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quarta-feira, abril 1

Do amor e outras farsas

Hoje é primeiro de abril, mas não é (simplesmente) por isso que vou escrever este texto. Na verdade essa ideia já anda me cutucando há alguns dias...
Observando alguns fatos e algumas histórias ao meu redor, estive refletindo com meus botões... acho que nunca se amou tanto como se ama hoje. Acho também que o amor nunca foi semente tão fácil de brotar nos corações das pessoas de todas as idades e cabeças. E se ama tanto e tão intensamente, que, de repente, todos adquirem aura de poeta. E a vida se cobre de um imenso esplendor, pois o encontro com aquele ser, agora amado, foi a coisa mais iluminada que poderia ter acontecido na vida do amante. Não importa que ambos estejam no começo da vida, no despontar da juventude, é certo que o amor vai durar para sempre. Como nos velhos e bons contos de fadas. (Só que não).
Se tem um elemento que contribuiu enormemente para o crescimento dessa "cultura do amor", é a popularização das redes sociais. Se antes se amava assim, amava-se em particular, hoje ama-se para o grande público. E, desconfio eu, ama-se em função do público. Por isso é tão comum desfilarem escarlates e mui graciosas as declarações do mais puro e sincero amor, juras de afeição eterna, fotos de felicidades com legendas de citações filosóficas e trechos de Buarque, Jobim ou quem mais que cante o amor e suas belezuras. Há os que, por algum motivo, preferem a discrição, optam por esconder-se por detrás destes últimos, não revelando, a priori, rostos nem nomes. Mas eu cá fico me perguntando... as sementes do amor baratearam mesmo ou estão comprando gato por lebre? O amor virou fenômeno endêmico ou passaram a chamar pelo nome dele a outras sensações e sintomas?
Não vou negar que vejo certa graça nesse movimento febril de ver todas as pessoas amando e sendo amadas. Mas uma pulga por detrás de minha orelha direita faz-me pensar que muito do que se vê não passa de mera... invenção. Isso mesmo! É compreensível, diante de tamanhas revoluções acontecendo em ritmo frenético que os indivíduos desejem preencher as lacunas dos seus dias com emoções. Tudo anda tão modernizado, digitalizado, facilitado, robotizado, que as pessoas sentem falta de sentir. E aí, sem saber, começam a brincar de sentir.
Que crianças hoje em dia brincam na rua de baleado, sete pedrinhas, pular corda, elástico, fita, melancia, chicotinho queimado ou organizam aniversário de boneca? (No meu caso eu poderia citar também aniversário de coelhos. Tive uma coelha cinza de nome extravagante, Hanna Shara, cujo aniversário de um ano foi festejado com bolo, bolas e um discreto painel onde continha seu nome com letras cortadas em papel camurça. Na comemoração, além das pessoas da casa, as crianças vizinhas). As adolescentes ainda reúnem-se para fazer cozinhados, fazerem rifa para comprarem o mais novo CD do artista preferido, depois para ouvir e cantar em alto e bom som as músicas novas do artista preferido? Já não se experimentam mais essas sensações. A infância já não tem gosto da poeira da rua nem o ar fresco dos banhos de chuva, muito menos o doce sabor da fruta tirada astuciosamente do pé. E a adolescência deixou de ser a transição entre a infância e a idade adulta: foi suprimida. Aos doze anos vive-se e ama-se como se já tivesse dezesseis. E aos dezessete então... imagina-se já se ter atingido o ápice da experiência e da sabedoria da vida!
Quanta ilusão!
Pois bem, tanto tornou-se fácil o amar, como rápido o desamar. E aí, como explicar o paradoxo? Fico só observando como as pessoas têm facilidade de encontrar o grande amor de suas vidas, e estupefata da capacidade de o encontrarem várias vezes na vida! Chego a sentir-me injustiçada, pequena, desmoralizada, inferior mesmo! Eu que já conto uma boa quantia de verões e duvido ter dado de cara com ele uma vez sequer!... Mas se era amor, devia acabar? Tá, tudo bem, acaba, o que é que não acaba nessa vida besta!? Mas... se era amor, devia acabar tão rápido? Acabar por qualquer motivo? Pior, devia acabar tantas vezes? Bem, diante disso, deixo de me sentir inferior... ora!
O amor, minha gente, o Amor... o amor não é uma cara bonita, ou uma boca que beija direito, ou um corpo bronzeado ou uma companhia permanente. O amor não é também simplesmente oferecer um ombro para que o outro chore. Ou ir juntos a festas, bares, cafés, praias, cinema, enterro e trabalho. Amor não é falar horas e horas ao telefone (muito menos em tempos em que as telefonias oferecem todas as facilidades para tal), ou trocar mensagens vinte e quatro horas ao dia de todos os dias da semana. Amor não é a necessidade de estar ligado ao outro depois de um certo tempo de relacionamento. (A maconha e a cachaça causam esse mesmo efeito). Também não é dar presentes em aniversários, natais e páscoas. E quem disse que a atração pelo diferente é amor? E que altíssima sabedoria afirmou que a relação amorosa há de ser necessariamente de complementariedade? Então aquela história bonita de Aristófanes era verdadeira? Somos todos metades errantes à procura da nossa outra metade perdida? E se a minha outra metade, na hora da dispersão, tiver ficado lá na Europa?
Não, minha gente, Amor não é nada disso isoladamente! Mas, taí a chave do segredo: se você acredita que essas coisas aí citadas são Amor, elas serão. Se você pensa, acredita e até jura que ama porque apresenta algum desses sintomas, feliz amor pra você! Sim, eu entendo, existe uma necessidade de sentir emoções fortes. É possível que a sua vida esteja muito corrida, muito repetitiva, muito previsível, que mal há em inventar uma paixão? Por qual outro motivo suas pernas vão tremer, sua voz vai embargar, você vai suar frio se não por estar na presença do amor de sua vida? (Assalto não vale, o assaltante não vai te beijar e acariciar depois e ainda vai te deixar puto da vida sem celular).
Teria outra razão pra explicar os surtos de amor espalhados por aí? Alguma outra hipótese justifica tantos corações espalhados nos ares, nas paredes, nas telas de pcs e celulares? Se houver, gostaria de conhecer. Por enquanto vou ficando com essa minha convicção. Engane-se quem quiser! Cá comigo vou continuar achando que Amor... é algo um pouco mais embaixo.

