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segunda-feira, novembro 16

O dia seguinte ao fim

Tenho dificuldade de encontrar um adjetivo que bem qualifique os eventos de campanha política e eleições municipais na minha cidade. A exacerbação de ânimos que envolve tais eventos talvez possa ser comparada à histeria em torno do futebol (outro fenômeno que margeia à minha compreensão), ou à euforia do carnaval. Quem sabe também à irreverência dos palcos de teatro. 

A cada quatro anos a população se divide em duas partes, que, nos últimos pleitos, passaram a identificar-se por meio de duas cores diferentes. Nessa repartição, vê-se de tudo: pai contra filho, filho contra mãe, marido contra esposa, irmãos uns contra os outros, namorados, tios e avós também pintados de cores opostas. É muito comum vizinhos brigarem, amigos se distanciarem, e até casais se separarem, mesmo que temporariamente.

Para o visitante casual, deve ser agradável à visão as casas enfeitadas com o auri-verde flamejante das bandeiras. Já o morador de todos os dias, entende bem que tais cores escondem sentimentos escusos, escuros, capazes de produzir tanto o hilário, como o ridículo (a depender do grau de sisudez do julgador), ambos, porém, inoportunos, tomando-se por princípio que política não é futebol (onde muito bem cabem as paixões), não é  carnaval (palco da insensatez), e muito menos circo (ou, pelo menos, não deveria). 

Fico imaginando a reação do Marechal da Fonseca caso pudesse ver o festival de sandice que gera o pleito eleitoral por aqui. O leitor que não é meu conterrâneo deve estar esperando que eu diga em letras claras o que, afinal, tão mal caracteriza a festa da democracia na minha terrinha. Ao pensar nisso, pondero questionando: será que o correr do tempo tem elevado o meu mau humor numa frequência acima do normal, fazendo-me tomar por idiotia e insanidade o que seria mera irreverência e criatividade?

Escrevo, pois, esse texto no dia seguinte ao pleito. Esse dia é marcado por uma intensíssima carga emocional, para uns celebrativa, para outros fúnebre. Os que perdem, além de lamentarem o fim do sonho de adquirir uma vaga na prefeitura (ou de mantê-la), lastimam a enxurrada de deboches que deverão amargar dos opositores; os que ganham, não sei se festejam mais a vitória do candidato ou a glória de poder mangar dos adversários até a afonia. E essa mistura de emoções em poucos metros quadrados, já viu né... cenário ideal para confusões, brigas e até, quem sabe, uma Pequena Guerra Municipal! Mas, ora, como não pensei nisso antes!... É disso que estou falando! Nessa guerrilha, as armas de fogo são os insultos, disparados ostensivamente, partindo de todos os lados. Não raro, algum eleitor mais sangue quente reage, e aí a coisa vai pro embate físico. Hoje, inclusive, ouvi rumores de ter havido tiros pra cima, facadas, garrafadas e pauladas. Pra você ver que a ideia da PGM não é hiperbólica.

Concluirei, portanto, narrando brevemente um pouco do que pude ver num espaço de uns trinta minutos de audiência à porta de minha casa. Não citarei o tão incômodo som do motor de motos, nem das buzinas de carros e nem dos fogos e paredões, pois estes fazem parte de eventos festivos em geral. Limito-me a citar duas das mais simbólicas referências que passearam nas ruas da cidade hoje: galos e laranjas. 

Os primeiros, vivos, carregados e exibidos por eleitores em carro aberto, as segundas, sendo insanamente atiçadas pelas ruas ou atiradas nas casas de eleitores do candidato perdedor. Isso sem citar as performances gratuitas a céu aberto, com direito a figurino próprio, coreografias e textos ensaiados. Cito alguns, só para matar a curiosidade do caro leitor: "Acabou!", "O bambu gemeu!", "É tudo da mãe!", "Pega, Major!" e o refrão do ano, "Vá deitar, cansado!". Claro, omiti as expressões (ainda mais) chulas. 

