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sexta-feira, agosto 14

A pedra preciosa

 Um homem, de nome Alfredo,  era conhecido num povoado por possuir uma pedra preciosa. E, de fato, ele não negava a quem o perguntasse. Diziam que era de grande valor mesmo, pois nem era pequena. Todos os dias ele cumpria o ritual de poli-la com uma flanela vermelha antiga  e deixá-la por alguns instantes exposta ao sol, abrindo a já desgastada caixa de sapatos onde a mantinha guardada. Era uma pedra azul, brilhante, de aparência mesmo bonita, diziam todos. Mesmo sem nunca terem visto. 

Como era um povoado distante onde viviam pessoas muito pacatas, não se corria tanto o risco de o seu proprietário ser morto para que a pedra fosse roubada. Mas, por via das dúvidas, diziam os moradores, que naquele saco que seu Alfredo carregava às costas, sempre estava, dentre suas ferramentas de trabalho, a pedra. 

Acontece que ninguém nunca vira o conteúdo no saco que seu Alfredo carregava.  

Volta e meia o questionavam porque não iria ele até a cidade para vender a pedra. Ele ganharia muito dinheiro, teria moradia digna, compraria gados, terras, igualzinho a seu Antônio, proprietário de grande parte das terras do povoado. Mas seu Alfredo era sempre resoluto na resposta: "Minha pedra só me levam de mim eu morto."

Conta-se que numa tarde, enquanto seu Alfredo descansava no seu casebre, um grupo de crianças curiosas intentaram um jeito de besbilhotar o interior da casa, a fim de verem a tal pedra azul. Seu Alfredo, bem humorado, achando graça na astúcia das crianças, teria mostrado a caixa para elas, que ficaram maravilhadas com a beleza da pedra. Mas como palavra de criança não costuma ter valia, ficou o dito pelo não dito.

Pois bem. O que não faz o passar do tempo ao mais intrépido dos mortais? 

De uma hora pra outra, seu Alfredo perdeu o gosto de polir e expor ao sol a pedra. Passou a ser uma ocupação enfadonha, desnecessária até. Também já não se via tanto zelo no trato da caixa que a guardava, tendo por vezes a deixado cair.

Numa manhã, bem cedo, seu Alfredo levantou inquieto. Pegou a caixa e depois de muito olhar a pedra, limpá-la e envolvê-la na velha flanela vermelha, saiu em seu passo lento de todos os dias, só que dessa vez levando a pedra consigo.

Será que enfim seu Alfredo resolvera ir à cidade vender a pedra para, com o dinheiro, comprar terras e gado? O que o teria levado a essa decisão? 

O velho caminhou num percurso diferente do habitual em direção à pracinha no centro do vilarejo. Chegando lá, pegou da caixa e depositou-a debaixo de uma amendoeira, sobre as ruínas de um banco de cimento, onde acomodavam-se idosos na hora da sesta, crianças à tarde, e jovens à noite. Depositou a caixa e saiu, em direção à casa. 

Que havia com seu Alfredo? Desvairou-se? Presssentia a própria morte? 

Não, não endoidou e nem morreu. Mora até hoje no mesmo endereço. Quanto à pedra, dessa ninguém mais teve notícia.


quarta-feira, agosto 12

Toque de recolher

Se fez silêncio, e o menino chora lá dentro. Não há ouvidos que o escutem, nem olhos que o vejam. Na casa escura, bem fechada, nada dá indícios da presença de um pobre menino solitário, todo machucado, que, quando consegue recobrar alguma força, geme de temor. 

Quem o libertará? quem saberá o que se passa em recinto fechado, distante de todos os demais recantos? 

o silêncio de fora faz o menino contorcer de dor. Não há pés que o procurem nem mãos que o encontrem, tudo é deserto.

Não se sabe por quanto tempo, mas... enquanto se fizer silêncio, ficará o menino lá, solitário, a gritar de pavor. 

terça-feira, agosto 11

Casal de pássaros

Eles estavam a construir um pomposo ninho em arvoredo alto e arejado. Trabalhavam incansáveis  numa admirável cumplicidade, alegres e esperançosos dos bons tempos que se anunciavam. Num dia qualquer, quando estavam prestes a fazerem morada no ninho novo, veio um vento forte, não sei de que parte, e levou o pássaro macho.  

sexta-feira, julho 31

Presente pretérito

O vento que fecha julho me fala de passados. 