quinta-feira, março 26

Elegia 2

Já se passaram duas estações, mas a marca da mais avessa das primaveras continua real. Forte e presente como um ontem tornado eterno.
Desde então, as ações de abrir os olhos nos amanheceres e fechá-los para o sono noturno, são acompanhadas do mesmo pensamento: terno, dolorido, revoltoso, inquiridor ou puramente saudoso.
E estar bem é uma boca que diz, um rosto que sorri.

(180 dias).

domingo, março 22

Da vocação

Lygia Fagundes Telles

Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o fervor mas uma certa dose de cólera: fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem muita ferida porque as pessoas estão bravas demais, até as mulheres que eram umas santas, lembram?
Costurar as feridas e amar os inimigos que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez chinês imprevisível?!... Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares, Não chores que a vida/ é luta renhida. Viver é lutar. Lutar com aquela expressão de criança que vai caçar borboleta, ah, como brilham os olhos de curiosidade. Sei que as borboletas andam raras mas se sairmos certos de que vamos encontrar alguma... O importante é a intensidade do empenho nessa busca e em outras. Falhando, não culpar Deus oh! por que Ele me abandonou? Nós é que O abandonamos quando ficamos mornos. Quando a vocação para a vida começa a empalidecer e também nós, os delicados, os esvaídos. Aceitar o desafio da arte. Da loucura. Romper com a falsa harmonia, com o falso equilíbrio e assim, depois da morte - ainda intensos - seremos um fantasminha luminoso.

quarta-feira, março 18

Pra você, Lenna!


