Já se passaram duas estações, mas a marca da mais avessa das primaveras continua real. Forte e presente como um ontem tornado eterno.
Desde então, as ações de abrir os olhos nos amanheceres e fechá-los para o sono noturno, são acompanhadas do mesmo pensamento: terno, dolorido, revoltoso, inquiridor ou puramente saudoso.
E estar bem é uma boca que diz, um rosto que sorri.
(180 dias).
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quinta-feira, março 26
domingo, março 22
Da vocação
Lygia Fagundes Telles
Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o fervor mas uma certa dose de cólera: fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem muita ferida porque as pessoas estão bravas demais, até as mulheres que eram umas santas, lembram?
Costurar as feridas e amar os inimigos que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez chinês imprevisível?!... Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares, Não chores que a vida/ é luta renhida. Viver é lutar. Lutar com aquela expressão de criança que vai caçar borboleta, ah, como brilham os olhos de curiosidade. Sei que as borboletas andam raras mas se sairmos certos de que vamos encontrar alguma... O importante é a intensidade do empenho nessa busca e em outras. Falhando, não culpar Deus oh! por que Ele me abandonou? Nós é que O abandonamos quando ficamos mornos. Quando a vocação para a vida começa a empalidecer e também nós, os delicados, os esvaídos. Aceitar o desafio da arte. Da loucura. Romper com a falsa harmonia, com o falso equilíbrio e assim, depois da morte - ainda intensos - seremos um fantasminha luminoso.
Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o fervor mas uma certa dose de cólera: fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem muita ferida porque as pessoas estão bravas demais, até as mulheres que eram umas santas, lembram?
Costurar as feridas e amar os inimigos que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez chinês imprevisível?!... Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares, Não chores que a vida/ é luta renhida. Viver é lutar. Lutar com aquela expressão de criança que vai caçar borboleta, ah, como brilham os olhos de curiosidade. Sei que as borboletas andam raras mas se sairmos certos de que vamos encontrar alguma... O importante é a intensidade do empenho nessa busca e em outras. Falhando, não culpar Deus oh! por que Ele me abandonou? Nós é que O abandonamos quando ficamos mornos. Quando a vocação para a vida começa a empalidecer e também nós, os delicados, os esvaídos. Aceitar o desafio da arte. Da loucura. Romper com a falsa harmonia, com o falso equilíbrio e assim, depois da morte - ainda intensos - seremos um fantasminha luminoso.
quarta-feira, março 18
Pra você, Lenna!
Qual será o critério que a vida utiliza para escolher as pessoas que vão estar do nosso lado nas aventuras mais marcantes, mais significativas, mais inesquecíveis...? Morar numa residência universitária é um experiência inenarrável (para usar um termo bem ao seu gosto). E se engana quem imagina que morar assim é simplesmente compartilhar o mesmo teto. Muito mais que isso, vivemos o desafio contínuo de dividir os poucos quilômetros quadrados de chão, olhar o lado de fora pela mesma janela, adiantar o banho pra dar lugar à outra que vai se atrasar, misturar os calçados e os centavos, emprestar o travesseiro e o ombro, escutar os risos e os soluços, comer na mesma panela de brigadeiro. Quando se vive assim tem-se mais que amizade. A vida em comum cria entre nós uma irmandade. Porque no meio tempo em que estamos cada uma de nós envolvidas com os livros, saberes e sabores dos nossos respectivos cursos, a todo o tempo estamos participando da vida uma da outra. E nos ajudando na busca da cura para as dores de barriga e para as dores de amor.
E como esquecer, Lenamíria, daquele seu despertador que despertava todo mundo menos você... ou do dia em que você resolveu ligar para todos os seus contatos enquanto trovejava forte e eu estremecia debaixo do lençol no canto do alto daquela cama... E pensa que é só isso? O que você me diz de acordar num sábado, na tranquilidade de sua casa, atender o telefone e ouvir a voz do outro lado noticiar que havia ocorrido um incêndio na residência. Sim, um incêndio! parece que não havia vítimas mas os danos materiais foram notáveis. Fiquei assustada! Sobressaltada, tentava fazer todas as perguntas ao mesmo tempo, quando você ri seu riso largo e confessa com toda a naturalidade do mundo: "foi mentira besta, só liguei pra falar com você"...