 Seu som festivo ecoando de uma a outra direção a fazer bailarem as árvores ao seu musical zunido;

 seu gélido toque a clamar aconchego, varria para longe os temores e os pavores, 

 pois, diminutos, sumiam, todos, no abraço 

 dela.

segunda-feira, julho 27

Desnovelo

Alice tinha um gato que era um grude. Não desgrudava de seus passos. Por duas vezes fugiu de casa, para desconsolo da pobre menina. Não se sabe por quais razões o gatinho preterira o colo da menina em busca de outros aconchegos. Depois do retorno da segunda fuga, Alice prometera para o felino travesso que não mais o quereria como seu, tamanho era o mahucado no seu coração criança. De castigo ao fugitivo só comida e leite, nada de afagos e passeios. Mas quem disse que a menina resistiria por muito tempo impor o regime restritivo de afetos para com o gato? Se o gato titubeava nos modos de amar a menina, esta por ele transbordava de bem querer. Os castigos, puro instinto de autodefesa na intenção de evitar novas frustrações. Mais tempo, menos tempo, estavam os dois novamente entrelaçados, na praça, na rua, no parque.
Pobre menina! De quem já fugira duas vezes, seria razoável esperar que novamente o fizesse! Pois Alice dessa vez estava esperta. Decidiu encoleirar o bicho. Nos primeiros instantes, Noveludo demonstrou indiferença ao acessório. Brincou tranquilo e contente com a menina, parecendo satisfeito com a coleira cor do céu. Mas não demorou para que o bichano começasse a intentar modos de se livrar do objeto aprisionador. Alice observava tristonha, e seu coração, gato molhado, já começava a adivinhar os pensamentos ocultos do felino. A menina estava tendo certeza que o gato fugiria mais uma vez. Silenciou, ensimesmou-se, e ficou a espreitar cada movimento do animal, de dia e de noite. As horas em que ele dormia, as horas em que acordava, a quantidade de vezes que a procurava para brincar entre uma refeição e outra...tudo foi anotando no fichário machucado do seu peito que transbordava de bem querer. Qualquer dia, amanheceria novamente só.

domingo, fevereiro 23

23/02/2020

23/02/1980:
Dia em que principia a minha possibilidade de ser.
Bendito sejais por todos os anos.

sexta-feira, novembro 15

Um pingo de água caiu sobre a tela de sonhos verdes
que eu estava pintando:
Acinzentou-a.

quinta-feira, setembro 26

Vinte e seis de setembro

Oh, dia das minhas dores!...
Vi um sol envergonhado, escondido entre nuvens encabuladas, depois de uma noite de traidor descanso.
Vi por derradeira vez minha mãe, depositada em fria lâmina de recinto escuro.
Sozinha.
Abandonada por mim na sua hora mais agoniosa.
- Perdão que nunca me darei.

Oh, dia de minhas lágrimas!...
Inundação dos meus jardins.
Correntezas que levaram o brilho, a cor, o sentido.

Cinco primaveras sem flor.

segunda-feira, março 25

Explicações

Estive ausente em todo o dezembro e janeiro e fevereiro.

Nosso dezembro foi pesado, duro, tenso. Meu paizinho esteve mal! Hospitalizou-se. De 5 a 27 de dezembro estivemos em quatro hospitais, em Saubara e Salvador. Duas internações aqui, duas em Salvador, sendo a mais longa no Hospital de Subúrbio, meu já conhecido de outras tensões. Ah, hospital... Lá vimos nascer o sol do meu 33º solstício de verão e também do natal.
UTI, boletim médico, exames, risco de vida, coração, pressão, remédios, remédios, remédios... ufa!

Meu pai ficou bem! Está em casa, graças a Deus e às intercessões de Nossa Senhora e todos os santos que invoquei nas angustiosas horas de orações e lágrimas. Vive agora uma nova vida. Por força dos ocorridos e do uso de medicamentos que o acompanharão doravante, largou a bebida. Emagreceu, ficando muito fragilizado. Em um mês de retorno a nossa casa, melhorou muito a aparência. Quando o consultam, responde estar bem. Às vezes, declara estar bom! (Para a glória de Deus!, digo no meu íntimo).
Temos agendados exame e consulta, para averiguar outros sintomas. (Como nosso corpo é traidor.) Mas meu pai segue... bem.

Já chegou o outono, e queremos continuar em paz. Que nada grave mais nos acometa, para que vivamos essa e as próximas estações no doce aconchego de nosso lar. Como é doce estar no nosso lar.
Deus nos conserve a paz e a saúde. Assim seja!

quarta-feira, novembro 21

Jozefina

Jozefina era fraca das pernas. vivia caindo e se machucando. Num dia tropeçava nos próprios pés, noutro, adquiria um galo na cabeça.
Certa vez chegara com os joelhos ensanguentados: "que menina desajeitada! como pode ser tão molenga? Toma jeito, menina fraca!"
Brincando no parque numa noite com as amigas, não foi ela dessa vez a machucada. A amiguinha torcera o pé ao pular do escorregador: "coitada da princesa! não chore, vai passar! gelo é bom pra diminuir o inchaço".

Jozefina também ajudou-a nos cuidados do machucado.
Embora seus joelhos calejados volta e meia tornem a sangrar. E só ela vê.