Qual será o critério que a vida utiliza para escolher as pessoas que vão estar do nosso lado nas aventuras mais marcantes, mais significativas, mais inesquecíveis...? Morar numa residência universitária é um experiência inenarrável (para usar um termo bem ao seu gosto). E se engana quem imagina que morar assim é simplesmente compartilhar o mesmo teto. Muito mais que isso, vivemos o desafio contínuo de dividir os poucos quilômetros quadrados de chão, olhar o lado de fora pela mesma janela, adiantar o banho pra dar lugar à outra que vai se atrasar, misturar os calçados e os centavos, emprestar o travesseiro e o ombro, escutar os risos e os soluços, comer na mesma panela de brigadeiro. Quando se vive assim tem-se mais que amizade. A vida em comum cria entre nós uma irmandade. Porque no meio tempo em que estamos cada uma de nós envolvidas com os livros, saberes e sabores dos nossos respectivos cursos, a todo o tempo estamos participando da vida uma da outra. E nos ajudando na busca da cura para as dores de barriga e para as dores de amor.
E como esquecer, Lenamíria, daquele seu despertador que despertava todo mundo menos você... ou do dia em que você resolveu ligar para todos os seus contatos enquanto trovejava forte e eu estremecia debaixo do lençol no canto do alto daquela cama... E pensa que é só isso? O que você me diz de acordar num sábado, na tranquilidade de sua casa, atender o telefone e ouvir a voz do outro lado noticiar que havia ocorrido um incêndio na residência. Sim, um incêndio! parece que não havia vítimas mas os danos materiais foram notáveis. Fiquei assustada! Sobressaltada, tentava fazer todas as perguntas ao mesmo tempo, quando você ri seu riso largo e confessa com toda a naturalidade do mundo: "foi mentira besta, só liguei pra falar com você"...
Mas nenhuma dessas astúcias se compara ao acontecido mais recente. Sabe o que é ouvir de uma amiga que ela está grávida? Nossa! Borboletas fizeram festa no meu estômago com essa notícia tão feliz. Mas Lenna não estava contente com a novidade... Segredou-me, no dia seguinte ao da revelação, que estava a providenciar o aborto. Desesperada quem ficou fui eu com essa possibilidade fatídica. Teria sido rejeitada pelo pai? Havia acontecido algo que ela não quis contar? Era preciso fazer algo para impedir, não seria justo! E juntei-me a Juli para conversarmos com o pai do bebê. Caberia a ele impedir aquela ação. Assim o fizemos. Mas o pai nem sabia da história do bebê. Ate porque o bebê que tanto me alegrou era só mais uma história fictícia...
É, Lenna, são tantas as histórias... Não caberiam num só post. E como toda relação de família, não são só capítulos felizes, provas de amizade e companheirismo. Como toda boa irmandade, birras, desavenças, contrariedades permearam e permeiam a nossa união. Até hoje fico meio triste quando vejo que você não está na minha foto de formatura. Por quê?... Mas tem nada não. Passados cinco anos, você estava na minha defesa de Mestrado! E como você me ajudou naquele dia, viu!...
Pois, o que verdadeiramente importa, é que continuamos nos querendo bem. E quando você some eu pergunto onde você estava, e quando eu não apareço você pergunta se estou bem. Importa mesmo é saber que, embora não mais dividindo o mesmo teto, continuamos participando das dores e delícias de nossas trajetórias. Saiba que estou aqui para vibrar pelas suas conquistas. E que quero sim estar no churrasco na piscina da sua casa, saber do seu novo amor, da sua promoção no emprego, seu carro, seu filho, suas viagens... Que a vida lhe dê muitos motivos para celebrar. Mas se ela não der tantos assim, crie-os! Feliz é quem tem coragem de ser assim.