Pois então, deixo a você, caro leitor, a tarefa do julgamento. Diga-me, é normal a seres humanos (animais com telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor) em pleno uso das faculdades mentais, empenhar tanta energia simplesmente porque o candidato de sua preferência venceu o processo eleitoral? Na sua cidade também é assim? Não sei se você tem sequer uma vaga dimensão do que estou dizendo...mas, caso estejas à procura de corpus para estudo do comportamento humano em situações específicas, convido-te a visitar meu município no próximo pleito, e aqui permanecer até o dia seguinte ao fim. Se você não for sisudo, viverá dias de pura diversão.

segunda-feira, outubro 5

Metamorfoses

da prata, lata   

da flor, secura

no brilho, fissura

do vigor, paralisia

da astúcia, demência

da vida, pó

do amor, desprezo.

sexta-feira, agosto 14

A pedra preciosa

 Um homem, de nome Alfredo,  era conhecido num povoado por possuir uma pedra preciosa. E, de fato, ele não negava a quem o perguntasse. Diziam que era de grande valor mesmo, pois nem era pequena. Todos os dias ele cumpria o ritual de poli-la com uma flanela vermelha antiga  e deixá-la por alguns instantes exposta ao sol, abrindo a já desgastada caixa de sapatos onde a mantinha guardada. Era uma pedra azul, brilhante, de aparência mesmo bonita, diziam todos. Mesmo sem nunca terem visto. 

Como era um povoado distante onde viviam pessoas muito pacatas, não se corria tanto o risco de o seu proprietário ser morto para que a pedra fosse roubada. Mas, por via das dúvidas, diziam os moradores, que naquele saco que seu Alfredo carregava às costas, sempre estava, dentre suas ferramentas de trabalho, a pedra. 

Acontece que ninguém nunca vira o conteúdo no saco que seu Alfredo carregava.  

Volta e meia o questionavam porque não iria ele até a cidade para vender a pedra. Ele ganharia muito dinheiro, teria moradia digna, compraria gados, terras, igualzinho a seu Antônio, proprietário de grande parte das terras do povoado. Mas seu Alfredo era sempre resoluto na resposta: "Minha pedra só me levam de mim eu morto."

Conta-se que numa tarde, enquanto seu Alfredo descansava no seu casebre, um grupo de crianças curiosas intentaram um jeito de besbilhotar o interior da casa, a fim de verem a tal pedra azul. Seu Alfredo, bem humorado, achando graça na astúcia das crianças, teria mostrado a caixa para elas, que ficaram maravilhadas com a beleza da pedra. Mas como palavra de criança não costuma ter valia, ficou o dito pelo não dito.

Pois bem. O que não faz o passar do tempo ao mais intrépido dos mortais? 

De uma hora pra outra, seu Alfredo perdeu o gosto de polir e expor ao sol a pedra. Passou a ser uma ocupação enfadonha, desnecessária até. Também já não se via tanto zelo no trato da caixa que a guardava, tendo por vezes a deixado cair.

Numa manhã, bem cedo, seu Alfredo levantou inquieto. Pegou a caixa e depois de muito olhar a pedra, limpá-la e envolvê-la na velha flanela vermelha, saiu em seu passo lento de todos os dias, só que dessa vez levando a pedra consigo.

Será que enfim seu Alfredo resolvera ir à cidade vender a pedra para, com o dinheiro, comprar terras e gado? O que o teria levado a essa decisão? 

O velho caminhou num percurso diferente do habitual em direção à pracinha no centro do vilarejo. Chegando lá, pegou da caixa e depositou-a debaixo de uma amendoeira, sobre as ruínas de um banco de cimento, onde acomodavam-se idosos na hora da sesta, crianças à tarde, e jovens à noite. Depositou a caixa e saiu, em direção à casa. 

Que havia com seu Alfredo? Desvairou-se? Presssentia a própria morte? 

Não, não endoidou e nem morreu. Mora até hoje no mesmo endereço. Quanto à pedra, dessa ninguém mais teve notícia.


quarta-feira, agosto 12

Toque de recolher

Se fez silêncio, e o menino chora lá dentro. Não há ouvidos que o escutem, nem olhos que o vejam. Na casa escura, bem fechada, nada dá indícios da presença de um pobre menino solitário, todo machucado, que, quando consegue recobrar alguma força, geme de temor. 