Mas nenhuma dessas astúcias se compara ao acontecido mais recente. Sabe o que é ouvir de uma amiga que ela está grávida? Nossa! Borboletas fizeram festa no meu estômago com essa notícia tão feliz. Mas Lenna não estava contente com a novidade... Segredou-me, no dia seguinte ao da revelação, que estava a providenciar o aborto. Desesperada quem ficou fui eu com essa possibilidade fatídica. Teria sido rejeitada pelo pai? Havia acontecido algo que ela não quis contar? Era preciso fazer algo para impedir, não seria justo! E juntei-me a Juli para conversarmos com o pai do bebê. Caberia a ele impedir aquela ação. Assim o fizemos. Mas o pai nem sabia da história do bebê. Ate porque o bebê que tanto me alegrou era só mais uma história fictícia...
É, Lenna, são tantas as histórias... Não caberiam num só post. E como toda relação de família, não são só capítulos felizes, provas de amizade e companheirismo. Como toda boa irmandade, birras, desavenças, contrariedades permearam e permeiam a nossa união. Até hoje fico meio triste quando vejo que você não está na minha foto de formatura. Por quê?... Mas tem nada não. Passados cinco anos, você estava na minha defesa de Mestrado! E como você me ajudou naquele dia, viu!...
Pois, o que verdadeiramente importa, é que continuamos nos querendo bem. E quando você some eu pergunto onde você estava, e quando eu não apareço você pergunta se estou bem. Importa mesmo é saber que, embora não mais dividindo o mesmo teto, continuamos participando das dores e delícias de nossas trajetórias. Saiba que estou aqui para vibrar pelas suas conquistas. E que quero sim estar no churrasco na piscina da sua casa, saber do seu novo amor, da sua promoção no emprego, seu carro, seu filho, suas viagens... Que a vida lhe dê muitos motivos para celebrar. Mas se ela não der tantos assim, crie-os! Feliz é quem tem coragem de ser assim.
sexta-feira, março 13
Vó: 10 anos
Meu primeiro contato direto com a morte foi há exatos dez anos, quando partiu a única avó que conheci.
Minha relação com vó era terna, como são os amores dos netos para com seus avós. Lembro-me que, bem pequena, todas as vezes que ia visitá-la com minha mãe eu levava um bombom. Eu, louca por doces desde que me sei, achava que aquela era a forma mais simples de deixar alguém feliz. A casa de minha avó tinha um quintal grande, com várias árvores. Quando a primarada estava reunida, nos divertíamos muito brincando no quintal. Mas eu sempre fui meio grande. Às vezes não participava das brincadeiras com as outras crianças para ajudar minha vó em alguma tarefa. Eu varria, lavava a louça, limpava o fogão, ajudava a fazer geladinho, arrumava o forro do sofá, pegava roupas do varal, dobrava-as... Acho que eu era a única das netas pequenas que se prestava a essas tarefas. Devo ter aprendido com mainha. Quando mainha chegava lá ia logo ajudar minha avó, principalmente nas tarefas mais pesadas. Só depois sentava para conversarem. Eu também gostava de pentear o cabelo de vó e de passar perfume no seu pescoço, quando ela tomava banho e sentava na sua cadeira em frente à televisão. Ela ria com meus gestos e agradecia. Eu não chamava vó de vó. Não sei por que motivo, eu e alguns outros primos nos habituamos a chamá-la somente pelo seu apelido: Lalu. Vó criava galinhas. Ela certamente gostava delas, mas não era essa a sensação que eu tinha. Vó vivia reclamando da ousadia das galinhas em querer invadir a casa, além de outras chateações que os bichos domésticos causam. Às vezes me incomodava o fato de aquelas galinhas serem tão chateadeiras e fazerem minha avó resmungar tanto, e eu aconselhava que ela não as quisesse mais. Mas ela sempre sorria e dizia que não. Eu entendi então que havia algum tipo de necessidade naquela relação conturbada.