sexta-feira, março 13

Vó: 10 anos




Meu primeiro contato direto com a morte foi há exatos dez anos, quando partiu a única avó que conheci.
Minha relação com vó era terna, como são os amores dos netos para com seus avós. Lembro-me que, bem pequena, todas as vezes que ia visitá-la com minha mãe eu levava um bombom. Eu, louca por doces desde que me sei, achava que aquela era a forma mais simples de deixar alguém feliz. A casa de minha avó tinha um quintal grande, com várias árvores. Quando a primarada estava reunida, nos divertíamos muito brincando no quintal. Mas eu sempre fui meio grande. Às vezes não participava das brincadeiras com as outras crianças para ajudar minha vó em alguma tarefa. Eu varria, lavava a louça, limpava o fogão, ajudava a fazer geladinho, arrumava o forro do sofá, pegava roupas do varal, dobrava-as... Acho que eu era a única das netas pequenas que se prestava a essas tarefas. Devo ter aprendido com mainha. Quando mainha chegava lá ia logo ajudar minha avó, principalmente nas tarefas mais pesadas. Só depois sentava para conversarem. Eu também gostava de pentear o cabelo de vó e de passar perfume no seu pescoço, quando ela tomava banho e sentava na sua cadeira em frente à televisão. Ela ria com meus gestos e agradecia. Eu não chamava vó de vó. Não sei por que motivo, eu e alguns outros primos nos habituamos a chamá-la somente pelo seu apelido: Lalu. Vó criava galinhas. Ela certamente gostava delas, mas não era essa a sensação que eu tinha. Vó vivia reclamando da ousadia das galinhas em querer invadir a casa, além de outras chateações que os bichos domésticos causam. Às vezes me incomodava o fato de aquelas galinhas serem tão chateadeiras e fazerem minha avó resmungar tanto, e eu aconselhava que ela não as quisesse mais. Mas ela sempre sorria e dizia que não. Eu entendi então que havia algum tipo de necessidade naquela relação conturbada.
Quando minha avó ficou doente, surgiu um impasse: alguns dos filhos achavam que ela deveria ser levada para Salvador, para ser internada e receber os devidos cuidados num hospital. Eu sabia que vó não queria ir. Eu ouvia, quando ela conversava com mainha, qual era opinião dela sobre hospitais. Mas ela sentia dores, e os remédios que estavam sendo administrados só funcionavam um pouquinho. Depois a dor voltava. Prepararam então tudo para levá-la. Eu nunca vou esquecer o olhar de minha avó, sentada em sua cadeira no quintal, no dia em que a levaram para o hospital. Naquele dia a casa ficou cheia de filhos e netos. Minha mãe auxiliou-a no banho, como estava sendo desde que vó começou a ficar frágil. Eu estava triste, porque sabia que ela não queria ir. Antes de sair, minha avó me chamou duas vezes. A casa estava cheia, mas ela pediu a mim dois favores: que a ajudasse a enxugar os pés, antes de calçar a sandália que usaria na viagem, e que pegasse no seu guarda-roupa um lencinho. Explicou-me minuciosamente onde estava guardado o lencinho, como um segredo.
O olhar que ela lançou à casa, já de dentro do carro, na hora de sair, foi igual ao olhar que eu havia notado horas antes, quando ela estava no quintal. Nós nos despedimos acenando e sorrindo, para que ela ficasse alegre. Observei que minha mãe ficou triste. Ela saiu do meio do grupo logo que o carro deu a partida. Estava arrepiada, e me parece que escondeu uma lágrima.
Não durou nem uma semana, recebemos a notícia de que vó havia partido. A cena do momento em que eu e minha mãe fomos avisadas da morte de vó ficou gravada em minha memória de tal forma, que eu não consigo lembrar sem que as lágrimas me voltem à face. Mainha sofreu muito a morte de vó. E eu sofri de dois jeitos: perder aquele elo único com a ascendência de meus pais; e testemunhar a dor de minha mãe por ver partir o seu porto seguro. Sim, mainha tinha esposo, filhos, irmãos, irmãs, amigas, tios e tias. Mas quando ela estava muito triste ou muito chateada ou muito preocupada, ela gostava de conversar era com vó. E depois que vó morreu, quando ela ficava muito triste, muito chateada ou muito preocupada, ela chorava, porque não tinha mais vó para conversar. Muitas vezes eu chorei escondido ao escutá-la dizer que estava sentindo "falta de mamãe". Eu imaginava que devia ser muito doloroso aquele sentimento...
Eu quero crer veementemente que mãe agora está perto de vó. Como eu queria que as duas estivessem perto de mim... A lacuna na minha vida é impreenchível! Mas, se mãe tiver perto de vó, eu vou me alegrar de um jeito: mãe tá feliz. E vó também. E o meu grande sonho, hoje, é um dia poder voltar a estar junto das duas.
Mulheres da minha vida, desejo que estejam bem! Digam a Deus do meu sonho de ir para perto de vocês... E me esperem.

