que tenho almejado. E que sejam doces como um despertar de orvalho e sol, como os de maio.

segunda-feira, março 28

Confissão à primeira Lua Cheia do outono

É noite, e estás plena.
Senhora e majestade do céu pontilhado de luz.
Daqui te vejo, só e despida. Serva, súdita, sem lume, vazia.
Nas mãos, feridas; nos pés, poeira; no peito, desejo; nos olhos, clamor:
- Que eu um dia plena te veja, Lua primeira. Que veja em tua luz a minha a cintilar. Na tua majestade a do meu peito trono. Na tua beleza a dos meus passos. Não mais seja contraste a nossa condição. Vede, Lua primeira, quanta graça, quanto encanto trazes. E como nos parece prazenteira. Vede pois que não sois só, ó Lua inteira, mas sois de todo do rei astro hospedeira, receptora de real grandeza. Quero ser como tu, ó Lua,
inteira.

quarta-feira, março 23

Azul

Quero a palavra única, a síntese, a conclusão.
Quero a explicação justa, o golpe certo, o alvo.
Quero a resolução exata das crises, a cura dos crimes (não) cometidos por meus pés.
Quero, somente e todo, o azul,
para acalentar as sucessivas estações inóspitas.

sexta-feira, fevereiro 12

12 de fevereiro



Se minha avó estivesse aqui, faria hoje 90 anos.
Motivo de uma festa e tanta!Certamente os filhos e netos estariam preparando um encontro com muitos abraços, afagos e risos. Mas minha avó não está entre nós há quase 11 anos. Partiu cedo, rápido...
Não faço ideia de como seja a vida além daqui, mas desde que minha avó se foi, fico tentando imaginar a outra dimensão de muitos modos. Será que lá as pessoas continuam comemorando aniversários? Acho que não... Acho que lá é tão plenamente bom que não existem dias mais felizes que outros. Agora, a sua filha primeira também já está nesse outro plano. E como eu desejo que estejam juntas, tranquilas...
Deus, que as mulheres da minha vida estejam em paz, iluminadas pela perpétua luz.