Quando minha avó ficou doente, surgiu um impasse: alguns dos filhos achavam que ela deveria ser levada para Salvador, para ser internada e receber os devidos cuidados num hospital. Eu sabia que vó não queria ir. Eu ouvia, quando ela conversava com mainha, qual era opinião dela sobre hospitais. Mas ela sentia dores, e os remédios que estavam sendo administrados só funcionavam um pouquinho. Depois a dor voltava. Prepararam então tudo para levá-la. Eu nunca vou esquecer o olhar de minha avó, sentada em sua cadeira no quintal, no dia em que a levaram para o hospital. Naquele dia a casa ficou cheia de filhos e netos. Minha mãe auxiliou-a no banho, como estava sendo desde que vó começou a ficar frágil. Eu estava triste, porque sabia que ela não queria ir. Antes de sair, minha avó me chamou duas vezes. A casa estava cheia, mas ela pediu a mim dois favores: que a ajudasse a enxugar os pés, antes de calçar a sandália que usaria na viagem, e que pegasse no seu guarda-roupa um lencinho. Explicou-me minuciosamente onde estava guardado o lencinho, como um segredo.
O olhar que ela lançou à casa, já de dentro do carro, na hora de sair, foi igual ao olhar que eu havia notado horas antes, quando ela estava no quintal. Nós nos despedimos acenando e sorrindo, para que ela ficasse alegre. Observei que minha mãe ficou triste. Ela saiu do meio do grupo logo que o carro deu a partida. Estava arrepiada, e me parece que escondeu uma lágrima.
Não durou nem uma semana, recebemos a notícia de que vó havia partido. A cena do momento em que eu e minha mãe fomos avisadas da morte de vó ficou gravada em minha memória de tal forma, que eu não consigo lembrar sem que as lágrimas me voltem à face. Mainha sofreu muito a morte de vó. E eu sofri de dois jeitos: perder aquele elo único com a ascendência de meus pais; e testemunhar a dor de minha mãe por ver partir o seu porto seguro. Sim, mainha tinha esposo, filhos, irmãos, irmãs, amigas, tios e tias. Mas quando ela estava muito triste ou muito chateada ou muito preocupada, ela gostava de conversar era com vó. E depois que vó morreu, quando ela ficava muito triste, muito chateada ou muito preocupada, ela chorava, porque não tinha mais vó para conversar. Muitas vezes eu chorei escondido ao escutá-la dizer que estava sentindo "falta de mamãe". Eu imaginava que devia ser muito doloroso aquele sentimento...
Eu quero crer veementemente que mãe agora está perto de vó. Como eu queria que as duas estivessem perto de mim... A lacuna na minha vida é impreenchível! Mas, se mãe tiver perto de vó, eu vou me alegrar de um jeito: mãe tá feliz. E vó também. E o meu grande sonho, hoje, é um dia poder voltar a estar junto das duas.
Mulheres da minha vida, desejo que estejam bem! Digam a Deus do meu sonho de ir para perto de vocês... E me esperem.
quarta-feira, março 11
Escrevi um poema
Lygia Fagundes Telles
O menino de cara inchada entra na sala de espera e corre choramingando até a enfermeira, não está aguentando de dor, quer que o dentista arranque imediatamente esse miserável. A enfermeira faz uma expressão compungida e pergunta se não me importo de ceder minha hora para o menino. Com todo o prazer - respondo e saio para a rua. Estou leve, inspirada. Nenhum sentimento de culpa. Vou andando e pensando debaixo do sol. Dentes demais. Nervos demais. Num sistema dental assim complexo tem que haver mesmo os inconformados, os dissidentes. Mas a maioria ficou firme, fiel ao regime, até me comovo com tamanha disciplina. E este sol e este ar fino! Escrevo um poema no cartão da hora cancelada: Estou viva./Lúcida./E tirante os dissidentes/os dentes são meus.
O menino de cara inchada entra na sala de espera e corre choramingando até a enfermeira, não está aguentando de dor, quer que o dentista arranque imediatamente esse miserável. A enfermeira faz uma expressão compungida e pergunta se não me importo de ceder minha hora para o menino. Com todo o prazer - respondo e saio para a rua. Estou leve, inspirada. Nenhum sentimento de culpa. Vou andando e pensando debaixo do sol. Dentes demais. Nervos demais. Num sistema dental assim complexo tem que haver mesmo os inconformados, os dissidentes. Mas a maioria ficou firme, fiel ao regime, até me comovo com tamanha disciplina. E este sol e este ar fino! Escrevo um poema no cartão da hora cancelada: Estou viva./Lúcida./E tirante os dissidentes/os dentes são meus.
terça-feira, março 10
segunda-feira, março 9
Rosto 1
E ela percebeu também que havia situações em que o rosto assumia uma forma tão incisiva que a máscara não conseguia adequar-se a ele perfeitamente: a forma do rosto comprometia a moldura da máscara. Nesses instantes, era preciso muito esforço para continuar não sendo.