quarta-feira, março 11

Escrevi um poema

Lygia Fagundes Telles

O menino de cara inchada entra na sala de espera e corre choramingando até a enfermeira, não está aguentando de dor, quer que o dentista arranque imediatamente esse miserável. A enfermeira faz uma expressão compungida e pergunta se não me importo de ceder minha hora para o menino. Com todo o prazer - respondo e saio para a rua. Estou leve, inspirada. Nenhum sentimento de culpa. Vou andando e pensando debaixo do sol. Dentes demais. Nervos demais. Num sistema dental assim complexo tem que haver mesmo os inconformados, os dissidentes. Mas a maioria ficou firme, fiel ao regime, até me comovo com tamanha disciplina. E este sol e este ar fino! Escrevo um poema no cartão da hora cancelada: Estou viva./Lúcida./E tirante os dissidentes/os dentes são meus.

terça-feira, março 10

Das certezas

Rs...
Mas ora veja!...
Eu sou eu e "nicuri" é coco!

segunda-feira, março 9

Rosto 1

E ela percebeu também que havia situações em que o rosto assumia uma forma tão incisiva que a máscara não conseguia adequar-se a ele perfeitamente: a forma do rosto comprometia a moldura da máscara. Nesses instantes, era preciso muito esforço para continuar não sendo.

domingo, março 8

Rosto

Num dia qualquer, ela decidiu comprar uma máscara de alegria. Escolheu uma bem parecida com a sua cara de antes, de modo que aparentasse o mais possível com um rosto real. Vestiu-a e saiu. Foi um sucesso. Todos a cumprimentaram igualmente alegres. E, o mais importante, ninguém notou o artifício. Passaria então a usá-la diariamente. Estava resolvido seu impasse com o mundo lá fora. Contudo, a máscara lhe incomodava, deveras. Não conseguia mantê-la enquanto estava fora da vista do público: o artifício lhe caía aos pés bastava que estivesse só consigo mesma. E a verdade da vida lhe fazia de novo chover.

domingo, março 1

O benfeitor

Ela estava sentada à beira da linha do trem chorando copiosamente. Não sabia como viveria seus dias com aquela mutilação. Perdera o braço direito num acidente terrível! Antes houvesse perdido a vida, pensava no silencioso abismo de sua solidão. Estava desconsolada e só.
Foi ali, diante da linha do trem, que o benfeitor a viu. Não lhe parecera que a moça estivesse cogitando o suicídio. Apesar da visível desesperança, audível a metros de distância pelos seus soluços cortantes, trazia o rosto sereno. O benfeitor se aproximou da moça oferecendo ajuda. Ela levantou o olhar desconfiado para mirá-lo. O seu aspecto pareceu à moça o de um homem sensato. Olhando distraidamente, até tinha um ar angelical. A moça resistiu até onde teve forças (que não eram tantas) antes de aceitar o auxílio do benfeitor. E ele cuidou dela com muito zelo. Por vezes, sentia que, nele, estava sendo restituído o braço direito que, desafortunadamente, perdera.
Certo dia, quando já se havia apagado todo e qualquer resquício de desconfiança do espírito da moça e ela dormia tranquilamente no regaço que ele amorosamente preparara, o benfeitor aproximou-se, silencioso. Olhou-a, sorriu e, resoluto, de um só golpe, decepou-lhe a mão esquerda.