Quem o libertará? quem saberá o que se passa em recinto fechado, distante de todos os demais recantos? 

o silêncio de fora faz o menino contorcer de dor. Não há pés que o procurem nem mãos que o encontrem, tudo é deserto.

Não se sabe por quanto tempo, mas... enquanto se fizer silêncio, ficará o menino lá, solitário, a gritar de pavor. 

terça-feira, agosto 11

Casal de pássaros

Eles estavam a construir um pomposo ninho em arvoredo alto e arejado. Trabalhavam incansáveis  numa admirável cumplicidade, alegres e esperançosos dos bons tempos que se anunciavam. Num dia qualquer, quando estavam prestes a fazerem morada no ninho novo, veio um vento forte, não sei de que parte, e levou o pássaro macho.  

sexta-feira, julho 31

Presente pretérito

O vento que fecha julho me fala de passados. 

 Seu som festivo ecoando de uma a outra direção a fazer bailarem as árvores ao seu musical zunido;

 seu gélido toque a clamar aconchego, varria para longe os temores e os pavores, 

 pois, diminutos, sumiam, todos, no abraço 

 dela.

segunda-feira, julho 27

Desnovelo

Alice tinha um gato que era um grude. Não desgrudava de seus passos. Por duas vezes fugiu de casa, para desconsolo da pobre menina. Não se sabe por quais razões o gatinho preterira o colo da menina em busca de outros aconchegos. Depois do retorno da segunda fuga, Alice prometera para o felino travesso que não mais o quereria como seu, tamanho era o mahucado no seu coração criança. De castigo ao fugitivo só comida e leite, nada de afagos e passeios. Mas quem disse que a menina resistiria por muito tempo impor o regime restritivo de afetos para com o gato? Se o gato titubeava nos modos de amar a menina, esta por ele transbordava de bem querer. Os castigos, puro instinto de autodefesa na intenção de evitar novas frustrações. Mais tempo, menos tempo, estavam os dois novamente entrelaçados, na praça, na rua, no parque.
Pobre menina! De quem já fugira duas vezes, seria razoável esperar que novamente o fizesse! Pois Alice dessa vez estava esperta. Decidiu encoleirar o bicho. Nos primeiros instantes, Noveludo demonstrou indiferença ao acessório. Brincou tranquilo e contente com a menina, parecendo satisfeito com a coleira cor do céu. Mas não demorou para que o bichano começasse a intentar modos de se livrar do objeto aprisionador. Alice observava tristonha, e seu coração, gato molhado, já começava a adivinhar os pensamentos ocultos do felino. A menina estava tendo certeza que o gato fugiria mais uma vez. Silenciou, ensimesmou-se, e ficou a espreitar cada movimento do animal, de dia e de noite. As horas em que ele dormia, as horas em que acordava, a quantidade de vezes que a procurava para brincar entre uma refeição e outra...tudo foi anotando no fichário machucado do seu peito que transbordava de bem querer. Qualquer dia, amanheceria novamente só.

domingo, fevereiro 23

23/02/2020

23/02/1980:
Dia em que principia a minha possibilidade de ser.
Bendito sejais por todos os anos.

sexta-feira, novembro 15

Um pingo de água caiu sobre a tela de sonhos verdes
que eu estava pintando:
Acinzentou-a.

quinta-feira, setembro 26

Vinte e seis de setembro

Oh, dia das minhas dores!...
Vi um sol envergonhado, escondido entre nuvens encabuladas, depois de uma noite de traidor descanso.
Vi por derradeira vez minha mãe, depositada em fria lâmina de recinto escuro.
Sozinha.
Abandonada por mim na sua hora mais agoniosa.
- Perdão que nunca me darei.

Oh, dia de minhas lágrimas!...
Inundação dos meus jardins.
Correntezas que levaram o brilho, a cor, o sentido.

Cinco primaveras sem flor.