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segunda-feira, agosto 15

Segundo domingo de agosto

Segundo domingo de agosto, dia daqueles dos quais procedemos.

Quando eu era pequena ficava curiosa pra saber em que lugar eu ficaria caso não tivesse virado pessoa. Dentre muitas maneiras que os adultos usavam para dar a mesma explicação, uma delas me fez passar um bom tempo pensando que as pessoas só são pessoas por causa do pai; porque "somos o resultado de uma semente que o papai coloca na mamãe". A ideia do Pai se agigantou de tal forma na minha imaginação infantil... ganhando uma dimensão quase sobrehumana!
E, a pensar direitinho, não é diferente. Não pela mera circunstância de possibilitar a concepção (a parte mais fugaz), mas pela sua responsabilidade de fazer crescer essa semente que dele brotou. Crescer no aspecto físico, orgânico, se pensarmos na figura do pai como o provedor da família (embora essas delimitações de papéis no interior da família estejam cada vez mais híbridas), mas também crescer no aspecto humano, moral, pessoal. A criança há de aprender do modelo do pai; do modo como ele trata a mãe e as pessoas do mesmo círculo, das coisas que ele cultiva, que ama, que valoriza; do jeito de pensar e conduzir a sua vida própria e a vida da família. Nasce um pai quando se concebe um embrião, mas a tarefa de pai se consolida dia após dia, nas circunstâncias cotidianas dos anos de convivência que tiverem juntos.
O filho procede do pai não somente porque carrega deste uma carga genética; ele procede do seu pai porque aprende dele, de suas palavras e exemplos (bons e maus) a ser um no mundo.
A estes, que têm a missão de ser precedentes de pessoas, luz e sabedoria.

Ao meu pai amado, único motivo, hoje, que me faz querer ficar viva, abundância de saúde, física, psíquica e espiritual, bênçãos e graças celestiais e alegrias ao lado dos seus. Imenso amor por esse homem de quem derivo.

sábado, julho 30

Da presença dela em mim

Amanhã, dia 31, seria o 67º aniversário de minha mãe. E no último dia 26 foi o 21º mês de sua partida.

A assimilação da ausência é um processo interminável. Acontece a cada manhã, após acordar de um sonho em que ela estava presente; ao olhar para o calendário e perceber que se aproximam datas queridas; ao precisar de um coração para escutar meus "ais" e meus cânticos.

A assimilação da ausência se dá aos pedaços. Um pouquinho a cada amanhecer. Com gotas de realce a cada anoitecer.
Mas como é presente essa ausência... Em muitos momentos parece que o ser dela se fundiu ao meu, e agora vivemos uma alma unida, una.

Como recordo do seu modo de ver, de julgar, de sentir e de pensar. Como me vejo retratando, refazendo, revivendo seus traços...
Como está viva... de dia e de noite, no sono e na vigília.

Tão dentro de mim... tão longe daqui...

terça-feira, junho 21

Part(idas)

E assim se vai partido o meu ano ao meio, a estação das sombras está a chegar.
Tal qual partidas vão esperanças...
taciturnos olhares lançados ao sempre desconhecido porvir.

terça-feira, maio 31

Que seja maio

Já se despede o mês da delicadeza.

Foram dias de semeadura intensa no meu pomar. Dias e noites com as sementes nas mãos, nos olhos, no querer.

Que faça a chuva necessária para fazer brotar os frutos que tenho almejado. E que sejam doces como um despertar de orvalho e sol, como os de maio.

segunda-feira, março 28

Confissão à primeira Lua Cheia do outono

É noite, e estás plena.
Senhora e majestade do céu pontilhado de luz.
Daqui te vejo, só e despida. Serva, súdita, sem lume, vazia.
Nas mãos, feridas; nos pés, poeira; no peito, desejo; nos olhos, clamor:
- Que eu um dia plena te veja, Lua primeira. Que veja em tua luz a minha a cintilar. Na tua majestade a do meu peito trono. Na tua beleza a dos meus passos. Não mais seja contraste a nossa condição. Vede, Lua primeira, quanta graça, quanto encanto trazes. E como nos parece prazenteira. Vede pois que não sois só, ó Lua inteira, mas sois de todo do rei astro hospedeira, receptora de real grandeza. Quero ser como tu, ó Lua,
inteira.