domingo, março 8
Rosto
Num dia qualquer, ela decidiu comprar uma máscara de alegria. Escolheu uma bem parecida com a sua cara de antes, de modo que aparentasse o mais possível com um rosto real. Vestiu-a e saiu. Foi um sucesso. Todos a cumprimentaram igualmente alegres. E, o mais importante, ninguém notou o artifício. Passaria então a usá-la diariamente. Estava resolvido seu impasse com o mundo lá fora. Contudo, a máscara lhe incomodava, deveras. Não conseguia mantê-la enquanto estava fora da vista do público: o artifício lhe caía aos pés bastava que estivesse só consigo mesma. E a verdade da vida lhe fazia de novo chover.
domingo, março 1
O benfeitor
Ela estava sentada à beira da linha do trem chorando copiosamente. Não sabia como viveria seus dias com aquela mutilação. Perdera o braço direito num acidente terrível! Antes houvesse perdido a vida, pensava no silencioso abismo de sua solidão. Estava desconsolada e só.
Foi ali, diante da linha do trem, que o benfeitor a viu. Não lhe parecera que a moça estivesse cogitando o suicídio. Apesar da visível desesperança, audível a metros de distância pelos seus soluços cortantes, trazia o rosto sereno. O benfeitor se aproximou da moça oferecendo ajuda. Ela levantou o olhar desconfiado para mirá-lo. O seu aspecto pareceu à moça o de um homem sensato. Olhando distraidamente, até tinha um ar angelical. A moça resistiu até onde teve forças (que não eram tantas) antes de aceitar o auxílio do benfeitor. E ele cuidou dela com muito zelo. Por vezes, sentia que, nele, estava sendo restituído o braço direito que, desafortunadamente, perdera.
Certo dia, quando já se havia apagado todo e qualquer resquício de desconfiança do espírito da moça e ela dormia tranquilamente no regaço que ele amorosamente preparara, o benfeitor aproximou-se, silencioso. Olhou-a, sorriu e, resoluto, de um só golpe, decepou-lhe a mão esquerda.
Foi ali, diante da linha do trem, que o benfeitor a viu. Não lhe parecera que a moça estivesse cogitando o suicídio. Apesar da visível desesperança, audível a metros de distância pelos seus soluços cortantes, trazia o rosto sereno. O benfeitor se aproximou da moça oferecendo ajuda. Ela levantou o olhar desconfiado para mirá-lo. O seu aspecto pareceu à moça o de um homem sensato. Olhando distraidamente, até tinha um ar angelical. A moça resistiu até onde teve forças (que não eram tantas) antes de aceitar o auxílio do benfeitor. E ele cuidou dela com muito zelo. Por vezes, sentia que, nele, estava sendo restituído o braço direito que, desafortunadamente, perdera.
Certo dia, quando já se havia apagado todo e qualquer resquício de desconfiança do espírito da moça e ela dormia tranquilamente no regaço que ele amorosamente preparara, o benfeitor aproximou-se, silencioso. Olhou-a, sorriu e, resoluto, de um só golpe, decepou-lhe a mão esquerda.
quinta-feira, fevereiro 26
Elegia 1
Lembro-me de quando querias falar-me de coisas referentes à sua partida... Eu nunca quis dar ouvidos. Achava aquilo uma bobagem. Estaria tão distante isso! Coisa mais sem razão falar de morte! Mas mesmo sem querer, acabava ouvindo um ou outro comentário...
Custa-me ainda acreditar que partistes. Custa-me entender que sua ida devesse ser tão cedo. Sem que ao menos pudésseis embranquecer-lhe os cabelos ou surgir-lhe as mais visíveis marcas do tempo. Sem que ao menos vísseis os frutos dos teus frutos; sem que os ouvísseis doce e ternamente chamá-la de "vó"...
Inútil repetir minha incapacidade de compreender...
(150 dias)
Custa-me ainda acreditar que partistes. Custa-me entender que sua ida devesse ser tão cedo. Sem que ao menos pudésseis embranquecer-lhe os cabelos ou surgir-lhe as mais visíveis marcas do tempo. Sem que ao menos vísseis os frutos dos teus frutos; sem que os ouvísseis doce e ternamente chamá-la de "vó"...
Inútil repetir minha incapacidade de compreender...
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