quarta-feira, março 23

Azul

Quero a palavra única, a síntese, a conclusão.
Quero a explicação justa, o golpe certo, o alvo.
Quero a resolução exata das crises, a cura dos crimes (não) cometidos por meus pés.
Quero, somente e todo, o azul,
para acalentar as sucessivas estações inóspitas.

sexta-feira, fevereiro 12

12 de fevereiro



Se minha avó estivesse aqui, faria hoje 90 anos.
Motivo de uma festa e tanta!Certamente os filhos e netos estariam preparando um encontro com muitos abraços, afagos e risos. Mas minha avó não está entre nós há quase 11 anos. Partiu cedo, rápido...
Não faço ideia de como seja a vida além daqui, mas desde que minha avó se foi, fico tentando imaginar a outra dimensão de muitos modos. Será que lá as pessoas continuam comemorando aniversários? Acho que não... Acho que lá é tão plenamente bom que não existem dias mais felizes que outros. Agora, a sua filha primeira também já está nesse outro plano. E como eu desejo que estejam juntas, tranquilas...
Deus, que as mulheres da minha vida estejam em paz, iluminadas pela perpétua luz.

sábado, janeiro 9

"Perdi o bonde e a esperança/ volto pálido para casa"


Mas não foi só um bonde perdido. Foram as muitas águas, que arrastaram sonhos em suas correntezas;
foi a ausência de água, deixando a sede de um futuro adiado;

Não foi só um bonde perdido, foi o sono, socorro único dos pouco validos;o desejo de fazê-lo confundir-se com a realidade crua e cruel de todos os dias;

Não foi somente um bonde perdido, foram dias e noites passados e futuros;

Quisera fosse apenas um bonde perdido... e o gosto do recomeço?

O bonde foi perdido. E também o cheiro de alecrim, o gosto de romã, o tato do amanhã.

Perdi o bonde... e a esperança?

Volta, pálida, para casa.

terça-feira, dezembro 1

Dezembro...


Envelheci uns DEZ anos nos últimos meses.
Lembranças de quando te recebias EM festa...
Sim, acredito que, das cinzas, o entusiasmo BROtará.

segunda-feira, novembro 23

Dos pássaros que faltam


Saíra cedo da cama para caçar passarinhos. Era essa sua atividade mais habitual. Tinha certa habilidade, de modo que contava já um número considerável de bonitos sabiás no seu pequenino pomar particular. Os sabiás eram seus pássaros prediletos. Por muito tempo dedicou-se somente à caça dessa espécie. Andava agora desejoso de um pássaro de penas azuis. Não era uma espécie rara, pois muitos o tinham pela redondeza, mas ele nunca conseguira aprisionar um pássaro azul. Animou-se todo, naquela manhã de sol, quando um deles pousou no seu alçapão. Reuniu os amigos todos para mostrar-lhes a novidade. O coração do menino pulou de alegria com a possibilidade daquela caça inédita. Enquanto o pássaro estava ali, pousado, fazia ele mil conjecturas de como narraria a façanha para os seus afetos. Pensou em como seria completo, agora, com um pássaro azul junto aos seus sabiás. Os amigos todos juntaram-se na torcida por aquele feito inédito do dedicado cuidador de passarinhos. A perspectiva animou a todos, que, interiormente, já comemoravam a grande façanha do dia. O passarinho pulou daqui, pulou dali, perscrutou o espaço, deixou-se ficar um pouco mais em cima do alçapão. Coisas de passarinhos. Toda caçada começa assim. No entanto, aquela era especial. Sentaram-se todos, guardando certa distância, silenciosos e atentos, observando os movimentos do visitante inesperado. De repente, num bater de asas decidido, o pássaro azul voltou para o galho da árvore. Para dali ganhar o infinito novamente. Os amigos do pequeno caçador sentiram neles próprios a frustração daquele desfecho infeliz. Uns baixaram a cabeça, sem palavras de encorajamento para o companheiro, outros tentaram distraí-lo com uma piada sem graça, outro ainda, bateu no seu ombro afirmando que aquele havia sido um prelúdio. E logo um pássaro azul pousaria no seu alçapão. Ele veria. Mas o menino, em tom de sabedoria e descrença, enquanto recolhia a armadilha, balbuciou:
- Não nasci para ter pássaros azuis. Amanhã volto para tentar mais um sabiá.
E, com passos rápidos e coração cansado, entrou no caminho de mato fechado de volta pra casa.